Sério demais para ser piada, brega demais para ser solene

0

Por Michelle Catarine MachadoBrasil 247

O paletó, os óculos escuros e o broche de girassol, marca registrada de Falcão, ainda anunciam o personagem antes que venha a primeira graça. Só que, em Sério, a piada já não precisa ocupar todos os espaços. Em faixas como Beleza e Só Tenho Um, a interpretação avança sobre um terreno que por décadas pertenceu ao trocadilho, ao exagero e à irreverência.

A mudança surgiu das conversas com Rick Bonadio, produtor do álbum, e Raimundo Fagner, coprodutor. Em Brasília, antes de uma apresentação gratuita no Teatro dos Bancários, o cantor resumiu a proposta:

“Eles deram a ideia de a gente fazer uma coisa diferente”.

Não se trata de abandonar o personagem. Sério apenas permite que ele recue quando a canção pede.

Sem obrigação de fazer rir

Falcão construiu uma linguagem em que voz, figurino, expressões populares e absurdo se confundem. O sucesso dessa fórmula criou também uma expectativa: ouvir suas músicas passou a significar esperar pela próxima graça.

O álbum afrouxa esse pacto. A comicidade permanece, mas não organiza tudo. O título funciona quase como provocação: não há solenidade repentina, apenas mais espaço para o intérprete aparecer sem transformar cada verso em piada.

Essa história ganha outra camada em Jumento Celestino, dos Mamonas Assassinas. Rick Bonadio, produtor da banda nos anos 1990, participou da gravação original e voltou à faixa décadas depois.

Para o cantor, a relação vai além da homenagem:

“A gente sempre teve a ideia de gravar alguma coisa dos Mamonas, porque os Mamonas, afinal de contas, se basearam muito em mim, se inspiraram no meu trabalho”.

A escolha também passou pela ligação da música com o Nordeste:

“O próprio Rick deu a ideia, e depois eu concordei com ele, que é uma música que lembra muito o Nordeste”.

Na nova versão, Bonadio mexeu no arranjo e aproximou a faixa de outro registro do cantor:

“Gravou comigo, mudou um pouco o ritmo, deu ali uma levada mais moderna, e eu achei muito interessante porque provou também que eu sou um cara roqueiro, além de MPBista”.

A regravação não vive apenas de nostalgia. Ela aproxima duas trajetórias do humor musical brasileiro que já se cruzavam muito antes de Sério.

O tempo também mudou a maneira como o cantor pensa o próprio humor. Falcão conta que retirou dos shows trechos ligados ao bullying e passou a rever recursos que antes entravam naturalmente no repertório.

Isso não significa falta de assunto, sobretudo quando a política entra em cena:

“O Brasil é um prato cheio, porque as coisas já acontecem no poder, na esfera pública. O humorista só tem que adaptar”.

Fora desse campo, o material continua vindo do cotidiano: conversas, transporte público, mercados, praias e histórias ouvidas por acaso. Situações comuns viram matéria para o palco.

A apresentação gratuita em Brasília levou a conversa para uma questão que ultrapassa o disco. Falcão defende mais espetáculos sem cobrança de ingresso e uma programação que contemple diferentes linguagens:

“Não só o meu, que é interessante pela parte do humor, pela irreverência e pela descontração, mas que venham mais shows também, de uma linha mais séria, coisa mais focada na arte mesmo”.

Preço, distância, transporte e oferta cultural ajudam a explicar por que muita gente permanece fora de teatros, cinemas e casas de espetáculo. A ausência, para ele, não deve ser confundida automaticamente com desinteresse:

“O povo brasileiro é muito ligado à cultura brasileira. Só não consome porque não tem oportunidade”, avalia.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *