Voto de sangue
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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A maior concentração de assassinatos por motivação política do Rio de Janeiro fica na Baixada Fluminense
Adversários na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PSD, e Douglas Ruas, do PL, dedicaram à Baixada Fluminense a maior parte de suas agendas nos últimos dias de campanha. A região, dividida entre lulistas e bolsonaristas e decisiva do ponto de vista eleitoral, vive um raro momento de “paz” política, mas nem sempre foi assim. Um estudo recente produzido pelo Observatório de Favelas em parceria com a Universidade Federal Fluminense, revela que na Baixada aconteceram 38 dos 56 casos de assassinato por motivação política registrados no estado desde 2020, período analisado pela pesquisa Violência Política, Segurança Pública e Eleições: Dados e Discursos em Um Ano Eleitoral.
O número de mortes na região representa 67% dos casos registrados pela pesquisa, que abrangeu toda a Região Metropolitana do Rio e apontou um total de 374 episódios de violência de diversos tipos ocasionados por motivação política no período estudado. Em termos de homicídios, ninguém supera a Baixada, que registrou casos nos anos eleitorais de 2020 (oito), 2022 (quatro) e 2024 (oito). Entre as eleições, os anos ímpares também não foram poupados, com execuções políticas em 2021 (nove), 2023 (quatro) e 2025 (três). Em 2026, dois homicídios foram registrados até junho. Entre janeiro de 2020 e junho deste ano, a Baixada também foi cenário para a maior parte dos casos de violência política com emprego de armas de fogo, com 88 casos registrados.
Embora atentados contra a vida em outras sub-regiões da Região Metropolitana também tenham sido identificados pela pesquisa, a forte concentração de casos desse tipo na Baixada é sintoma de uma distribuição territorial bastante desigual da violência política letal no estado. “Enquanto modalidades como ameaças, agressões físicas ou constrangimentos podem ocorrer em contextos variados e atingir perfis bastante distintos de vítimas, as execuções políticas apresentam um padrão espacial mais definido, com alta incidência em territórios como a Baixada, marcados por disputas locais particularmente intensas”, constata o estudo.
A eliminação física de atores políticos é um recurso empregado em diferentes circunstâncias nas disputas pelo poder na região, onde ocorreram 68 assassinatos políticos desde 2015, afirma o estudo. De lá para cá, houve pelo menos três homicídios por ano, com o pico sendo atingido durante as eleições municipais de 2016, que contou com 13 episódios. Os anos de eleições municipais concentram os maiores números. “Mais do que quantitativa, trata-se de uma diferença na própria configuração de disputas políticas que envolvem relações de poder mais capilarizadas e territorializadas, nas quais estão em jogo o controle sobre prefeituras, câmaras municipais, cargos e redes clientelistas”, afirma o documento. Coordenador-geral da pesquisa, André Rodrigues afirma que três elementos centrais atuam como vetores desse cenário. Um deles é o comportamento de ódio, que inclui conteúdos, gestos e palavras e é um aspecto associado, segundo o professor da UFF, à emergência de forças de extrema-direita no estado. Outros são a presença de agentes de segurança pública no cotidiano da política nos bairros e comunidades e a violência de Estado, expressa pela recorrência de casos de repressão violenta a manifestações políticas em áreas de favelas e periferias.
“Quando ameaças atingem lideranças, candidatos e eleitores, o medo passa a funcionar como mecanismo de controle da expressão política”, diz Leandro Marinho
Rodrigues diz que a intensificação da presença da extrema-direita na vida pública não teve efeitos significativos para o cenário histórico da violência como recurso político na região. “Ainda que observemos alianças conjunturais entre o bolsonarismo fascista e a política tradicional na Baixada, é essa segunda que segue dando o tom dos modos de constituição do poder”, diz. Historicamente, o acesso ao “poder de matar” sempre atuou como um modulador dos modos de construção do poder local. “Os chefetes tradicionais da política baixadense e as metamorfoses dos modos de organização do crime são operadores centrais das disputas locais.”
O resultado da violência política é a redução do espaço para a participação dos habitantes da Baixada na vida pública. “Quando ameaças, agressões e assassinatos atingem lideranças, candidatos e eleitores, o medo passa a funcionar como mecanismo de controle do território e da própria expressão política”, afirma Leandro Marinho, dirigente do Observatório de Favelas e integrante da coordenação executiva da pesquisa. Os vínculos entre as elites locais e grupos criminosos faz com que atores políticos que ameacem romper determinados arranjos se tornem alvos de intimidação e violência. “É um cenário que desestimula a organização coletiva, restringe o debate público e faz com que moradores deixem de se candidatar, votar, denunciar problemas ou defender determinadas pautas. É uma democracia em que o direito formal à participação existe, mas sua realização concreta é limitada pela violência”.
Secretária estadual de formação política do PT e moradora de São João de Meriti, onde foi candidata a vereadora em 2024, Letícia Florêncio afirma que a Baixada Fluminense sofre com a invisibilidade. Em muitos casos, a violência política nem sequer ganha repercussão. “As vítimas não são apenas mulheres candidatas. Conheço lideranças comunitárias, de movimentos populares, sociais e ONGs que já sofreram perseguições e intimidações por defender a pauta dos direitos humanos”, revela.
A forte presença de grupos de direita e extrema-direita na política institucional faz parte da realidade local, diz Florêncio, mas isso não significa que quem pensa diferente deve ser silenciado. “O problema começa quando pautas como igualdade racial, direitos das mulheres e defesa das populações mais vulneráveis são distorcidas para transformar seus defensores em inimigos. A crítica faz parte da democracia. O que não faz parte é ser ameaçado, perseguido, sofrer intimidação ou tentativa de silenciamento”, lembra. O medo faz com que muitos moradores deixem de participar de atividades políticas. “A democracia perde sua voz”, resume Florêncio, que lembra: “Para que essa realidade mude, é necessário denunciar e investigar esses casos com a seriedade que merecem”. •
Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Voto de sangue’
Maurício Thuswohl
Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro
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Fonte: Carta Capital