Rede de Peter Thiel passa por SP em meio à expansão política na América Latina

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Por Leonardo LucenaBrasil 247

247 – Uma comitiva ligada à estrutura empresarial do bilionário estadunidense Peter Thiel esteve em São Paulo entre o fim de abril e o início de maio, cerca de três meses antes da abertura oficial da campanha eleitoral de 2026. De acordo com informações divulgadas pela newsletter Noites Húngaras e repercutidas no CTRL+Z, um documento interno do hotel Rosewood identifica nominalmente pelo menos 15 hóspedes reunidos sob a designação “Thiel Capital & Presidio One”.

A primeira referência corresponde à empresa responsável por administrar investimentos pessoais de Thiel. A publicação afirma que a Presidio One mantém registro no mesmo endereço da Thiel Capital, em Los Angeles. O documento do hotel não informa a agenda do grupo no Brasil nem estabelece relação entre a viagem e atividades eleitorais brasileiras.

A lista chama atenção pelo tamanho da delegação e pela presença de funcionários que trabalham diretamente com a estrutura de Thiel. Entre os nomes citados pela reportagem aparecem Hanna Leeke, apresentada publicamente como assistente executiva pessoal do empresário, Andrew Dias, diretor de tecnologia da Thiel Capital, e Kaitlin Leard, funcionária da companhia.

Thiel esteve em São Paulo para encontro ligado à Enter

A presença do próprio Peter Thiel no Brasil naquele período já havia se tornado pública. Em 30 de abril, o empresário participou de um encontro promovido pela Enter, startup brasileira que desenvolve inteligência artificial aplicada ao setor jurídico.

O Founders Fund, criado por Thiel, liderou posteriormente uma rodada de US$ 100 milhões na Enter, que elevou a avaliação da companhia para US$ 1,2 bilhão. A empresa entrou, assim, no grupo das startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

O investidor Julio Vasconcellos, da Atlantico, relatou publicamente que a visita incluiu uma reunião com dirigentes empresariais e que Thiel discutiu inteligência artificial e assuntos internacionais durante o encontro. Registros públicos sobre o evento confirmam que a Enter recebeu executivos de grandes companhias brasileiras. “A visita foi algo maior do que um único investimento”, escreveu Vasconcellos no LinkedIn.

A documentação acrescenta um elemento até então pouco conhecido: Thiel não teria chegado ao país apenas para uma participação isolada. O agrupamento de 15 hóspedes sob o nome de suas estruturas empresariais indica a presença de uma equipe organizada durante a passagem por São Paulo.

Até agora, não vieram a público informações que permitam afirmar que essa comitiva participou de reuniões políticas no Brasil. Também não há elemento apresentado no documento do Rosewood que vincule diretamente a hospedagem às eleições de 2026.

Investimentos e política se cruzam na trajetória de Thiel

A atenção em torno da passagem pelo Brasil decorre também da trajetória política de Peter Thiel nos Estados Unidos. O empresário ocupa a presidência do conselho e integra o grupo de fundadores da Palantir, empresa de tecnologia que fornece sistemas para governos, serviços de inteligência, forças de defesa e clientes privados.

Em relatório à SEC, a própria Palantir afirma que sua plataforma Gotham atende operações de defesa e inteligência e informa que clientes governamentais responderam por 54% de sua receita em 2025. A companhia registrou 954 clientes ao fim daquele ano.

Thiel também se destacou como financiador da direita norte-americana. Em 2009, muito antes da consolidação da aliança entre parte do Vale do Silício e o presidente dos EUA, Donald Trump, ele escreveu: “I no longer believe that freedom and democracy are compatible” — “já não acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis”, em tradução livre. A frase aparece no ensaio The Education of a Libertarian.

Anos depois, Thiel destinou milhões de dólares à carreira política de J.D. Vance, hoje vice-presidente dos EUA. O empresário colocou grande parte de seus US$ 35 milhões em doações eleitorais de 2022 nas campanhas de Vance e Blake Masters.

Rockbridge amplia o debate sobre influência política

Outro ponto de conexão envolve a Rockbridge Network, organização criada em 2019 por J.D. Vance e Chris Buskirk. Documentos analisados pela Reuters mostraram que a rede construiu uma estrutura destinada a financiar mídia conservadora, pesquisas eleitorais, mobilização de eleitores e outros instrumentos de influência política nos Estados Unidos.

A Reuters identificou Peter Thiel entre os financiadores da Rockbridge. A rede operava com orçamento projetado de aproximadamente US$ 75 milhões em 2024 e controlava ou apoiava diferentes organizações voltadas à disputa política norte-americana.

A Rockbridge passou a aparecer também no debate eleitoral brasileiro. Em setembro, o PT levou ao Supremo Tribunal Federal uma notícia de fato pedindo investigação sobre um possível custeio estrangeiro relacionado à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL)

A petição mencionou a Rockbridge e reportagens sobre integrantes ou pessoas ligadas à rede. Até o momento, a existência do pedido de investigação não comprova financiamento ilegal nem estabelece participação de Thiel na campanha brasileira.

Esse ponto também não estabelece vínculo entre o grupo hospedado no Rosewood em maio e a campanha de Flávio Bolsonaro. Os fatos conhecidos mostram, de um lado, uma comitiva ligada à estrutura empresarial de Thiel em São Paulo e, de outro, questionamentos posteriores sobre integrantes de redes conservadoras estadunidenses no ambiente eleitoral brasileiro.

Thiel avança na Argentina

A passagem pelo Brasil ocorreu durante uma expansão dos interesses empresariais de Thiel na América Latina. Na Argentina, o bilionário aproximou-se do governo de Javier Milei e se reuniu-se com o presidente argentino meses antes de realizar um investimento no setor energético.

Em agosto, documentos regulatórios mostraram que a Thiel Macro comprou cerca de 1,2 milhão de recibos de ações da Vista Energy, operação avaliada em aproximadamente US$ 76 milhões. O investimento correspondeu a cerca de 1% da companhia, que atua no polo de petróleo e gás de Vaca Muerta. A Reuters também registrou que Thiel havia comprado uma residência em Buenos Aires.

A presença do empresário provocou reação política na Argentina. Deputados da oposição convocaram uma audiência no Congresso para discutir seus investimentos, projetos ligados à inteligência artificial e os efeitos de sua crescente atuação no país. Os organizadores apresentaram críticas à influência de grandes empresas de tecnologia sobre políticas públicas e recursos estratégicos.

Palantir já atua em estruturas brasileiras

A presença empresarial relacionada a Thiel no Brasil não começou com a visita de maio. A Palantir mantém ou manteve relações com instituições públicas e privadas brasileiras.

O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) utilizou a plataforma Foundry desde dezembro de 2023, por meio de um contrato firmado com o Serpro. Em julho de 2026, o órgão anunciou o início da descontinuação da ferramenta. O FNDE afirmou que utilizou exclusivamente dados públicos ou passíveis de divulgação e negou qualquer compartilhamento de dados pessoais de estudantes com a Palantir.

A Globo também mantém relação comercial com a empresa. A parceria começou em 2019 e envolveu a utilização da Foundry para integrar e analisar bases que ultrapassavam dois petabytes de dados. Segundo a própria Globo, a ferramenta apoiou processos comerciais, publicitários e de análise de audiência.

O tema entrou no Congresso em fevereiro. O deputado federal Rui Falcão (PT-SP) protocolou requerimentos de informação ao Ministério da Fazenda e ao Ministério da Educação para obter dados sobre contratações, subcontratações e uso de sistemas da Palantir pelo Serpro, pelo FNDE e por outros órgãos federais.

A relação da Palantir com estruturas militares também alimenta discussões internacionais sobre o alcance de suas tecnologias. A empresa reconhece que fornece plataformas para defesa e inteligência e informou em documentos corporativos que firmou, em 2024, uma parceria estratégica com o Ministério da Defesa de Israel para apoiar atividades relacionadas à guerra.

Documento amplia perguntas sobre passagem por São Paulo

O registro interno do Rosewood mostra que ao menos 15 pessoas apareceram agrupadas sob “Thiel Capital & Presidio One” durante o período em que o bilionário participou de compromissos empresariais em São Paulo.

O tamanho e a composição da delegação ganham relevância diante da atuação simultânea de Thiel em tecnologia, investimentos, defesa e financiamento de redes políticas nos Estados Unidos e de sua expansão econômica na América Latina. O que permanece sem resposta pública é a agenda completa da equipe durante a estadia em São Paulo, além das atividades já conhecidas relacionadas à Enter.v

Fonte: Brasil 247

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