Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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O suíço Nelio Biedermann escreve um épico de tom contemporâneo sobre a decadência do Império Húngaro

Descendente da nobreza húngara, o suíço Nelio Biedermann causou alvoroço na literatura europeia com o romance Lázár, escrito em alemão e agora lançado no Brasil.

Biedermann constrói uma saga familiar que atravessa gerações e, a partir dela, nos oferece uma reflexão sobre a decadência das elites aristocráticas na primeira metade do século XX.

A dinastia Von Lázár é rica – muito rica, diga-se – e, além de propriedades, detém grande poder na Hungria.

A mansão onde a família vive, em ­Pécs, no sul da Hungria atual, é cercada por uma floresta perigosa. Parece um lugar saído de uma fábula gótica.

Nas primeiras páginas do romance, quem chega ao mundo é Lajos, uma criança tão branca que parece de vidro, e cujo destino, em princípio, é ser herdeira.

Mas as rodas da história se movem, e as guerras, o fascismo e o comunismo entram em cena, destruindo o Império Húngaro e, por consequência, a vida dos Lázár.

Seguimos a história acompanhando Sándor e María, pais de Lajos e de sua irmã, Ilona, e, depois, os filhos de Lajos, chamados Pista e Eva. Cada geração está diante de diferentes desafios políticos e sociais.

O autor, para narrar as interferências da história sobre a vida desses ­indivíduos, segue um formato episódico, no qual macro e micro nem sempre parecem bem concatenados.

Tudo se move rapidamente na narrativa de Biedermann.

LÁZÁR. Nelio Biedermann. Tradução: Kristina Michahelles. Record (225 págs. 74,90 reais)

Nascido em 2003, ele é um escritor da geração Z que se propõe a criar um romance épico para os tempos presentes e, na contramão da cartilha literária mais usual, que defende a narração das ações, opta por descrevê-las. Com isso, é como se tudo fosse inanimado.

O resultado é uma narração peculiar, que nem sempre transcorre suavemente. Os personagens, além disso, são destituídos de nuances, como se tivessem sido criados para representar determinados tipos históricos.

A família do próprio Biedermann fugiu da Hungria para a Suíça, em 1950, com a ascensão do comunismo em seu país.

Há, portanto, paralelos entre o clã ficcional do romance e a vida do autor.

E o que Nelio Biedermann talvez tenha buscado, por meio de Lázár, foi exorcizar, pela escrita, o trauma geracional que vivenciou. •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O ocaso de uma dinastia’


Alysson Oliveira

Alysson Oliveira é jornalista, mestre e doutor em Letras pela FFLCH-USP, onde realiza também pesquisa de pós-doutorado. Escreve sobre livros para a CartaCapital.

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Fonte: Carta Capital

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