Por Luis Cosme PintoBrasil 247

Verão de Londres. Verão de chuva, de frio, de nevoeiro. Eu fazia um intercâmbio e minha colega de classe, Nari, sul-coreana, aproveitou a surpreendente tarde de sol para passear em Piccadilly Circus. Era 1999.

Nari entra no cinema. Quando a sessão da tarde termina a estudante repete a velha piada diante do crepúsculo, que pintava o Tâmisa e suas margens: “Fui ao cinema e perdi o verão”. Com o humor dos turistas de primeira viagem, concluiu: “mas o filme com a Julia Roberts é ótimo”.

Tem um pouco de exagero, claro, mas nem tanto. O sol é mesmo tão raro por lá que o “verão” londrino pode ser mais curto que o frio em Cuiabá.

Por aqui o inverno se despediu esta semana. Estação esquisita. Água demais.

A chuva interminável tombou árvores, arrasou prédios, matou pessoas em São Paulo. Até que no último dia ele apareceu.

Ele? Ele, o sol.

No telejornal do almoço o apresentador saudou o dia azul, mas “a moça do tempo” não deu esperança: “A chuva vem no fim do dia com vento forte”.

Também com saudade do sol, saí pra rua: vesti bermuda, caminhei e olhei o povo da Vila Buarque a desfilar, uns ainda protegidos, outros com protetor solar. Ao olhar o céu e os prédios descobri a paisagem transformada pelo calor.

Lá estão vivíssimos varais. Pequenos, metálicos, fixados na beirada das janelas, como beiço de gente birrenta. Da janela de casa, enxergo detalhes.

O jovem casal estica a roupa com maestria, inventa espaço. Quando o varal parece lotado, o rapaz ainda pendura a toalha de banho.

Há mais janelas e mais varais. Ainda bem.

No andar abaixo, o colorido de calcinhas, cuecas, meias, roupa de criança. Moleton laranja enroscado em calça jeans; vestido florido, dois sutiãs, cachecol. Uma família.

Ao lado, também em penduricalhos, se aquecem cama de cachorro, saia, bermudas. A janela menor, talvez da cozinha, arrumou-se de rosa e azul.

O vizinho da frente, homem forte e dono de farta coleção de camisetas pretas, escala um pregador para cada uma.

Depois, pendura um cobertor quadriculado na frente de tudo.

Do lado de cá não vejo mais nada.

Não enxergo o dele, mas revisito outros varais.

No morro dos Macacos, em Vila Isabel, a água fresca jorra das bicas. Lavadeiras esfregam, enxaguam e cantam juntas, estamos em 1971. Arames são amarrados entre troncos de árvore ou mourões de madeira fincados na terra e as roupas penduradas. O sol carioca e o vento quente completam o serviço.

Como nosso apartamento, no edifício Silvana, tinha apenas um minúsculo varal, que chamávamos de pendurador, minha mãe contratava a Marlene. A trouxa ia equilibrada na cabeça, dois dias depois as roupas voltavam impecáveis, cheirosas. Colarinhos engomados, calças com vinco.

Nessa época conheci palavra nova: rol.

Rol era a lista de roupas que seriam lavadas. Meu pai anotava tudo com letra de forma. Marlene rabiscava o M. Na entrega tudo era conferido.

Nunca sobrou. Nunca faltou.

Nos estúdios, esses minúsculos apartamentos que se multiplicam nos dias de hoje, a solução é instalar lavadoras e secadoras comunitárias. O preço do serviço me chamou atenção: 13 reais e 27 centavos. Como quem lava também seca, a despesa dobra: 26,54.

Nicole e Carol se conheceram na lavanderia. Semana que vem se mudam. Vão morar juntas.

O apartamento é das antigas, tem tanque, máquina de lavar de segunda mão e área de serviço, com espaço para planta e varal.

Fonte: Brasil 247

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