Uso de testosterona sem indicação médica pode elevar em 51% risco cardiovascular, aponta estudo
Por Bruna Ariadne — Jornal Opção

O uso de testosterona sem indicação médica pode aumentar em 51% o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca, insuficiência cardíaca e morte. O alerta ganha relevância diante da utilização do hormônio para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora do desempenho físico.
O dado consta em estudo publicado em 2026 na revista científica eBioMedicine, do grupo The Lancet. A pesquisa identificou risco significativamente maior entre homens que iniciaram terapia com testosterona sem evidências de deficiência hormonal, em comparação com pacientes submetidos à reposição após diagnóstico e indicação médica.
O resultado reforça a preocupação de especialistas com o uso indiscriminado do hormônio, principalmente em doses superiores às produzidas naturalmente pelo organismo.
Segundo a endocrinologista Mariana de Souza Furtado, o uso de testosterona em doses suprafisiológicas ou sem indicação pode provocar alterações importantes no sistema endócrino e comprometer a produção natural de hormônios.
Infertilidade e alterações hormonais
Quando o organismo recebe testosterona externa em excesso, o cérebro identifica níveis elevados do hormônio e reduz os estímulos responsáveis pela produção natural.
Nos homens, esse processo pode resultar em atrofia testicular, redução da produção de espermatozoides e infertilidade. Nas mulheres, o excesso pode provocar sinais de virilização, como aumento de pelos, engrossamento da voz, queda de cabelo e hipertrofia do clitóris.
Os efeitos, entretanto, não ficam restritos ao sistema reprodutivo. O uso inadequado também está associado a alterações no colesterol, com redução do HDL, conhecido como “colesterol bom”, e aumento do LDL, o chamado “colesterol ruim”.
Entre as possíveis consequências cardiovasculares estão hipertensão, aumento do músculo cardíaco, insuficiência cardíaca e infarto.
Outro efeito possível é a eritrocitose, caracterizada pelo aumento da concentração de glóbulos vermelhos. A alteração torna o sangue mais viscoso e pode favorecer a formação de coágulos e a ocorrência de eventos tromboembólicos.
Também estão entre os efeitos adversos associados ao uso inadequado a toxicidade hepática, a hiperplasia prostática benigna e a hiperuricemia, caracterizada pela elevação dos níveis de ácido úrico no sangue.
Uso de anabolizantes entre praticantes de atividade física
O consumo de substâncias hormonais para fins estéticos e de desempenho também chama atenção pela presença entre praticantes de atividade física.
Outro estudo divulgado em 2026 pela revista científica Clinics apontou que a prevalência do uso de esteroides anabolizantes entre brasileiros que praticam atividade física recreativa varia de 2,1% a 31,6%, dependendo da população e da região analisadas.
A endocrinologista ressalta, porém, que a testosterona possui indicações médicas reconhecidas e que o tratamento não deve ser confundido com o uso indiscriminado para fins estéticos.
“No caso dos homens, a reposição é indicada no hipogonadismo confirmado, com sintomas como redução da libido e disfunção erétil, associados ou não a queixas como fadiga e alteração de humor. O diagnóstico exige pelo menos duas dosagens matinais de testosterona total alteradas e investigação da causa, que pode ser hipofisária, testicular ou funcional, como nos casos de obesidade e síndrome metabólica”, explica.
Entre as mulheres, segundo a médica, a indicação respaldada por diretrizes é mais restrita.
“Entre as mulheres, a indicação respaldada por diretrizes é para mulheres na pós-menopausa com Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) que permanecem sintomáticas mesmo com terapia hormonal estrogênica adequada. Nesses casos, são utilizadas doses estritamente fisiológicas femininas”, acrescenta.
Risco também preocupa no fisiculturismo
Os efeitos cardiovasculares relacionados ao abuso de hormônios ganham atenção especial no fisiculturismo, modalidade na qual atletas submetem o organismo a treinos de alta intensidade.
Um levantamento publicado em 2025 no European Heart Journal acompanhou 20.286 atletas da Federação Internacional de Fitness e Fisiculturismo (IFBB) entre 2005 e 2020. Durante o período analisado, foram registradas 121 mortes. Destas, 46, o equivalente a 38%, foram atribuídas a morte súbita cardíaca.
De acordo com a cardiologista Déborah Prado, durante exercícios de alta intensidade, sintomas como palpitações, dor no peito, cansaço excessivo, falta de ar, dor no estômago, aumento da pressão arterial, tontura ou elevação muito rápida dos batimentos cardíacos devem ser considerados sinais de alerta.
“No caso do fisiculturismo, o risco de desenvolver essas complicações pode ser muito maior em pessoas que utilizam hormônios de forma indiscriminada e sem indicação médica precisa. Pode ocorrer um aumento desproporcional do músculo cardíaco, levando a alterações em sua estrutura e ao enrijecimento das paredes”, explica.
Segundo a cardiologista, também pode ocorrer enrijecimento das artérias, favorecendo o aumento da pressão arterial e o desenvolvimento de outras doenças.
“Há também enrijecimento arterial, que pode favorecer o aumento da pressão arterial e de outras doenças secundárias, além de alterações relacionadas ao envelhecimento de algumas estruturas e à perda de colágeno”, acrescenta.
O levantamento apontou ainda que fisiculturistas profissionais apresentaram risco de morte súbita cardíaca cinco vezes maior do que atletas amadores dentro da população analisada.
Especialistas ressaltam que os dados não significam que toda utilização de testosterona represente o mesmo nível de risco. A reposição hormonal possui indicações clínicas específicas e deve ser realizada após avaliação, diagnóstico e acompanhamento médico. O principal alerta está relacionado ao uso sem necessidade clínica, em doses suprafisiológicas ou com finalidade exclusivamente estética e de melhora de desempenho.
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Fonte: Jornal Opção