Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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O melhor presidente que o Brasil já teve roubou coisas importantes da “elite” de direita, a começar pelas prerrogativas de classe

Nas manifestações na Avenida Paulista, no domingo 11, ouvi alguém gritar: “Lula ladrão!” A maré de gente de camisa vermelha que lotou a rua me encheu de alegria, mas, ainda assim, me pus a pensar: por que os bolsonaristas estão chamando o presidente Lula de ladrão? Essa palavra não se adequaria mais ao velho (hoje presidiário) Jair Bolsonaro? Depois, pensei mais um pouco e compreendi a razão dessa turma. Sim, Lula, em seus três mandatos, nos quais se revelou desde o começo o melhor presidente que o Brasil já teve, roubou coisas importantes dessa turma. Menciono algumas, aqui.

Em primeiro lugar, Lula roubou, ou pelo menos danificou, prerrogativas de classe dessa “elite” de direita: “Como assim, nós e nossos filhos, que estudamos em excelentes colégios e moramos nos Jardins, seremos governados por um trabalhador braçal?” Todos sabem que Luiz Inácio da Silva foi um sindicalista, um trabalhador braçal em São Bernardo do Campo, e virou o melhor presidente que o Brasil já teve, a começar, por seus programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família e o Luz para Todos, que beneficiaram os pobres. Mas não só isso: o Brasil cresceu e enriqueceu durante os governos Lula, tornou-se um país respeitado e próspero e, principalmente, um país menos desigual. O Brasil deixou de integrar o chamado “Mapa da Fome”.

Os filhos dos pobres, cujos pais prosperaram na medida do possível, conseguiram entrar na universidade pelo sistema de cotas a partir de medidas governamentais como o ProUni. “Como assim, o filho do gari estar na mesma universidade que o filho de família rica?” Pois sim, estudam nas mesmas universidades. E, pasmem (não apresento uma estatística, mas a opinião de dois amigos professores universitários): os filhos das famílias pobres, felizes com a perspectiva de conseguir estudar – quando, até pouco tempo atrás, não teriam dinheiro pra pagar universidades –, tornam-se melhores alunos do que os filhos da burguesia. A prerrogativa de superioridade que, para as famílias ricas ou de classe média, parecia um direito exclusivo perante a falta de direitos dos pobres, tornou-se insuportável. De novo, como assim, o filho do trabalhador braçal tornar-se professor? Como assim, alguns deles, empolgados com a oportunidade de estudo e, consequentemente, empregos melhores, terem notas mais altas do que os chamados playboys? Como assim, a partir da PEC das Domésticas, as empregadas – “parte da família”, de acordo com alguns patrões – deixarem seus trabalhos para estudar e conseguir empregos melhores?

Não, presidente Lula, o que você fez com o Brasil é imperdoável. Escutaremos o povo a chamá-lo de “ladrão” por conta do que acrescentou aos do “andar de baixo”, roubando a pretensão de superioridade intelectual da elite – superioridade que só foi possível enquanto a “ralé” não tinha condições de entrar na universidade. Pretensão gravemente ferida a partir do momento em que um ex-sindicalista se tornou (por três mandatos!) o melhor presidente que o País já teve. Vamos ouvir muita gente chamar você de ladrão até que uma nova geração de pessoas pobres ascenda à classe média, até que, eventualmente, um novo Lula desponte entre os possíveis líderes deste país.

Convenhamos, não acha que já “roubou”, não dinheiro, nem empregos, nem casas de praia e viagens a Miami, mas – como diria Nelson Rodrigues – o “complexo de vira-latas” de grande parte do povo brasileiro? Viva o “Lula ladrão”! Eu torço para que, quando seu último mandato terminar, outro “ladrão” de seu calibre (quem sabe Fernando Haddad?) possa levar em frente seu enorme legado. •

Publicado na edição n° 1435 de CartaCapital, em 21 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lula ladrão’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Maria Rita Kehl

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Fonte: Carta Capital

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