Um imperador hostil
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
Menu
Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.
O dia 4 de outubro não é apenas o da eleição, mas de uma batalha de vida e morte pela democracia
O presidente Lula não foi a Nova York a passeio, nem fez campanha eleitoral para um público que, anote-se, não tem direito a voto nas eleições brasileiras. O forte discurso feito na abertura da 81ª Conferência da Organização das Nações Unidas foi uma denúncia corajosa dos perigosos limites impostos a um mundo submetido à maior ofensiva imperialista do capitalismo, liderada por Donald Trump, o Calígula do século XXI. Foi também uma advertência à comunidade internacional de que é iminente um ataque contra a soberania e as instituições democráticas do Brasil. Lula não atuou como candidato em campanha, mas como um chefe de Estado que procura impor constrangimentos à ação externa contra o processo eleitoral do seu país e denunciar a associação, às claras, entre o governo estadunidense e a extrema-direita brasileira, representada em Washington por Eduardo Bolsonaro, para derrubá-lo, pelo voto ou pela força.
O que veio em seguida, no discurso do próprio Trump, foi uma confirmação de intenções intervencionistas a quem ele definir como inimigo. “Aos vencedores pertencem os despojos”, disse, sobre o avanço de seu país sobre as reservas petrolíferas da Venezuela. “Nossas ações (…) são a prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças contra a América (leia-se EUA) obtenham lugar no Hemisfério Ocidental. E, se necessário, usaremos o poder militar para garantir os interesses nacionais dos Estados Unidos.”
Desenhada por teóricos de extrema-direita, a ação política dos EUA propõe trocar as armas pela “fabricação de consenso”. O aparelho de Estado norte-americano foi redesenhado para ganhar corações e mentes, com a redução de gastos militares e aumento dos destinados à inteligência. Vieram dessa parte superdimensionada de Washington os investimentos financeiros e em pessoal para a plantação de “revoluções coloridas” que foram colhidas no mundo todo, em especial na década 10 do século XXI. O Brasil foi o caso mais bem-sucedido da estratégia: aqui, a guerra híbrida derrubou a presidenta Dilma Rousseff em 2016 e feriu de morte o projeto fundado na redução das desigualdades e aumento da capacidade tecnológica em setores que ameaçavam a competitividade de empresas norte-americanas, como petróleo e construção civil.
Sob o poder de Trump, o “imperialismo informal” tornou-se uma ação às claras. Não é mais informal, nem sequer o trabalho de produção de consenso o é. À atuação das agências de inteligência e FBI e ao apoio das big techs e fundações de milionários, os think tanks, para semeadura de consensos e criação de massas de extrema-direita nos países-alvo, os EUA trumpistas acrescentaram a chantagem explícita ou a ocupação pura e simples, como no caso da Venezuela.
O que o Brasil tem assistido, desde a posse de Lula, além dos tarifaços, que têm por objetivo interromper um período de sucesso na reconstrução do estrago feito na economia pós-deposição de Dilma, são as provocações públicas feitas regularmente pelo próprio Trump, ou pelo seu preposto Marco Rubio, ou pelo preposto do preposto, Eduardo Bolsonaro.
O imperialismo, no caso brasileiro, saiu do subterrâneo e emergiu sem pudor na esteira dos estragos institucionais produzidos pela Operação Lava Jato, ponta de lança da intervenção daquele país no aparelho judiciário brasileiro que resultou numa crise política sem precedentes, um impeachment, a prisão de Lula para retirá-lo das eleições de 2018 e a eleição de um governo sem nenhum caráter, de Jair Bolsonaro, que tentou dar um golpe de Estado em 2023.
A “fabricação de consentimento”, no Brasil primeiro e, praticamente, em toda a América do Sul depois, foi a base da proliferação de uma extrema-direita com roupagem popular. Até então discreta, uma força política ressentida pelos anos de recolhimento impostos aos quartéis pela redemocratização se expôs à claridade como guardiã da moralidade. Das sombras saíram também os bandidos escondidos na política e os milicianos, os eleitos pelo crime organizado em geral, seguidos por uma massa confusa e manipulada por fake news que banalizaram o mal e trouxeram o ódio de classe extremo e o preconceito.
Quatro anos de mandato de Lula, carregando nas costas um Congresso Nacional cuja maioria dos partidos foi forjada no ataque às instituições democráticas e uma Justiça fragilizada pela Lava Jato, não foram suficientes para atenuar os efeitos da guerra híbrida que derrubou Dilma Rousseff. A opção democrática é a mão única de quem defende a soberania. Ela requer a ascensão pelo voto, uma luta desigual contra quem quer vencer a qualquer preço. O próximo 4 de outubro não é apenas o dia da eleição, mas de uma batalha de vida e morte para a democracia. •
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Um imperador hostil’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital