Veto da UE não deve baratear carne no Brasil? Entenda

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Por Leonardo Lucena — Brasil 247

247 – A suspensão das compras de carne bovina brasileira pela União Europeia não deve provocar queda relevante nos preços pagos pelos consumidores no Brasil. O bloco responde por uma parcela pequena das exportações do setor, enquanto a menor disponibilidade de animais para abate e a expectativa de retomada dos embarques para a China tendem a manter pressão sobre as cotações nos próximos meses.

Segundo o G1, a avaliação parte do analista Fernando Enrique Iglesias, da Safras & Mercado. “É pouquíssimo provável que isso aconteça”, afirmou. 

A União Europeia suspendeu, a partir de 3 de setembro, a importação de produtos brasileiros de origem animal. A medida atinge carne bovina, frango, carne suína, mel, pescados e ovos destinados aos 27 países do bloco.

A decisão europeia ocorreu após a exclusão do Brasil da lista de fornecedores considerados aptos a cumprir as regras do bloco sobre o uso de antimicrobianos na pecuária.

Essas substâncias servem ao tratamento de infecções em animais, mas a União Europeia proíbe seu emprego para estimular crescimento e também veta o uso veterinário de determinados antimicrobianos reservados ao tratamento de seres humanos.

União Europeia tem participação limitada nas vendas de carne bovina

O tamanho do mercado europeu nas exportações brasileiras ajuda a explicar por que o embargo não deve gerar excesso de carne no mercado interno capaz de derrubar os preços.

Dados do Ministério da Agricultura referentes a 2025 mostram que a União Europeia respondeu por 3,7% do volume de carne bovina exportado pelo Brasil e por 5,8% da receita obtida com essas vendas.

Entre os produtos enviados ao bloco estão cortes do traseiro, como filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole, além do filé de costela, retirado do dianteiro do animal.

Mesmo entre esses cortes, Iglesias não prevê redução relevante nos preços. O analista aponta uma combinação de fatores que pode empurrar as cotações na direção contrária até o encerramento do ano.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), citados na reportagem, mostram que as carnes acumulavam alta de 8,53% em 12 meses na prévia da inflação de agosto.

No mesmo período, o filé mignon registrava avanço de 15,2%. O contrafilé acumulava alta de 11,5%, o coxão mole, de 10%, e a alcatra, de 9,31%.

Exportações para a China devem voltar a ganhar força

A expectativa de aumento dos embarques para o mercado chinês aparece entre os principais fatores que podem reduzir a disponibilidade de carne no Brasil.

Segundo Iglesias, os frigoríficos diminuíram o ritmo das exportações durante parte do terceiro trimestre, mas devem ampliar novamente a produção destinada à China a partir de outubro.

“Houve uma redução significativa dos embarques nos meses de julho e agosto e agora em setembro, mas, a partir de outubro, a indústria frigorífica brasileira vai começar a processar a carne bovina para o mercado chinês”, destacou.

No início de 2026, a China estabeleceu uma cota anual de 1,1 milhão de toneladas para as importações de carne bovina brasileira. Até esse limite, o produto paga tarifa de 12%. O governo chinês definiu uma tarifa adicional de 55% para os volumes que ultrapassarem a cota.

A medida estimulou uma aceleração das exportações durante o primeiro semestre. Os embarques perderam intensidade a partir de julho, mas o setor deve voltar a direcionar maior quantidade de carne ao mercado chinês no fim do ano para aproveitar a cota correspondente a 2027.

O tempo necessário para o transporte marítimo também influencia esse movimento. Segundo Iglesias, a carne embarcada nos últimos meses de 2026 chegará à China já no exercício seguinte.

“O produto saindo entre novembro e dezembro, só vai chegar nos portos chineses em 2027, já que o tempo de transporte é de 45 a 60 dias. Vamos ter uma boa exportação no final do ano”, explicou.

Com mais frigoríficos direcionando a produção para o exterior, o mercado interno tende a receber menos carne, fator que pode sustentar ou elevar os preços.

Menor oferta de bois também pressiona mercado

O analista também relaciona o cenário ao ciclo pecuário brasileiro. O país atravessa uma fase de menor disponibilidade de bovinos para abate, o que reduz a oferta de matéria-prima para a indústria.

Essa combinação entre menos animais disponíveis e aumento esperado das exportações limita a possibilidade de o embargo europeu gerar uma oferta adicional expressiva no mercado doméstico.

Assim, mesmo com o fechamento temporário da União Europeia, o setor enfrenta fatores internos e externos que atuam no sentido de restringir a disponibilidade de carne ao consumidor brasileiro.

Embargo europeu alcança outros produtos de origem animal

A restrição adotada pela União Europeia não se limita à carne bovina. Frango, carne suína, mel, pescados e ovos também entraram no embargo.

O bloco anunciou a retirada do Brasil da lista de fornecedores habilitados em maio. A decisão não decorreu de problemas identificados diretamente nos produtos brasileiros, mas da avaliação europeia de que o sistema brasileiro ainda precisava oferecer garantias suficientes sobre o controle do uso de antimicrobianos.

O governo brasileiro abriu negociações para tentar reverter a medida. A União Europeia também iniciou auditorias em cadeias específicas, como as de frango e mel, dentro do processo de revisão das autorizações comerciais.

Apesar da relevância das carnes bovina e de frango entre os produtos de origem animal vendidos pelo Brasil ao mercado europeu, a União Europeia ainda representa uma parcela limitada do total exportado pelo setor. Esse peso reduzido, somado à expectativa de aumento das vendas para a China e à menor oferta de bois, sustenta a avaliação de que o veto europeu não deve resultar em carne mais barata no mercado brasileiro.

Fonte: Brasil 247

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