‘Uma Escolha entre Dois Brasis’: A próxima eleição presidencial definirá o lugar do país no mundo
Por Valdir Bezerra — Brasil 247
Faltando menos de um mês para o primeiro turno das eleições presidenciais, em 4 de outubro, o país precisará decidir entre dois projetos de Brasil. Os dois favoritos até então, o atual presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, representam não apenas estilos de governo distintos, mas também duas visões concorrentes sobre o papel do Brasil no mundo.
Fato é que, por décadas, a política externa brasileira oscilou entre o que estudiosos, com base no arcabouço civilizacional do influente antropólogo Darcy Ribeiro, descrevem como “Ocidentalismo” e “Autonomismo”. A primeira tradição buscou historicamente inserir o Brasil no quadro de convergência política com o núcleo Euroatlântico, liderado pelos Estados Unidos; a segunda insiste em que o Brasil defina seus próprios termos de desenvolvimento, soberania e engajamento internacional, como uma voz de liderança no Sul Global. Lula e Flávio Bolsonaro, portanto, se encaixam quase perfeitamente nessa dicotomia, e a escolha que os eleitores fizerem em outubro decidirá qual orientação prevalecerá por pelo menos mais quatro anos.
Com efeito, a plataforma de Lula para um quarto mandato enquadra explicitamente, em seu discurso, a soberania como princípio balizador da diplomacia brasileira. Seus documentos de campanha comprometem o Brasil com a tomada de decisão independente “sem qualquer tipo de subordinação estratégica”, rejeitando o alinhamento automático e defendendo a cooperação Sul-Sul. Nesse contexto, os BRICS desempenham um papel central: Lula propõe fortalecer os mecanismos financeiros do bloco, expandir a capacidade de crédito do Novo Banco de Desenvolvimento [NBD] e utilizar os BRICS, em conjunto com o G20, como plataformas para afirmar os interesses da chamada “Maioria Global”. Trata-se aqui de continuidade, não de reinvenção.
Já os instintos de política externa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, apontam para a direção oposta. Muito antes de herdar formalmente o movimento político do pai, Flávio se posicionou como o interlocutor mais leal do Brasil perante os Estados Unidos, cortejando figuras importantes da administração Trump e prometendo publicamente que as sanções americanas contra autoridades brasileiras terminariam no dia em que um Bolsonaro retornasse à presidência. Sua plataforma de campanha pede uma renovada proximidade com Washington e com o “Ocidente conservador”. Flávio também indicou que, caso eleito presidente, melhoraria as relações com Benjamin Netanyahu, criticado duramente por Lula pelos estragos físicos e humanos causados em Gaza. Nada disso é exatamente novo. Afinal, as posições de Flávio ecoam o mesmo cortejo do governo anterior de seu pai, que buscou, durante a primeira passagem de Trump pela Casa Branca, estabelecer um alinhamento estratégico com os Estados Unidos.
Em nenhum lugar tal alinhamento é mais explícito do que na questão dos minerais críticos. Quando discursou, por exemplo, no CPAC, em março deste ano, Flávio declarou a uma audiência conservadora americana que o Brasil poderia resolver o problema de dependência dos Estados Unidos em relação à importação de terras raras da China. Meses depois, surgiram reportagens sobre um memorando de campanha de mais de 20 páginas, intitulado “Parceria pela Prosperidade”, redigido por um aliado e que continha o emblema eleitoral de Flávio, apresentando um plano para posicionar o Brasil como principal fornecedor e centro de processamento de terras raras para o Hemisfério Ocidental, em parceria com os Estados Unidos — ao mesmo tempo em que descrevia o governo Lula como “pró-China” e geopoliticamente antagônico aos interesses ocidentais.
Fato é que a disputa narrativa em torno das terras raras no Brasil tornou-se bastante reveladora da escolha que deverá ser feita daqui a menos de um mês. Uma eventual vitória de Lula mantém a aposta do Brasil na diversificação de sua política externa e no “Autonomismo”, simbolizados pela parceria com os BRICS e pela defesa da reforma das instituições de governança global. Já uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro favorece o “Ocidentalismo”, relações mais próximas com a administração Trump e o retorno do ceticismo em relação aos BRICS e à China.
Ao fim e ao cabo, compete notar que a Constituição brasileira de 1988 estabelece, há muito, a independência nacional como um dos principais pilares de nossa política externa. No entanto, a cada eleição, é preciso responder, na prática, o que o termo “independência” de fato significa. Em outubro próximo, mais de 150 milhões de brasileiros decidirão novamente essa questão. Enquanto isso, o restante do mundo, de Pequim a Washington, acompanhará atentamente a resposta dada nas urnas. Afinal, o resultado do pleito dirá tanto sobre o futuro do Sul Global quanto do próprio Brasil.
Fonte: Brasil 247