União contra o retrocesso
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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A ex-ministra Marina Silva defende uma “polifonia de vozes” para virar o jogo eleitoral
Derrotada na corrida por uma vaga ao Senado por São Paulo, a ex-ministra Marina Silva foi uma das vítimas da onda bolsonarista no primeiro turno. A ambientalista nem teve, no entanto, tempo para lamber as feridas, dada a urgência da mobilização na segunda volta. A estratégia para reverter o jogo, diz nesta entrevista ao repórter Maurício Thuswohl, é “criar uma polifonia de vozes, com vários segmentos falando”. Segundo ela, o retorno do clã ao poder instalaria um processo de terra arrasada e fecharia as portas ao Brasil. “Os Bolsonaro representam retrocesso nos direitos humanos e nas políticas sociais.” A íntegra está no canal do YouTube de CartaCapital.
Carta Capital: Qual a estratégia para virar o jogo no segundo turno?
Marina Silva: Os eleitores agora têm a oportunidade de pensar duas vezes. São dois candidatos, duas biografias, dois legados – se é que Flávio Bolsonaro tem algum legado – que serão avaliados e comparados. Passado aquele primeiro momento de verificarmos que, mesmo com tantos ganhos em termos de políticas sociais, é dada uma vantagem para uma figura como o Flávio no primeiro turno, nós agora estamos recompondo as forças. É importante ter uma visão geral do processo, toda essa parte mais estratégica, mas o que vai fazer a diferença do nosso lado é criar uma polifonia de vozes, com vários segmentos falando, cada um para o campo em que pode dar uma contribuição, seja para convencer quem não votou a ir votar ou para convencer quem votou de forma errada contra si mesmo para que reavalie seu voto.
“Com os Bolsonaro, é terra arrasada. E, se voltar a terra arrasada, as portas vão se fechar para o Brasil”
CC: Do ponto de vista ambiental, o que representaria um Bolsonaro novamente no comando do País?
MS: Em todos os governos desde a redemocratização, uns mais, outros menos, sempre tivemos ganhos na política ambiental. Com Bolsonaro foi a primeira vez que se teve um governo em que só houve retrocessos, desmontes e destruição, além de um freio em qualquer avanço em termos de política ambiental, que não é algo só para ambientalistas, pois a mudança do clima é um problema para todo o mundo. Política ambiental é uma dinâmica econômica que ajuda a proteger vidas, a dinamizar o desenvolvimento e a fazer com que o País tenha oportunidade de acessar mercados. Nas políticas ambientais que fizemos no governo Lula abrimos mais de 600 novos mercados para o agronegócio brasileiro, porque havia uma política séria.
CC: A sensação com Bolsonaro foi de que a política ambiental tinha pulado em um abismo…
MS: Tivemos que fazer uma política ambiental de reconstrução. Além de reduzir o desmatamento em 45% no País, 50% na Amazônia, 32% no Cerrado e 61% na Mata Atlântica, criamos instrumentos econômicos para um modelo sustentável de desenvolvimento, para investir em energia eólica e solar, biomassa, hidrogênio verde, restaurar áreas para a agricultura familiar e o agronegócio, investir em pesquisa, ajudar que o Brasil tenha acesso a mercados, inclusive para os nossos biocombustíveis. Desde 2023 viabilizamos, entre o Fundo Clima, o Ecoinvest, o Fundo Amazônia e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, em torno de 350 bilhões de reais. Isto é desenvolvimento econômico. Sem política ambiental séria, a gente não consegue investimentos e acesso a mercados, e ainda cria prejuízos enormes para a vida das pessoas e as dinâmicas produtivas. Com Bolsonaro é terra arrasada. Eu não duvido que esses mercados se fechem novamente e que o acordo do Mercosul com a União Europeia entre em banho-maria. Flávio já disse que vai rever o papel do Ibama e do ICMBio, logo quando o Brasil está para chegar no desmatamento zero, o que será uma avenida para os investimentos. Se voltar a terra arrasada, as portas vão se fechar para o Brasil.
Marina Silva não teve tempo de lamber as feridas pela derrota, dada a urgência da mobilização por Lula – Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
CC: E esse prejuízo é internacional também…
MS: É um prejuízo muito grande quando a gente pensa em mercados como a Europa e a China, que não vão querer ficar comprando produto de carbono intensivo. Com o governo Lula, temos uma política ambiental que é respeitada no mundo inteiro. Com um governo Flávio, os investidores, acionistas e consumidores iriam pressionar para cortar relações comerciais com o Brasil. E isso é um prejuízo. Quem está votando nessa gente, achando que o “liberou geral” é bom para o seu empreendimento, saiba que não é. Com temperaturas altas demais, a gente prejudica a própria vida. Com o super El Niño que vem pela frente, desmontar as políticas de combate a incêndios, por exemplo, é um desastre.
CC: Se for confirmado o resultado do primeiro turno, como a conta chegará para os brasileiros?
MS: Os Bolsonaro representam retrocesso nos direitos humanos e nas políticas sociais. Aqueles que têm hoje benefícios que asseguram pelo menos uma renda digna para poder viver com suas famílias estão ameaçados. Aqueles que têm um filho na universidade graças ao Fies e ao ProUni, que são políticas de educação dos governos Lula, estão ameaçados. Programas como o Bolsa Família estão ameaçados. Eles são contra que quem ganha até cinco salários mínimos não pague imposto, mas são a favor de diminuir o imposto de quem compra um jet ski. Eles são contra uma merenda escolar que compre alimentos saudáveis da agricultura familiar e acham muito normal que as nossas crianças fiquem bebendo refresco artificial e comendo uma merenda de péssima qualidade proteica. Querem tirar os recursos obrigatórios da saúde e da educação. As pessoas que dependem do SUS e da escola pública não precisam gostar de mim, do Fernando Haddad ou do Lula. Elas têm de votar em quem vai dirigir o País. Ter um governante que se preocupa com os que mais precisam é um gesto de amor. Ter um governante que diz que não vai ter recursos para a educação é um gesto de desamor. Temos de escolher o projeto de país e, com certeza, o melhor projeto não é o do Flávio. Ele é uma ameaça para as políticas de saúde, educação, desenvolvimento econômico, proteção ao meio ambiente e respeito à dignidade humana. •
Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘União contra o retrocesso’
Maurício Thuswohl
Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro
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Fonte: Carta Capital