Transações por meio do Pix já caíam antes da proibição das bets, diz ANJL
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Dados públicos do Banco Central indicam que o número de transações realizadas por Pix já apresentava redução antes da publicação da medida provisória que proibiu as apostas de quota fixa no Brasil, em 25 de setembro, por meio das bets. A constatação é usada pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) para questionar a associação direta entre a medida e a queda de 10% registrada nas operações do sistema nos três dias seguintes à mudança regulatória.
Segundo análise divulgada pela ANJL, elaborada por consultores da entidade a partir de informações do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI), entre 22 e 24 de setembro — portanto, antes da publicação da MP — a quantidade de transações via Pix já estava aproximadamente entre 7% e 12% abaixo da referência utilizada no levantamento. Em valores movimentados, a redução naquele período teria oscilado entre 14% e 27%.
Os dados oficiais mostram que, entre sábado (26) e segunda-feira (28), foram realizadas 608,6 milhões de transações via Pix, volume 10% inferior à média dos mesmos dias da semana nas quatro semanas anteriores. Os números consideram operações liquidadas no SPI. A existência da queda é confirmada pelos dados do BC, mas eles, isoladamente, não permitem estabelecer que a proibição das apostas tenha sido sua causa.
A MP nº 1.394 foi publicada em 25 de setembro e proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa. Posteriormente, o Banco Central editou resolução determinando que instituições financeiras e de pagamento impeçam o processamento e a liquidação de transações destinadas a essas operações, ressalvadas movimentações necessárias ao encerramento das atividades e à devolução de recursos aos apostadores.
ANJL questiona metodologia da comparação
Para a ANJL, a variação do Pix deve ser analisada levando em consideração o comportamento dos pagamentos ao longo do mês. A entidade argumenta que fatores como a proximidade do fim do mês podem interferir tanto na quantidade quanto no volume das transferências.
A associação propõe, por isso, uma comparação entre períodos que considera equivalentes: o quarto sábado de agosto e os dois dias seguintes, domingo e segunda-feira, contra o quarto sábado de setembro e os respectivos domingo e segunda-feira.
De acordo com os cálculos apresentados pela ANJL, o número de transações nesses períodos passou de 627,6 milhões para 608,6 milhões, o que corresponde a uma redução de 3%.
Já o valor financeiro teria seguido trajetória inversa. Segundo a associação, o total movimentado aumentou 3,7%, de R$ 177,1 bilhões para R$ 183,7 bilhões.
“Os números mostram, portanto, que houve menos transações, mas não menos dinheiro circulando pelo sistema. Enquanto a quantidade de operações recuou 3,0%, o volume financeiro movimentado cresceu 3,7%”, afirmou o presidente da ANJL, Plínio Lemos Jorge.
Comparações produzem resultados diferentes
A diferença entre os percentuais decorre das referências escolhidas. A comparação divulgada a partir dos dados do Banco Central confronta sábado, domingo e segunda-feira posteriores à MP com a média dos mesmos dias da semana nas quatro semanas anteriores. Nesse recorte, a redução acumulada foi de 10%.
A metodologia alternativa apresentada pela ANJL compara períodos específicos de agosto e setembro. É a partir desse segundo recorte que a associação chega à retração de 3% no número de operações e ao crescimento de 3,7% no valor movimentado.
“Esse percentual toma como referência a média das quatro semanas imediatamente anteriores à proibição, sem neutralizar completamente as diferenças de comportamento do Pix entre as semanas”, declarou Lemos Jorge sobre o indicador de 10%.
Dados divulgados anteriormente mostram que, no sábado (26), domingo (27) e segunda-feira (28), o sistema registrou, respectivamente, 229,6 milhões, 165,9 milhões e 213 milhões de operações. A comparação com a média dos quatro dias equivalentes anteriores apontou quedas de 11%, 12% e 7,4%, respectivamente.
Dados não demonstram causalidade
A discussão central está na interpretação dos números. A queda das operações ocorreu imediatamente depois da entrada em vigor da MP, mas a proximidade temporal entre os eventos não é suficiente, por si só, para demonstrar que a mudança regulatória provocou a redução do Pix. Reportagens baseadas nos números do Banco Central também fizeram essa ressalva.
Para a ANJL, a existência de retração nos dias anteriores à MP reforça a necessidade de cautela.
“Os dados disponíveis não permitem atribuir automaticamente a redução das transações Pix observada após 25 de setembro à proibição do mercado regulado de apostas. A série já apresentava queda antes da medida e, quando se comparam períodos equivalentes do calendário, a variação é menor e o volume financeiro movimentado aumenta”, concluiu Plínio Lemos Jorge.
Fonte: Brasil 247