Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Israel instrumentaliza as Escrituras para justificar a violência contra os palestinos, afirma o pastor Munther Isaac

No Natal de 2023, o líder cristão palestino Munther ­Isaac decidiu não ficar em silêncio diante das mortes em Gaza. Ao montar um presépio em sua igreja, apresentou o Menino Jesus sob os escombros e coberto pelo lenço palestino que representa a resistência. Naquele momento, Isaac era o pastor da Igreja Luterana de Belém, na Cisjordânia. Seu gesto ecoou pelo mundo. Hoje ele comanda a igreja de Ramallah e, na entrevista a seguir, concedida durante uma passagem pelo Brasil, denuncia a instrumentalização da Bíblia para justificar violações de direitos humanos dos palestinos por parte de Israel. O pastor cristão nasceu em Belém e fez doutorado em ­Oxford. Seu discurso é de revolta e indignação diante do imobilismo do mundo.

CartaCapital: Existe realmente um cessar-fogo em vigor nos territórios palestinos?
Munther Isaac: Não. Na Cisjordânia, estamos sob constante ataque. Há uma anexação diária de terras por parte do governo de Benjamin Netanyahu, com uma expansão dos assentamentos. Nos check points, precisamos esperar de quatro a cinco horas por dia para passar. Portanto, é tudo menos um cessar-fogo ou paz na Cisjordânia. Israel controla a maior parte da região, mas agora amplia o controle sobre terras, expandindo novos assentamentos de colonos. Eles anunciaram a construção de uma estrada entre os assentamentos, que eram isolados. E isso corta Ramallah pela metade. Os ataques e a violência são reais. Nosso temor é de que a escalada que vimos em Gaza se repita na Cisjordânia. Esse é o pesadelo.

Imagem: Redes Sociais

CC: Como líder de uma instituição religiosa e cristã, também teme a violência?
MI: Todos os palestinos são alvos. Para Israel, somos palestinos. Pouco importa se somos cristãos ou muçulmanos. O governo de Israel deixou claro que o objetivo é o de forçar os palestinos a abandonar a região. Portanto, farão o que for necessário para garantir que não exista futuro para nós. Pela definição do direito internacional, isso é limpeza étnica. A última coisa que Israel quer é que os palestinos reconstruam Gaza. Por isso não há paz no local. Querem que os palestinos saiam. O próprio ministro da Defesa afirmou esperar o sinal verde dos EUA para transladar milhares de habitantes de Gaza. Apenas precisam encontrar um destino para eles. No fundo, o que existe é uma política agressiva para nos tirar de nossas terras e a Cisjordânia está no coração dessa batalha. O movimento sionista deixou de ser secular para ser religioso. Não apenas usam termos religiosos, e acreditam que têm a anuência de Deus para cometer essa violência, como acreditam que a Samária, o nome dado à Cisjordânia, é o coração da batalha. Esse é o cálice sagrado. É o que chamam de terra bíblica. O discurso não é mais o de criar um Estado seguro para o povo judeu. O objetivo é restabelecer os locais bíblicos, de acordo com as escrituras sagradas. É nesse aspecto que as coisas ficam assustadoras para nós.

“Textos religiosos devem ser usados para unir os cidadãos, para promover o amor e a igualdade, não a supremacia ou a limpeza étnica”

CC: Como cristão, de que forma o senhor se sente quando um argumento bíblico é usado para justificar a violência?
MI: Fico indignado. Textos religiosos devem ser usados para unir os cidadãos, para defender a Justiça. Para promover o amor ao vizinho e igualdade. Não a supremacia ou limpeza étnica. Vemos o abuso de nossos direitos humanos sob um suposto direito bíblico. Um colono aparece num vilarejo e diz que aquela terra é sua. Quando alguém questiona, a resposta dele é: leia a Bíblia. É possível que ele tenha vindo dos Estados Unidos ou de outro ­país, ganha direitos políticos, motivação religiosa e, protegido pelos militares, quer expulsar os palestinos. É chocante que mesmo na ONU Israel continue a usar a Bíblia e sugira a leitura dos textos sagrados. Seu raciocínio é simples: “Esqueçam o direito internacional, os crimes de guerra. Abram a Bíblia e vejam que é nossa terra e que podemos fazer o que bem entendermos”. Mesmo se isso se traduzir em abuso de direitos e roubo de terras que foram, ao longo de gerações, dos palestinos. O que ocorreu em 1948 se repete agora.

CC: O senhor esteve no Brasil e viu evangélicos com bandeiras de Israel. O que sentiu?
MI: Nas nossas conversas, nos confessaram que davam por certo que a Bíblia indicava que deveriam apoiar Israel. Mas que não sabiam detalhes sobre o que está ocorrendo. As perguntas também revelaram desinformação sobre os palestinos. Estavam em choque com a existência de palestinos cristãos, achavam que todos são do Hamas. Não sabiam a diferença entre Cisjordânia e Gaza. E, ao mesmo tempo, não sabiam do contexto de 1948 e tudo o que ocorreu antes do genocídio em Gaza. Como cristãos palestinos, precisamos de um maior contato com a igreja no Brasil.

Imagem: Pablo Garrigos/FEPS

CC: O Conselho da Paz de Trump tem alguma chance de dar a resposta que a região precisa?
MI: Ele está fadado ao fracasso, pois é baseado no conceito de paz pela força, não por direitos. Por anos, palestinos alertam que não há paz sem justiça. Não se pode colocar sua vontade sobre a dos outros e achar que isso vai gerar a paz. Que acordo é esse que não reconhece que crimes de guerra ocorreram, que não reconhece a autodeterminação? Mais de mil palestinos foram mortos desde o cessar-fogo. Portanto, não existe verdadeiramente um cessar-fogo. Agora, a escalada de tensão na Cisjordânia pode colocar em risco qualquer perspectiva de paz. ­Bezalel Smotrich, ministro das Finanças de Netanyahu, afirmou que Israel deveria conduzir uma guerra na Judeia e na Samária e eliminar a Autoridade Palestina. Não são grupos obscuros que dizem isso. É o ministro das Finanças. O que aconteceu em Gaza foi transmitido ao vivo. E, ao mesmo tempo, vemos Netanyahu fazendo bullying de países e falando com arrogância na ONU. Se nada os parou em ­Gaza, o que vai impedir uma limpeza étnica de vilarejos inteiros na Cisjordânia?

CC: Entre os palestinos, existe esperança de que haja responsabilização pelos crimes?
MI: Perdemos a esperança de que a comunidade internacional consiga impor qualquer tipo de responsabilização. Agradecemos às nações que cobram isso e que tomam medidas para sancionar produtos de assentamentos. Mas isso é muito pouco. Israel precisa ser isolado e os criminosos precisam ser julgados. A não ser que o plano seja o de declarar que tribunais internacionais não são mais necessários e que superpotências possam decidir o certo e o errado. É um momento muito grave na história da humanidade. Se o direito internacional não significa nada em Gaza, não significa nada em nenhuma parte do mundo. O que estamos dizendo é que, ao não responsabilizar Israel, estamos tornando a justiça irrelevante. E isso é um momento assustador. Tiranos poderão fazer o que quiserem, se tiverem o apoio de uma superpotência. •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Que Deus? Que pátria? Que família?’


Jamil Chade

Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog

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Fonte: Carta Capital

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