Único meio de conter o fascismo e a máquina algorítmica: a tomada das ruas!
Por Fernando Lionel Quiroga — Brasil 247
(…) o aparato impõe suas exigências econômicas e políticas de defesa e expansão sobre o tempo de trabalho e o tempo livre, sobre a cultura material e intelectual. Em virtude da maneira como organiza sua tecnologia, a sociedade industrial contemporânea tende a ser totalitária. Pois “totalitária” não é apenas uma coordenação política terrorista da sociedade, mas também uma coordenação técnico-econômica não terrorista que opera através da manipulação das necessidades por int eresses escusos (Marcuse, 2015, p. 42).
Cada vez fica mais claro que as coisas que usamos gratuitamente — aplicativos, jogos, plataformas de LLMs —, sob o controle totalitário das Big Techs, são apenas derivativos de um objetivo maior: o controle do capital. A declaração de Donald Trump — “Whoever wins AI, you have to remember this. […] Whoever wins SI, whoever wins Superintelligence wins. That’s the group that wins” (Quem vencer a disputa pela IA […] quem vencer a superinteligência, vencerá. Esse será o grupo vencedor) — indica exatamente o termômetro da onda que se propaga pelo mundo. A situação brasileira é emblemática e pode ser representativa de um contexto global que parece ter decretado, finalmente, o fim do projeto iluminista e, com ele, das democracias.
Se o segundo turno confirmar a vitória de Flávio Bolsonaro — o que parece inevitável, descontando a esperança que nunca dorme —, o que veremos ocorrer é um processo de aceleração sem qualquer contenção em direção a um tipo de fascismo mais poderoso, letal e duradouro do que o dos anos 30. Ao menos duas características evidenciam esse quadro: i) o domínio hegemônico da máquina informacional; ii) a formação de um novo sectarismo. Ao menos isso poderia ajudar a explicar o balanço eleitoral até aqui: além de Flávio Bolsonaro ter sido o candidato mais votado no primeiro turno, o PL terminou a eleição com 121 deputados federais e 28 senadores, tornando-se a maior bancada nas duas Casas, além de contar com outras forças da direita.
Mas, então: como isso pode ter acontecido? Não bastasse o legado de destruição do bolsonarismo entre 2018 e 2022, revertido apenas por meio de uma frente ampla, o que mais pode ter convencido os eleitores a votarem de modo tão incisivo em Flávio? A decisão não parece ser consequência de um cálculo racional, até porque seria difícil elencar motivos que pudessem contribuir para isso. O que parece ter pesado, do outro lado, é um amplo e poderoso processo de desinformação. Com poucas exceções — a dos bolsonaristas convictos —, os bolsonaristas não são necessariamente refratários a um projeto de desenvolvimento do país. Cair nesse maniqueísmo cancelatório significa abrir mão do que verdadeiramente deve ser analisado. Eles estão desinformados. Resta saber por que isso ocorre.
Mais: por que no Nordeste e, em menor proporção, no Norte, o cenário é diferente? Trabalhar com a hipótese de que os índices de pobreza nessas regiões são maiores e, portanto, as políticas de inclusão social do governo petista são mais perceptíveis não é uma inverdade, embora talvez não seja esse o único motivo. Tenho a impressão de que, nessas regiões, há características culturais e modelos de vida mais abertos ao mundo externo e, portanto, de caráter eminentemente mais público. Uma diferença fundamental talvez esteja na representação social que se tem quando se fala em “povo aberto” e “povo fechado”. O nordestino e o nortista seriam “povos abertos”, enquanto as populações do Sul, do Sudeste e, por extensão, do Centro-Oeste seriam “povos fechados”. Parece haver alguma verdade nisso, especialmente se considerarmos a expressão do voto nas urnas. A explicação, um tanto mecanicista, do “pobre de direita” sulista, cuja base do racismo seria um derivado do sentimento de superioridade em razão de sua origem europeia — especialmente italiana e alemã —, parece explicar apenas parcialmente o problema. A razão para o fenômeno pode estar deslocada. E é o que buscarei demonstrar.
Trata-se de um problema eminentemente cultural. Existem algumas dimensões do humano que ou são incapturáveis pela máquina algorítmica ou são infinitamente mais difíceis de acessar. Quando a vida é mais interessante do que o smartphone, a razão histórica e seus vínculos ancestrais permanecem intactos: decidir entre a vida e a morte é um processo simples, como deveria ser. Entretanto, quando a vida deixa de ser interessante e a captura da subjetividade é totalmente absorvida pela lógica algorítmica, a desinformação passa a desintegrar a realidade, substituindo-a por qualquer outra coisa. É difícil imaginar que, sem a ajuda dos algoritmos, o deputado Nikolas Ferreira receberia mais de 3,1 milhões de votos, tornando-se o deputado mais bem votado da história do Brasil. Isso é um claro sinal de que já existe uma realidade paralela instalada, na qual se forma uma nova mentalidade.
O conto de J. L. Borges, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, parece antecipar a chegada da sociedade do espelho, tal como ela parece ter alcançado seu máximo desempenho até aqui, desde a ascensão da extrema-direita, em 2018. Ao final do conto, Borges escreve: “O mundo será Tlön”. Tlön se assemelha — e muito — a esse mundo paralelo das redes sociais, onde impera a desinformação. Desinformação para a formação de uma nova mentalidade. O que, nos tempos da ditadura, tentava-se por meio de choques elétricos e tortura, consegue-se agora, de modo muito mais eficaz, por meio da engenharia computacional. A combinação de redes sociais e IA forma esse novo cosmos, cujas leis parecem ter sido projetadas por um arquiteto oculto: a caixa-preta. Acerca das diversas escolas de Tlön, Borges escreve: “uma delas (…) [afirma] que enquanto dormimos, estamos despertos em outro lado e que assim cada homem é dois homens”. O mundo de Tlön instaura uma realidade em que já não é viável confiar em qualquer sistema referencial. Tudo está solto, apenas representado por um avatar.
A hipótese que explicaria o fenômeno eleitoral brasileiro, em que uma parte é majoritariamente bolsonarista e a outra, petista, encontra seu fundamento na lógica em curso de uma desintegração do mundo para a instalação de seu duplo, do signo. Como o referente, no Norte e no Nordeste, é mais forte e mais coeso, mais corpóreo, por assim dizer, o paralelismo espelhado encontra dificuldade de penetração. A vida contra o avatar, o real contra o reflexo é, em última instância, o núcleo vivo da acumulação do capitalismo financeiro.
É por isso que a única forma de virada não pode ser outra coisa senão:
A tomada das ruas!
Fonte: Brasil 247