Tarefas interrompidas costumam permanecer mais presentes na memória do que tarefas concluídas, fenômeno conhecido como efeito Zeigarnik
Por Tamiles Santos Brito — Catraca Livre
Você interrompe uma tarefa para resolver outra coisa, mas continua pensando no que deixou pela metade. Já uma atividade concluída parece perder espaço na mente, mesmo que tenha exigido bastante atenção. Essa experiência costuma ser associada ao efeito Zeigarnik, um fenômeno da psicologia ligado à memória de tarefas interrompidas. A ideia ganhou destaque há quase um século, mas pesquisas posteriores mostram que lembrar melhor do que ficou pendente não é uma regra que funciona da mesma forma em todas as situações.
Como surgiu o efeito Zeigarnik?
O fenômeno recebeu o nome da psicóloga Bluma Zeigarnik, que publicou uma pesquisa sobre memória em 1927. Inspirada por ideias da psicologia da Gestalt e pelos trabalhos de Kurt Lewin, ela investigou se as pessoas se lembravam melhor de atividades interrompidas do que daquelas que conseguiam concluir. No experimento, os participantes realizavam várias tarefas, algumas eram interrompidas antes do término e, depois, a pesquisadora comparava quais atividades eram lembradas.
Os resultados originais sugeriram uma vantagem de memória para as tarefas interrompidas. Uma explicação proposta na época era que uma intenção não concluída manteria uma espécie de tensão psicológica, favorecendo sua permanência na mente. A ideia parece intuitiva quando pensamos em uma mensagem sem resposta ou em um trabalho interrompido antes da última etapa. No entanto, o experimento original não prova que toda pendência será lembrada melhor, independentemente das circunstâncias.
O que pesquisas posteriores descobriram sobre a memória?
Os resultados posteriores foram variados: em algumas condições, tarefas incompletas foram lembradas com mais facilidade; em outras, as concluídas tiveram vantagem ou não houve diferença clara. Uma metanálise publicada em 2025 na revista Humanities and Social Sciences Communications reuniu estudos sobre o efeito Zeigarnik e chegou a uma conclusão importante: em média, não foi encontrada uma vantagem consistente de memória para tarefas interrompidas. Os autores também observaram que o contexto experimental e as diferenças individuais podem influenciar os resultados. A revisão científica sobre tarefas interrompidas e memória apresenta essa análise.
A mesma metanálise encontrou evidências mais consistentes de outro fenômeno, conhecido como efeito Ovsiankina: a tendência de retomar uma tarefa interrompida quando existe oportunidade. Isso ajuda a separar duas experiências que parecem iguais no cotidiano, mas não são: lembrar de uma atividade pendente e sentir vontade de voltar a executá-la. Uma pessoa pode ter forte intenção de terminar algo sem necessariamente recordar todos os detalhes melhor do que os de uma tarefa concluída.
Por que algumas pendências continuam voltando aos pensamentos?
Uma tarefa inacabada pode permanecer relevante porque exige uma decisão, tem um prazo próximo ou está ligada a um objetivo importante. A pessoa pode voltar mentalmente ao assunto para planejar o próximo passo ou evitar esquecer algo necessário. Isso não significa, porém, que a memória fique automaticamente mais precisa: pensar repetidamente em uma pendência não garante que todos os detalhes sejam recordados corretamente.
O contexto também importa. Uma atividade interrompida durante um momento de concentração intensa pode produzir uma experiência diferente daquela abandonada por falta de interesse ou porque deixou de fazer sentido. Motivação, dificuldade, tempo dedicado e maneira de avaliar a lembrança podem alterar os resultados. O mesmo vale para a procrastinação, que pode envolver fatores emocionais e práticos além das tarefas pendentes, como explica este conteúdo sobre o hábito de adiar tarefas mesmo quando existe vontade de mudar.
O efeito Zeigarnik explica a procrastinação e os pensamentos recorrentes?
Não de forma isolada. Uma lista de tarefas pendentes pode fazer alguém voltar a pensar no trabalho, especialmente quando ele é importante ou existe preocupação com o resultado. Mas procrastinação, distração e pensamentos recorrentes têm várias explicações possíveis, que incluem dificuldade de planejamento, estresse, motivação e condições do ambiente. O efeito Zeigarnik não permite concluir que alguém procrastina porque o cérebro sempre prioriza tarefas incompletas, nem que toda lembrança insistente tenha a mesma origem psicológica.
Uma estratégia prática é registrar o que falta fazer e definir um próximo passo concreto, com um momento para retomá-lo quando possível. Isso organiza a intenção sem exigir que a tarefa seja concluída imediatamente. Se uma atividade precisar ser interrompida, anotar onde parou e qual será a próxima ação pode facilitar a retomada. A conclusão mais importante é que tarefas inacabadas podem continuar mentalmente ativas, mas o efeito Zeigarnik não é uma lei universal da memória: os resultados dependem das circunstâncias, das características da tarefa e da forma como a lembrança é testada.
O post Tarefas interrompidas costumam permanecer mais presentes na memória do que tarefas concluídas, fenômeno conhecido como efeito Zeigarnik apareceu primeiro em Catraca Livre.
Fonte: Catraca Livre