Quando a política vira entretenimento: estamos escolhendo governantes ou personagens?
Por Mylenna Scheidegger — Jornal Opção

Nas últimas eleições e principalmente na de 2026, a política nunca esteve tão perto de se parecer com um programa de entretenimento que assistimos domingo à tarde na TV. Além de mostrarem que estão capacitados para governar um país, os atuais candidatos precisam saber posar para a câmera e escolher bem o que vai falar para virar um corte viral nas redes sociais.
Talvez isso mostre que o candidato contemporâneo não dispute votos, mas sim atenção. E a atenção, em tempo de redes sociais, é um dos bens mais difíceis de se conquistar.
Vivemos em um tempo em que as discussões sobre pautas de extrema importância, como saúde, segurança pública, educação, dentre outros, são limitadas a vídeos de 1 minuto nas plataformas digitais. E em muitos casos, esses argumentos apresentados na filmagem são rasos porque não há espaço para aprofundamento do tema. E o pior, o principal assunto precisa competir com uma piada, com uma dancinha, com uma frase de efeito e uma provocação entre os candidatos. E no fim, o algoritmo não necessariamente entrega aquilo que é mais importante, ele envia o que consegue fazer alguém parar de rolar a tela.
E é nesse ambiente que a política começa a ganhar contornos de espetáculo e o candidato vira um personagem. Ele introduz um bordão, estilo, linguagem, estética e te vende uma narrativa cuidadosamente construída sobre quem ele diz que é. Aí nasce o candidato “gente como a gente”, o candidato “linha dura”, o candidato “contra tudo isso que está aí”, o candidato que representa a renovação, o candidato que promete colocar ordem na casa. E quando eleito, não cumpre nem metade do que prometeu.
Mas essa construção da imagem não é uma novidade na política. Os políticos sempre precisaram se comunicar, mostrar quem eles são e mostrar o que defendem. A diferença é que agora essa construção acontece em uma velocidade muito maior e, muitas vezes, de maneira permanente.
O eleitor pode acompanhar o candidato durante todo o dia. Vê sua fala no debate, depois um corte de dez segundos, em seguida um vídeo gravado em casa, uma publicação com a família, uma resposta a um adversário e, algumas horas depois, um meme sobre tudo isso. E pouco a pouco, o eleitor conhece a personalidade do candidato antes mesmo de conhecer seu projeto de governo. E talvez esteja aí uma das grandes contradições da política atual: sabemos cada vez mais sobre os personagens e, ao mesmo tempo, podemos saber cada vez menos sobre os projetos.
É muito mais fácil dizer que determinado candidato é “contra” ou “a favor” de alguma coisa do que compreender como ele pretende transformar uma promessa em política pública. É mais simples compartilhar uma frase de impacto do que ler um plano de governo. É mais divertido assistir a uma discussão entre dois candidatos do que tentar entender uma proposta de orçamento.
Não é apenas responsabilidade dos políticos. Nós também fazemos parte desse processo.
Somos nós que compartilhamos o vídeo que nos indignou sem necessariamente procurar a entrevista completa. Somos nós que transformamos uma declaração em meme. Somos nós que ajudamos a decidir quais personagens permanecerão durante horas no centro da conversa pública.
A política se adaptou ao nosso modo de consumir informação porque descobriu que, para chegar ao eleitor, primeiro precisa conquistar sua atenção. Mas existe um problema quando a lógica da atenção começa a determinar a lógica da escolha. Governar é muito mais complexo do que comunicar.
Um presidente precisará tomar decisões que não cabem em um vídeo de 30 segundos. Precisará lidar com orçamento, Congresso, inflação, saúde pública, educação, segurança, relações internacionais, infraestrutura, crises e interesses que frequentemente entram em conflito. Não haverá algoritmo para escolher a melhor decisão, muito menos edição capaz de retirar os momentos difíceis. Não haverá corte viral capaz de resolver um problema estrutural. Por isso, talvez a pergunta mais importante desta eleição não seja apenas qual candidato fala melhor, viraliza mais ou consegue reunir a maior torcida nas redes sociais.
Talvez devêssemos perguntar: quem é essa pessoa quando a câmera desliga?
Que projeto ela apresenta? Quem estará ao seu lado? Quais compromissos assume? De onde virá o dinheiro? O que pretende fazer quando uma promessa encontrar a realidade? Como pretende governar quando precisar negociar com quem pensa diferente?
A democracia precisa de comunicação, mas não se pode resumir a ela.
Precisamos continuar olhando para os candidatos como pessoas que desejam ocupar uma função pública, e não apenas como personagens disputando espaço em nosso feed.
Porque o presidente não é influenciador.
Não precisa ser o mais engraçado, o mais carismático ou o mais viral. Precisa estar preparado para governar e cumprir com o que prometeu. E, antes de escolher o próximo presidente, talvez valha a pena perguntar se estamos escolhendo um governante ou apenas o personagem que aprendemos a gostar.
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Fonte: Jornal Opção