Vitória de Flávio Bolsonaro pode levar Brasil a deixar o BRICS, diz analista

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Por João Antonio Cunha — Brasil 247

247 – A eventual eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a Presidência da República poderá alterar a política externa brasileira e levar o país a deixar o BRICS, segundo avaliação do professor de ciência política Fabiano Mielniczuk, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Clube de Valdai. A análise foi apresentada em entrevista à Sputnik Brasil durante a 23ª Reunião Anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais, realizada na região de Moscou.

O encontro reúne cerca de 120 participantes de 40 países e ocorre de segunda-feira (28) a quinta-feira (1º), com debates sobre a capacidade de controle e previsibilidade da política internacional diante da crise das instituições intergovernamentais.

Na abertura do evento, Mielniczuk abordou os efeitos do avanço da inteligência artificial sobre a política internacional. Para ele, o Estado liberal ocidental utiliza a tecnologia e o apoio de grandes conglomerados do setor para ampliar sua influência sobre outros países e impor uma determinada concepção de moralidade.

“Assim como as alucinações da inteligência artificial, muitos líderes ocidentais combinam palavras que têm vida própria e formulam frases que são logicamente coerentes, mas não têm fundamento na realidade”, afirmou.

O professor também comentou o relatório deste ano do Clube Valdai, intitulado “Sem pânico: o Estado e responsabilidade pelo futuro”. O documento aponta o caos como uma das características da atual política internacional e sustenta que o Estado continua sendo um instrumento de proteção diante das incertezas.

Segundo Mielniczuk, o avanço tecnológico tornou necessário discutir limites para o uso dessas ferramentas. “Chegou a hora em que é necessário pensar em limites, já que a tecnologia traz tanto possibilidades ilimitadas como riscos infinitos”, afirmou.

Ele também defendeu uma atuação maior do Estado diante dos riscos associados ao desenvolvimento tecnológico: “Acho que a grande questão desse ano nos debates aqui é de que o Estado, que por muito tempo foi desmerecido como um ator que não seria importante na história no fim da Guerra Fria, volta a ter um protagonismo, e volta a ter um protagonismo fundamentado em questões éticas e questões morais. Sem o Estado para proteger o cidadão contra esse tipo de risco que nós corremos, vai ficar muito difícil de se viver decentemente na Terra.”

O relatório apresentado no encontro adota, segundo seus autores, uma perspectiva de otimismo cauteloso. As mudanças na política internacional são tratadas como resultado da necessidade de rever normas que deixaram de responder às novas circunstâncias, e não como um desastre natural.

BRICS e diversificação financeira

O futuro do BRICS também foi discutido durante a reunião. Gustavo de Carvalho, chefe do programa em diplomacia e governança africana no Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais, afirmou que o movimento do grupo não deve ser compreendido apenas como um processo de desdolarização.

“É um processo de diversificação de mecanismos e sistemas quando começamos a ver o sistema do dólar americano não como um bem comum global, mas sim como uma ferramenta política que pode ser utilizada beneficamente muitas vezes, mas crescentemente vista de uma forma muito mais arriscada”, afirmou.

Para Carvalho, a diversificação permite ampliar as alternativas para as transações internacionais entre os integrantes do agrupamento.

Mielniczuk também avaliou que o BRICS funciona como uma plataforma de coordenação entre países em desenvolvimento e do Sul Global. Segundo ele, o grupo pode contribuir para a interlocução entre integrantes que possuem divergências, embora não seja uma aliança militar.

Ele citou como exemplos as relações entre China e Índia, Emirados Árabes Unidos e Irã, além de Etiópia e Egito: “O BRICS tem uma grande vantagem, que ele é uma plataforma de coordenação entre países em desenvolvimento e países do Sul Global, que não precisa de intermediação dos países do Norte Global, dos Estados Unidos ou dos europeus, para que ela exista. […] Os [países do] BRICS servem sim, eles contribuem sim para a maior estabilidade regional no mundo a partir de uma negociação que não é mediada pelo Ocidente, que muitas vezes tem interesse em criar conflitos, não resolver.”

Dois cenários para a política externa

Ao analisar a eleição brasileira, Mielniczuk apresentou dois cenários condicionados ao resultado do pleito. Em caso de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o professor avalia que o Brasil poderá adotar uma política externa mais voltada à aproximação com o BRICS, Rússia e China.

“O Brasil fez de tudo nesses últimos anos para não criar problemas com os Estados Unidos, mas os Estados Unidos criaram problemas com o Brasil. Então eu acredito que o presidente Lula, se ele for reeleito, ele vai ter uma política mais assertiva e favorável ao BRICS, à Rússia e à China, até para contrabalançar um pouco esse poder que os americanos exercem no nosso continente”, declarou.

Já em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, Mielniczuk projeta uma aproximação maior com os Estados Unidos e mudanças na relação do Brasil com o BRICS: “Então provavelmente eles vão entrar no Escudo para as Américas, que é a iniciativa de defesa norte-americana que já conta com uma grande parte dos vizinhos brasileiros. Provavelmente eles vão tentar reforçar a candidatura do Brasil para ser membro da OCDE, que é uma organização fundamentalmente, não é europeia, mas é uma organização que tem essa origem dos países desenvolvidos, e provavelmente eles vão criar entraves na cooperação com a Rússia, a cooperação com a China, e podem, inclusive, sair dos BRICS.”

Fonte: Brasil 247

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