Quando pertencer não basta
Por Rafael Rosa — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
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Nove dias separaram os comícios de Flávio Bolsonaro, no Parcão, e de Lula, no largo Glênio Peres, e estive presente nos dois. Mais do que dois atos de campanhas absolutamente opostas, encontrei duas formas distintas de transformar identidade política em ocupação da cidade.
No Parcão, a imagem havia surgido quase pronta, nas camisetas, bandeiras, máscaras com o rosto de Jair Bolsonaro, palavras de ordem e num público que parecia saber mais claramente contra quem estava lá do que por quem havia ido até ali.
Flávio era o candidato presente no palco, mas era Jair quem permanecia nos rostos, nos discursos e nos símbolos carregados pelos apoiadores e, como em uma arquibancada, todos sabiam quando aplaudir e contra quem vaiar.
Nove dias se passaram até eu ir ao Glênio Peres.
Encontrei novamente camisetas, bandeiras, celulares erguidos, palavras de ordem e milhares de pessoas que tampouco tinham dúvida sobre de que lado estavam.
Mas não encontrei a mesma coisa. Ter lado não apagava as semelhanças, assim como as semelhanças não apagavam as diferenças.
No Glênio havia vermelho, material de campanha, bonés, ventarolas, bandeiras e o nome de Lula em letras gigantes. Havia aplausos previsíveis, celulares apontados para o palco e uma liderança capaz de concentrar milhares de olhares.
No Parcão, o pertencimento parecia anteceder boa parte da discussão. Alexandre de Moraes virava “Xandão”. Lula era o inimigo. Manuela d’Ávila aparecia como alvo. Jair Bolsonaro permanecia como referência mesmo sem estar presente.
Quando Flávio afirmou que, com sua eleição, o PT deixaria de existir, recebeu uma das maiores reações da noite.
Naquele clima de arquibancada, a frase ganhava sentido: já não bastava derrotar o adversário; era preciso retirá-lo do campeonato.
Mas uma eleição pressupõe também disputa de projetos e ideias. O pertencimento, sozinho, não resolve essa disputa.
E, embora no Glênio os sinais de pertencimento também estivessem por toda parte, o pertencimento não parecia esgotar o sentido de se fazer presente.
E nesta presença havia movimentos sociais, estandartes artesanais, candidaturas diferentes e reivindicações que continuariam existindo depois que o palco fosse desmontado.
No meio da multidão, uma mulher ergueu um pequeno cartaz escrito à mão: “Da EJA à graduação no IFSul aos 34 anos. Graças à educação pública. Obrigada, Lula”. Uma política pública aparecia traduzida numa experiência de vida e devolvida ao largo na forma de um pedaço de papel.
E é aí que as diferenças começam a ficar mais claras.
Enquanto no Parcão os símbolos convergiam para uma identidade, no Glênio diferentes identidades convergiam para algo maior do que os próprios postulantes aos cargos eletivos.
E, embora a identidade partidária estivesse por toda parte, ela dividia o quadro com histórias individuais, pautas específicas e reivindicações que não se esgotavam na figura de Lula.
A diferença talvez esteja menos nas pessoas do que na lógica que predomina.
O clima de arquibancada precisa de lados. Há um time, um adversário, símbolos que permitem reconhecer os nossos, cantos e códigos compartilhados. Sua força está no pertencimento.
E a política também precisa desse clima, pois pouca gente enfrentaria chuva ou passaria horas diante de um palco movida apenas pela leitura de programas de governo.
O problema começa quando vestir a camisa se torna a única linguagem disponível, porque, numa arquibancada, trocar de lado é virar a casaca e convencer o adversário importa menos do que derrotá-lo.
Um largo ocupado politicamente também pode reproduzir esse clima, com o público repetindo palavras de ordem, fechando-se ao contraditório e transformando identidade em fronteira.
O que vimos no Glênio Peres, porém, não se resumia a isso.
Vimos pessoas apoiando um governo e levando àquele espaço pautas que não se esgotavam nesse apoio. Vimos bandeiras dizendo quem apoiavam e outras dizendo o que reivindicavam.
Diante do Mercado Público, entre comércio, terminais e a circulação diária do Centro, isso fazia parte da própria paisagem — e o ato dialogava com o ritmo da cidade.
Alguns podiam estar ali para ouvir Lula; outros, simplesmente para atravessar o Centro. Era possível parar, observar, concordar, discordar ou apenas seguir adiante.
Talvez por isso os dois atos produzam perguntas diferentes.
Enquanto o clima de arquibancada do Parcão pergunta “De que lado você está?”, o largo acrescenta: “O que você quer estando aqui?”
Foi isso que tornou os dois comícios inseparáveis para mim.
No Parcão, a política apareceu como uma poderosa máquina de produzir identidade; no Glênio, essa identidade também estava presente, mas dividia espaço com presença, experiência e reivindicação.
Nos dois lugares havia paixão, lealdade, esperança e antagonismo.
A diferença não estava simplesmente entre quem torcia e quem participava, mas naquilo que os próprios símbolos pareciam pedir de quem os carregava.
No Parcão, eles diziam principalmente a qual lado aquelas pessoas pertenciam.
No Glênio, muitos diziam também por que estavam ali.
No Parcão, uma máscara com o rosto de Jair Bolsonaro colocada diante do rosto de um apoiador quase dispensava legenda. Identidade e personagem se confundiam.
No Glênio, uma mulher levantava acima da multidão um pedaço de papel escrito à mão para contar que havia chegado da EJA à graduação graças às políticas públicas dos governos Lula e Dilma.
Era uma declaração de pertencimento, mas havia uma história de vida dentro dela.
No Parcão, as imagens diziam sobretudo quem.
No Glênio, muitas delas diziam também por quê.
Vistos separadamente, eram dois comícios de campanhas adversárias.
Vistos juntos, formavam um díptico: de um lado, o clima de arquibancada do Parcão; do outro, o largo ocupado por diferentes identidades, histórias e reivindicações.
Entre a máscara e o cartaz, entre uma identidade que quase dispensava legenda e outra que precisava contar sua própria história, talvez esteja a imagem que os dois comícios deixaram de Porto Alegre.
Pertencer é parte da política, mas não pode ser o seu ponto final.
* Rafael Rosa é fotojornalista brasileiro residente em Porto Alegre, tendo suas imagens veiculadas em diversas publicações de alcance nacional, tais como IstoÉ, CBN, Terra, Folhapress, Intercept Brasil, CNN, dentre outras plataformas jornalísticas.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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Fonte: Brasil de Fato