Perfis reciclados e números inflados manipulam apoio político nas redes

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Por Tai NalonAos Fatos | Valorize o que é real

Aviso: este texto é uma análise e foi publicado originalmente na newsletter O Digital Disfuncional. Assine.

Um dos perfis mais engajados no Instagram na unção digital do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça celebrou a marca de 1,9 milhão de seguidores. Só que a conta não nasceu para apoiá-lo. Foi criada em 2024, mudou de nome oito vezes e, antes da conversão, publicava conteúdos religiosos, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol.

Esse tipo de ação é o que os CDFs da desinformação chamam de astroturfing – uma estratégia de engajamento artificial que, neste caso em específico, usa perfis já povoados nas plataformas digitais para forjar adesão a uma pauta e gerar aquele senso de ubiquidade inerente às grandes crises.

Uma investigação de Bianca Bortolon para o Aos Fatos identificou 24 perfis dedicados ao magistrado, que somavam 5,6 milhões de seguidores. Doze já existiam antes da crise recente no STF e apenas trocaram de nome.

As novas páginas foram impulsionadas por contas bolsonaristas, publicações colaborativas e convocações para que seus seguidores passassem a acompanhá-las. Em nove dias, 156 posts que retratavam Mendonça como um herói evangélico acumularam 228 milhões de visualizações.

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O problema é que, a cada dia que passa, esses números dizem menos. Uma conta não é necessariamente uma pessoa; seus seguidores podem não ter escolhido acompanhar a identidade atual de uma página; sequer sei explicar o que é, na linguagem das redes, uma “visualização”. Isso porque uma interação pode partir de uma pessoa, de várias contas mantidas por ela, de um perfil automatizado ou de uma estrutura coordenada. A internet de hoje é cheia de olhos que não veem.

Há anos, Aos Fatos vem investigando mercados voltados a explorar a confusão entre contas e pessoas nas plataformas da Meta, nos quais, por exemplo, anúncios pagos oferecem perfis falsos no Facebook por R$ 40. Segundo reportagem de 2023, havia também cursos para automatizar a criação de contas e serviços especializados em contornar a moderação. Práticas pouco transparentes desse tipo já foram reportadas outras vezes, e são frequentemente judicializadas, mas nada muda.

Ou seja, a Meta recebia dinheiro para anunciar ferramentas destinadas a adulterar o ecossistema que ela própria apresenta ao público. Em larga escala e no longo prazo, isso altera os números de audiência de tal modo, que métricas passam a ser meramente ilustrativas.

Números disfuncionais

O criador de conteúdo Thiago Guimarães problematiza a nova forma de contabilizar audiência no YouTube, em vídeo publicado nesta semana em seu canal na plataforma de vídeo do Google. O YouTube terá métricas diferentes para a audiência, num movimento problemático para comunicadores de menor escala. Nesse contexto, Thiago lembra de um episódio conhecido na indústria jornalística como pivot to video, quando, na década passada, o Facebook passou a privilegiar vídeos e estimulou veículos a reorganizar suas redações ao redor do formato.

Em 2016, porém, a empresa reconheceu que havia superestimado durante dois anos uma métrica importante: o tempo médio assistido. O cálculo excluía do denominador as reproduções inferiores a três segundos, fazendo a permanência média nesses conteúdos parecer maior. O Facebook inflou esses números de 60% a 80% em relação à métrica real, segundo a Publicis Media, em estimativa divulgada pelo Wall Street Journal. O caso foi parar na Justiça, num acordo em que a plataforma indenizou anunciantes em até US$ 40 milhões.

O que é grave, nesse caso, é que veículos tomaram decisões editoriais e empresariais dentro de uma infraestrutura cuja distribuição era controlada pelo Facebook, cujos números eram controlados pelo Facebook e cujo faturamento era, isso mesmo, controlado pelo Facebook.

Uma década se passou e ainda sabemos muito pouco como todo tipo de conteúdo chega às pessoas. Ao redor dessa opacidade surgiu uma indústria de consultorias de social listening que promete medir engajamento, menções, alcance, “sentimento” e participação na conversa pública. Seus relatórios frequentemente transformam os contadores das plataformas em diagnósticos sobre reputação e popularidade. E aí, em vez de reportar a captura dos mecanismos de recompensa dessas plataformas, temos quem narre a disputa por apoio de ministros do STF nas redes como uma corrida de cavalos.

Não dá para conferir precisão a dados cuja origem, distribuição e relação com pessoas reais não podem ser auditadas. Se a unidade de medida não é confiável, diagnósticos que cravam críticas ou apoio massivo a figuras da política apenas organizam a incerteza.

Durante uma eleição, essa opacidade deixa de ser apenas um problema comercial. A arquitetura das redes faz com que o usuário experimente curtidas, comentários e compartilhamentos como formas de participação pública. Seus contadores produzem a impressão de que estamos assistindo à sociedade se manifestar em tempo real. Mas, se um usuário sequer é pessoa física, muito menos será eleitor.

A última eleição presidencial brasileira foi decidida por pouco mais de 2,1 milhões de votos. Na Colômbia, neste ano, a diferença foi de 687 mil; no Chile, ficou em 970 mil. Não são as multidões digitais a que estamos acostumados, veja. É bem pouca gente.

As plataformas exibem cifras comparáveis às margens que decidiram eleições presidenciais, embora não seja possível convertê-las sequer em pessoas. Não existe mais indício, no ambiente digital, de que estamos observando uma realidade mediada por iguais.

Um museu de grandes novidades

Quando o Aos Fatos publicou nesta semana a reportagem sobre o astroturfing pró-Mendonça, algumas pessoas vieram falar comigo surpresas, porque não sabiam que esse tipo de atividade tinha um nome. Elas relataram observar esse tipo de comportamento recorrentemente em páginas de vendas de serviços, grupos de bairro, perfis de fofoca. Não é exatamente uma novidade.

No caso de Mendonça, porém, é extraordinária a escala de coordenação a favor de um indivíduo que não só não concorre a um cargo eletivo neste ano, como a difusão de conteúdo religioso conservador centrado em alguém cuja função é defender uma Constituição laica. Mais: é vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, cujo propósito principal é conferir lisura ao processo de votação. Não há qualquer indício de que ele teve participação nesse tipo de manipulação algorítmica. Porém, tendo ou não apoio massivo autêntico nas redes, ele agradeceu em vídeo a seus fiéis. A mídia foi republicada no perfil da candidata ao Senado Bia Kicis (PL-DF) e em vários grupos bolsonaristas.

Pois é, então tá, a gente vai se falando.

Fonte: Aos Fatos | Valorize o que é real

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