Por Halley Margon — Jornal Opção

As tripas do STF e as do cidadão de bem

Em certo momento da inesquecível sessão do STF de 15 de setembro, o ministro Flávio Dino fez a seguinte declaração: “Quero dizer que é o momento mais corrupto da história do poder judiciário no Brasil… só se fala de corrupção, e a corrupção só aumenta”.

Flávio Dino estava se referindo não apenas à imensa e ineficaz máquina jurídica do país, em suas mais diversas áreas e instâncias, mas àquele organismo do qual faz parte e que deveria atuar de forma exemplar – exemplar até que é, como retrato continuado do maquinismo inteiro.

Parece ser a culminação da própria gênese do Estado brasileiro, formado para amparar e servir integralmente à acumulação privada dos capitalistas, do campo e da cidade. Servir à coletividade, assistir aos mais necessitados naquilo que é básico para sua existência e prosperidade, é uma vaga lembrança evocada à época das eleições, às quais a maioria dos políticos se apresenta com a certeza de que os seus negócios e os dos seus amigos encontrarão favorecimento – e o uso do termo maioria aqui não é figura de linguagem, basta ver o quadro do que saiu das urnas no quatro de outubro.

André Mendonça, Jair Bolsonaro e Kassio Nunes Marques: amigos e aliados | Foto: Divulgação

O escandaloso escândalo Master/Vorcaro apenas escancarou as cortinas que eventualmente tapavam o tamanho dessa tragédia – quando nem tudo foi ainda revelado.

Uma das forças do bolsonarismo se encontra nesse harmonioso matrimônio entre brutos, entre os que desprezam os fatos e as argumentações que tentam elucidar o real, prezando, ao invés, a simplicidade dos raciocínios binários

Dois dias após a referida sessão, os passageiros de um avião aplaudiram com entusiasmo um dos companheiros de viagem, o ministro André Mendonça. Justamente aquele que havia sido encurralado pelas suspeições levantadas ali pelo seu comportamento no cargo. Fervoroso defensor do homem que o indicou para a corte, Jair M. Bolsonaro, da mesma forma que outro dos ministros do STF, Kassio Nunes Marques.

(Segundo reportagem da jornalista Daniela Lima, do UOL, mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro mencionam uma festa realizada com cinco “meninas” num apartamento em São Paulo, em 28 de fevereiro de 2025, para inteiro e exclusivo desfrute do nobre ministro.)

Lula da Silva e Flávio Bolsonaro: candidatos a presidente da República | Fotos: Reproduções

No mesmo dia em que o afilhado de Jair M. Bolsonaro era aplaudido no ar, vinha à tona revelações de depósitos suspeitos originários do Banco Master em seu nome.

Mas nem é este o ponto. A questão aqui são os aplausos e suas razões de ser. Pelo menos uma dessas razões é, mais uma vez, a da identidade.

É mais que óbvia a identificação entre os que aplaudem e o que é aplaudido.

Assim como parece óbvio que uma das forças do bolsonarismo se encontra exatamente aí, nesse harmonioso matrimônio entre brutos, entre os que desprezam os fatos e as argumentações que tentam elucidar o real, prezando, ao invés, a simplicidade dos raciocínios binários.

O que aplaudiam os passageiros daquele voo era justamente o olhar perdido e simplório, como o de um cordeiro, daquele humílimo servo de Deus, em contraponto aos letrados senhores da Suprema Corte – os mesmos que condenaram a 27 anos de cadeia um outro homem de bem e padrinho de ambos. Um homem bom e inocente, como eles mesmos – sob o prisma dos seus próprios olhares, é claro.

O fracasso radical como sujeito, sua transformação em coisa, precisa ser mascarado e negado, revertido em força e poder. É assim como ele trata de criar uma profunda intimidade com aqueles que detém o poder — o seu candidato

Quanto ao vasto e complexo mundo ao redor, não interessa ver.

Por exemplo: é pelo menos digno de nota que – como anotou um colunista de “O Globo” – o único dentre todos os candidatos a presidente a comprovadamente “pedir dinheiro para Vorcaro suba nas pesquisas”. Acrescente-se a isso que o mote favorito de sua campanha seja o que decreta, com a mesma firmeza das sagradas escrituras, que seu adversário é ladrão.

Flávio Dino: ministro do Supremo Tribunal Federal | Foto: Gustavo Moreno/SCO/STF

(Mas, tudo bem, porque, afinal, seus milhões de eleitores estarão sempre dispostos a acreditar que “cheio significa vazio, certo significa errado, branco significa preto, tudo significa nada, mentira significa verdade, pobre significa rico”. Ver artigo anterior: https://tinyurl.com/34fytyt7)

A dissociação cognitiva (e a novilíngua) permite que o homem de bem reassuma o controle de um universo que definitivamente escapou de suas mãos, que ele é incapaz de compreender.

Perdido, sem força ou capacidade para se localizar no interior das normas básicas de funcionamento desse universo reificado onde se vê transformado num inseto, ele se recolhe no aconchego das certezas absolutas criadas por ele (ou a ele sugeridas) e para ele.

Ali nada lhe é cobrado, nenhuma comprovação do que pensa ou imagina pensar. Sua palavra basta. Sua crença. Sua fé. Sua rudimentar mitologia. Assim ele é de novo senhor da realidade na qual foi transformado numa peça desimportante de um imenso maquinismo.

Por isso ele também sente raiva, repulsa pela realidade que insiste em questionar suas certezas, o oprime e sufoca, e a frustração escala, então, ao nível do insuportável.

A realidade, os mais elementares sinais emitidos por ela, urge ser negada para que ele possa se sentir sujeito das próprias ações, reassumindo o controle pelo menos da sua impotência, da falência da sua capacidade de entendimento.

Ao mesmo tempo, seu fracasso radical como sujeito, sua transformação em coisa, precisa ser mascarado e negado, revertido em força e poder. É assim como ele trata de criar uma profunda intimidade com aqueles que detém o poder – o seu candidato.

E, de novo, a linguagem é a ferramenta que usa para criá-la. Basta que o nomine apenas pelo primeiro nome, da maneira a mais natural possível, como se estivesse se referindo a um parente ou amigo próximo: “O Flávio…”.

Ao invés de alguém que legitimamente deva representar os seus interesses – e de milhões de outros como ele –, o escolhido se transforma numa entidade mítica por meio da qual ele supostamente reassume o comando da realidade que o sufoca.

Talvez ele, então, esteja mesmo certo ao se referir àquela entidade que elegeu como Mito. Assim o círculo se fecha. O caos do universo volta ao ordenamento readquirindo sentido. E o homem de bem pode viver em paz.

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Fonte: Jornal Opção

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