Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

Menu

Já é assinante?
Acesse sua conta e leia agora mesmo

Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil

Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil

Melhor oferta!

assine e leia

A Cia. LaMínima, referência na palhaçaria brasileira, dá início às celebrações em torno dos 30 anos do grupo

A Cia. LaMínima, uma das mais longevas companhias de palhaçaria e circo-teatro do Brasil, está prestes a completar 30 anos.

Em 1997, os palhaços Agenor e Padoca – respectivamente, os artistas Fernando Sampaio e Domingos Montagner – estrea­ram no palco, interpretando duas bailarinas que pretendiam apresentar um caprichado pas de deux. O espetáculo, batizado de Cia. de Ballet, parodiava números acrobáticos de circo e fazia parte da programação do Movimentos Sesc de Dança, festival promovido pelo Sesc São Paulo.

Foi o início oficial da LaMínima. Sampaio e Montagner atuavam juntos em números circenses de rua desde o fim dos anos 1980, por conta do curso no Circo Escola Picadeiro, onde se conheceram. No aprendizado da arte da palhaçaria, tiveram entre seus mestres Roger Avanzi, o palhaço Picolino.

De lá até hoje, o grupo consolidou uma trajetória bem-sucedida, que soma 19 espetáculos de palco e de rua, alternando a linguagem teatral e a circense, sempre com o palhaço e o riso como protagonistas.

Em 2016, a LaMínima sofreu um baque com a morte de Domingos Montagner, carinhosamente apelidado de Duma pelos companheiros. Desde então, o núcleo duro da companhia é formado por Sampaio, Fernando Paz e Filipe Bregantim.

Como parte das celebrações do 30º aniversário, o trio apresenta o ­Cabaré LaMínima ao Máximo, reunindo números que combinam palhaçaria, acrobacia, malabarismo e cenas de circo-teatro, numa espécie de síntese artística das três décadas.

O espetáculo, cuja circulação começou em setembro, passa pelo Teatro Flávio Império, na Zona Leste da capital, no sábado 10, e terá sessões em outras cinco cidades da região metropolitana de São Paulo. Estão previstos também encontros com o público e uma exibição ­online do espetáculo.

“Nossa ideia foi reunir o melhor da ­LaMínima entre os números que a gente apresenta nas ruas, no palco e no picadeiro”, conta Fernando Paz. A escolha de repertório do Cabaré funcionou como uma espécie de reencontro da companhia com a própria história, revisitando esquetes de obras como Luna Parke, Reprise, Rádio Variété e Circo Charanga, entre outras.

“Nós, os palhaços, somos o reflexo da sociedade em que vivemos”, afirma ­Filipe Bregantim. “Entre as nossas criações mais antigas, algumas esbarram em questões importantes. Há números que envelheceram bem e outros, mal. E há os que pararam de fazer sentido ou que nunca deveriam ter feito sentido em tempo algum.”

Assim, a seleção deixou de lado esquetes que poderiam, no momento presente, soar machistas, homofóbicas ou racistas. “Como artistas, estamos abertos a mudanças e atentos a não reforçar estereótipos e preconceitos”, completa Bregantim.

Um dos fundadores da companhia foi Domingos Montagner, morto em 2016. Entre seus mestres, os artistas tiveram Roger Avanzi, o palhaço Picolino

A linguagem circense ganha destaque no Cabaré, mas o repertório de palco da ­LaMínima não fica atrás em êxito com o público e a crítica. Em 2008, a dupla Sampaio e Montagner dividiu o troféu do Prêmio Shell de Teatro, em São Paulo, na categoria Atuação por A Noite dos Palhaços Mudos.

O espetáculo, baseado na história em quadrinhos homônima criada pela cartunista Laerte, teve direção de Álvaro ­Assad. Conta a história de um palhaço cujo nariz foi arrancado por um homem de terno. Ele e um companheiro empreendem, então, uma série de artimanhas para recuperar a pequena máscara vermelha.

Em 2018, Pagliacci – a obra que a ­LaMínima criava quando Montagner faleceu – recebeu um novo Prêmio Shell, desta vez pela melhor música, laureando Marcelo Pellegrini. E Ordinários conquistou, em 2025, o Prêmio APTR de Tea­tro, concedido pela Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, como o melhor espetáculo do ano na temporada carioca.

“A gente gosta muito dessa diferença entre o pacto das ruas e o do teatro”, diz Paz. “No teatro, as pessoas já estão convencidas de que vão passar uns 50 minutos naquele espaço. Na rua, não. Tem gente que nem foi para ver, estava passando e vai ficar ou não a depender se conseguimos atrair sua atenção.”

Apesar de o palhaço continuar a ser uma figura bastante acolhida pelo público, como os próprios artistas da companhia atestam, sua composição é complexa. “É um ofício que exige muito, ainda mais agora. A gente tem de estar bem predisposto a atuar de várias formas em vários espaços e ao mesmo tempo”, afirma Fernando Sampaio.

Diversos artistas nacionais e internacionais contribuíram com as criações da LaMínima ao longo dos 30 anos de trajetória. Entre eles, os brasileiros Antônio Nóbrega, Chico Pelúcio e Luís Alberto de Abreu, o italiano ­Leris Colombaioni e o argentino ­Fernando Cavarozzi, o Payaso Chacovachi.

Não faltam recordações de destaque na trajetória da companhia, em especial quando os artistas são surpreendidos pela massiva presença de público e pela reação calorosa da plateia.

“Um marco, que explica muito a trajetória da La Mínima, é quando – naquele momento, entre o segundo e o terceiro sinal – os três se reúnem e dizem: ‘Vamos?’”, conta Paz. “Não importa onde, se numa escola na periferia ou em um grande teatro, a gente entra sempre para fazer o nosso melhor espetáculo.” •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem perder a piada’


Maria Fernanda Vomero

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.


Desenvolvido por OKN Technology Agency

Fonte: Carta Capital

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *