Seu cachorro realmente gosta de ser tratado como filho? 5 sinais de quando o vínculo pode ir longe demais
Por EdiCase — Catraca Livre
Chamar o cachorro de filho, comemorar seu aniversário, dividir a cama e adaptar a rotina da casa para ele já fazem parte da relação de muitas famílias com seus pets. Mas até que ponto essa proximidade representa apenas afeto e quando ela pode começar a interferir no bem-estar do próprio animal?
Um estudo publicado na revista Anthrozoös, por pesquisadores da Arizona State University, mostrou que as pessoas podem ter dificuldade para interpretar corretamente as emoções dos cães e, muitas vezes, acabam avaliando o que o animal sente mais pelo contexto da situação do que pelos seus próprios sinais comportamentais.
O resultado ajuda a colocar em perspectiva uma discussão cada vez mais comum entre tutores: considerar o pet como parte da família não significa necessariamente confundir os papéis. O problema pode surgir quando sentimentos e expectativas humanas passam a ser projetados sobre o animal e fazem com que suas necessidades específicas sejam deixadas em segundo plano.
Para Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora na University of Saskatchewan (Canadá), especialista na relação entre saúde emocional e vínculos com animais, a expressão “mãe de pet” pode representar uma relação legítima de cuidado e proximidade. Já Cleber Santos, especialista em comportamento animal e fundador da Comport Pet, reforça que o afeto precisa estar acompanhado de limites e respeito às características da espécie.
A seguir, os especialistas apontam 5 situações que ajudam a identificar quando a relação entre tutor e pet está equilibrada e quando alguns hábitos merecem atenção. Confira!
1. Chamar de filho não significa confundir os papéis
A expressão “mãe de pet” ou “pai de pet” pode representar uma identidade de cuidado e proximidade emocional sem significar que a pessoa não reconheça as diferenças entre humanos e animais.
“O termo ‘mãe de pet‘ costuma ser usado para expressar proximidade emocional, e não para ignorar as necessidades do animal. A questão não está necessariamente na palavra utilizada, mas em como essa relação é vivida e se as necessidades do pet estão sendo respeitadas”, explica Renata Roma.
2. O cuidado vira superproteção
O excesso de proteção pode aparecer quando o tutor tenta eliminar qualquer situação de desconforto ou frustração para o animal, acreditando que está demonstrando amor.
“Quando o tutor interpreta qualquer desconforto como sofrimento, evita frustração a todo custo e ainda mantém o cão constantemente no colo ou ao seu lado, ele pode acabar ensinando esse animal que não é capaz de lidar com a ausência”, alerta Cleber Santos.
3. O cachorro não consegue ficar bem sem o tutor
Ter um vínculo forte não significa que o cão precise estar o tempo todo ao lado da pessoa. Quando ele não consegue relaxar, descansar ou permanecer sozinho sem demonstrar sofrimento, essa situação merece atenção.
“Se o cão só consegue relaxar quando está grudado no tutor, isso não é necessariamente um vínculo saudável; pode ser dependência emocional. O espaço de descanso precisa ensinar o cão a ficar bem sozinho, não apenas acompanhado”, afirma Cleber Santos.
Para Renata Roma, reconhecer a importância do pet não significa fazer com que ele ocupe todos os espaços emocionais da vida do tutor. “O animal não substitui relações humanas ou filhos, mas ocupa um lugar único. E esse lugar pode envolver respostas emocionais muito profundas sem que seja necessário apagar as diferenças entre as espécies”.
4. A vontade do tutor passa a vir antes do bem-estar do pet
Roupas, festas, fotos, acessórios e até dormir na mesma cama podem fazer parte da rotina de uma família com animais. O limite aparece quando o conforto ou os sinais apresentados pelo pet deixam de ser considerados.
“Amar o animal por quem ele é também significa permitir que ele seja simplesmente um animal. Vestir o pet de forma desconfortável, forçar situações para fotos ou ignorar sinais de estresse pode ser prejudicial. Isso não está diretamente relacionado ao termo ‘mãe de pet‘, mas à capacidade de respeitar quem o animal é”, explica Renata Roma.
5. Amar também significa respeitar que ele é um animal
No fim, a principal questão não está em chamar o cachorro de filho, mas em entender se, dentro dessa relação, ele continua tendo espaço para agir de acordo com suas próprias necessidades.
“Eu estou respeitando as necessidades do meu pet? Estou projetando nele necessidades minhas? Estou permitindo que ele seja simplesmente um animal? Essas perguntas são mais importantes do que a terminologia usada para definir a relação”, afirma Renata Roma.
Para Cleber Santos, esse equilíbrio resume o que deve orientar a relação entre tutores e animais. “Ame os pets como filhos, mas os respeite como animais. Pessoas e animais têm necessidades bem diferentes”.
Considerar o cachorro parte da família, portanto, não significa necessariamente tratá-lo de maneira inadequada. O vínculo pode ser profundo, afetivo e ocupar um espaço importante na vida das pessoas. O cuidado está em não transformar esse amor em uma tentativa de fazer o animal caber em necessidades exclusivamente humanas.
Mais do que discutir se cachorro é filho ou não, a questão está em entender se, dentro dessa relação, o animal continua podendo ser cachorro.
Por Maria Carolina Rossi
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Fonte: Catraca Livre