O livro Elementais, de Écio Duarte, contém uma poesia densa, doce e provocativa

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Por Redação — Jornal Opção

O livro Elementais, de Écio Duarte, contém uma poesia densa, doce e provocativa

Luiz Cláudio Veiga Braga   

Na surgência pelo batismo, Écio Duarte, a quem os amigos mais próximos, os eleitos, os escolhidos, os que possuem o placet para desfrutar da sua vizinhança pessoal, chamam-no de “Ecinho”, a exemplo de Chaul – O Caipira do Setor Sul (Écio Duarte e Leonardo Carmo), nada obstante o emprego do diminutivo, expressão de afeto, seja contrastante com o seu gigantismo, posto que a informação circulante o identifica como engenheiro mecânico, cursos em universidades, daqui e d’além mar, gestor educacional, compositor, cantor, escritor, poeta (não bissexto), homem multifacetado, de acendrada intelectualidade, provocador da inveja cristã aos que com ele travam conhecimento ou se embevecem com as suas apresentações musicais, sempre envolventes.                                      

O pórtico inicial deste meu atrevimento na aceitação do convite para prefaciar a sua obra poética, “Elementais”, constitui arremedo de tracejamento da figura singular de formação de boa cepa, que oferece o encantamento nas diversas áreas de atuação, educacional, artística, cultural, sempre pronto à entrega do primor como elemento essencial dos seus inúmeros ofícios, assegurando, pelo talento, a qualidade da sua produção, nota essencial da “beleza que salvará o mundo”, como assentou Fiódor Dostoiévski, em “O Idiota” (1869).

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Écio Duarte: poeta | Foto: Divulgação

O poeta não é “fingidor”, ele é verdadeiro, conhece o que concebe nos seus versos. “Elementais” consagra essa visão, nos vários poemas contidos na obra, quando fala de onde veio, da origem humilde, do afeto materno, dos amores, da vida, da sua atividade profissional, da sua música, do fim que leva ao recomeço, enquadrando cada um nos elementos da natureza ou nos espíritos dela, a Terra – Geografia do Invisível, a Água – Rios de Tinta e Sal, o Fogo – O Incêndio Que me Habita, o Fogo – Mapas de Vento.

Nessas suas andanças pelo divino da natureza, o poeta chama pelos ontens, detalhando as pessoas dos seus afetos, minudenciando os espaços corpóreos, descrevendo com o conhecimento do observador amoroso o ser observado

A ele, e a nós, não importa se “Elementais” transporta os espíritos da natureza associados aos elementos clássicos (terra, água, ar e fogo), responsáveis por regular a energia do universo, a disputa não se trava entre a alquimia de Paracelso ou a tradição esotérica dos Gnomos, guardiões das florestas e minerais, Ondinas, dos rios, lagos e oceanos, Sífides ou Silvos, habitantes dos ventos e da atmosfera, Salamandras, energias chamadas transformação, ou a doutrina de Kardec, em que são avaliados como seres em estágio inicial de evolução, sujeitos à orientação dos que se encontram em estágio superior. Não, não importa.

Ecio Duarte capa do livro Elementais Foto Divulgação500

Nessas suas andanças pelo divino da natureza, o poeta chama pelas memórias dos muitos ontens da vida, detalhando as pessoas dos seus afetos, minudenciando os espaços corpóreos, descrevendo com o conhecimento do observador amoroso o ser observado, sublimando entes queridos nas anotações “das rugas nas mãos da minha avó, o anel de ouro e seu design rebuscado, a vitrola no escuro do canto da sala…”, a adequação com a geografia do invisível.

O poeta não perde a oportunidade de expor os seus parceiros que estão sempre presentes, o livro, a música, a gritaria, os pássaros, os cães, a visita que gostaria, as coisas e as pessoas que tocam os seus sentidos, que o substituem quando se farta da própria companhia, demonstrando o enleio com tudo aquilo que, mesmo na simplicidade descritiva, preenche a sua ausência, caro ao mundo da sua existência, não regateia em assumir essa necessidade.         

O poeta escreve sobre o etéreo, o que não é tangível, explorado na ideação, mas assume a preocupação com a realidade, não esquece da sua e da nossa finitude, palmilhando, com sensibilidade, pela última viagem, a morte fria          

Ele não abomina a ensancha de dizer do gosto e do gozo de cada detalhe de quem ama, permitindo que o leitor que bebe da sua poesia participe da visão daquilo que o estimula ao bem-querer, dos sabores, do olfato, das imagens, dos sons, do despertar de todos os sentidos, o endereçamento aos que merecem a destinação da nobreza do sentimento superior do ser divino, que as vezes está com as vestes do humano.

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Écio Duarte: sua poesia é doce, musical, provocativa, significativamente convocante a reflexões | Foto: Divulgação

Incrivelmente, escreve sobre o etéreo, o que não é tangível, explorado na ideação, mas assume a preocupação com a realidade, não esquece da sua e da nossa finitude, palmilhando, com sensibilidade, pela “última viagem”, a “morte desgrenhada e fria”, como descrita por Bilac, In Extremis, indagando, mesmo com a resposta pronta, para onde irá tudo, o seu ajuntado, o seu patrimônio intelectual, o resultado do seu ofício, aquilo que a sua existência terrena permitiu-lhe acervar.                             

A poesia é doce, tocante, musical, provocativa, significativamente convocante a reflexões, a profusão dos temas abordados, formando arco que, juntando extremos, a sabedoria conciliatória, permite convivência entre tangências que se afiguram em contestação, origem, vida, amor, beleza, finitude, desnecessidade, assassinos, espera, parceiros, “despiora”, aquele que não chegou, como Benjamin, a poetização na língua de Shakespeare, revelando que na sua versejação não conhece fronteiras, ela é mundializada.

O voo sobre o produto do poeta não permite que se faça aferição acadêmica, porque a densidade dos poemas reclama observação mais atenta, mais dedicada, leitura com régua e compasso, esquadrinhando todos os versos, compreendendo-os, requestando o conhecimento da sua arquitetura e a beleza do seu conteúdo, permitindo que o leitor seja tocado, sensibilizado, envolvido, se apaixone, “Antes do Tiro”, porque, quando chamado por Deus, a Ele se apresente mais elevado,  purificado.

A obra contém uma confidência, o poeta espera o nascimento do poema mais belo, como dito em “Esperando Benjamim”, mas se nutre da ilusão, porque são todos sublimes, o “filho da felicidade” já chegou, concebido pela união de Jacó e Raquel, o vínculo permitiu que fosse gerado, o parto deve ser comemorado, o festejamento é de todos, porque a poesia oferecida traz o sinete dos grandes vates, preciosidade a ser lida, escutada, admirada, espargida, guardada, eternizada.

Luiz Cláudio Veiga Braga, desembargador do TJGO, membro da Academia Goiana de Letras, da Academia Goianiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. É colaborador do Jornal Opção. (O texto, prefácio de “Elementais”, é publicado com autorização do autor.)

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Fonte: Jornal Opção

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