Projeções apontam avanço democrata nos EUA impulsionado por rejeição a Trump

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Por Vivian Oswald — JOTA

Às vésperas das eleições que podem determinar os rumos da extrema-direita global — a corrida à presidência do Brasil e as midterms nos Estados Unidos —, o JOTA Global discutiu em Nova York, na última quarta-feira (23/9) , onde esses pleitos se encontram e o que determina o voto do eleitor.

As projeções para as eleições do Congresso nos Estados Unidos indicam um cenário altamente favorável ao Partido Democrata. O principal motor das dificuldades do Partido Republicano é a aprovação historicamente baixa de Donald Trump, que se encontra na casa dos 30%. Esse fator tem se sobreposto a elementos tradicionais do sistema político norte-americano, como o gerrymandering (o redesenho dos distritos eleitorais). 

O pleito atual testa se as dinâmicas políticas tradicionais ainda prevalecem, ou se Trump alterou estruturalmente o comportamento do eleitorado, ou as próprias metodologias de pesquisa.

Para Carlos Odio , cofundador da Equis Research e uma voz de referência em dados sobre o eleitorado latino nos EUA, o ex-presidente americano subverteu a lógica do discurso de vitória eleitoral praticado até aqui. Sua força consistia em não seguir a tradição, em não fazer o que todos os outros fazem, em agir com “tal desfaçatez e ilusão” que trazia todos para a sua própria realidade, o que lhe permitia fazer o que quisesse.

Mas agora, prossegue, essa força se transformou em fraqueza. Não se trata apenas de ter herdado problemas, mas de tê-los criado por meio de tarifas e da guerra com o Irã. “No fim das contas, as forças da polarização determinariam o resultado final. Mas podemos estar chegando a um ponto em que este experimento psicológico de massa que tem sido a invencibilidade de Trump pode, de fato, estar chegando ao fim”, disse.

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Segundo ele, as ações de Trump têm afetado a percepção sobre a economia, área que anteriormente representava seu ponto mais forte. A imposição de tarifas e a guerra com o Irã agravaram a situação econômica. Além disso, Trump desconsiderou as preocupações da população com o custo de vida e ainda defendeu a aceitação de preços mais altos nos combustíveis, contrariando estratégias eleitorais vitoriosas.

“Não temos Trump como incumbente, diferentemente de Lula no Brasil. Mas, como ele próprio disse, ‘estou na disputa’ e, sob as regras normais da política nos Estados Unidos, o desempenho do partido do presidente nas eleições de meio de mandato depende imensamente de sua popularidade”, destacou.

E com esta última em baixa, Odio aposta hoje na vitória dos democratas.

“Muitas coisas sem precedentes aconteceram nos últimos dez anos. Na verdade, é preciso ter um certo grau de criatividade para imaginar um cenário em que isso não aconteça”, afirma.

Na Câmara dos Representantes (House of Representatives), a probabilidade de vitória democrata é elevada, segundo ele, com projeções que sugerem um “tsunami” de vitórias além de uma onda eleitoral típica. No Senado, o cenário também se inclina para uma maioria democrata, que pode alcançar entre 52 e 53 assentos, caso as pesquisas atuais se confirmem.

Disputas-chave nos EUA: Flórida e estados decisivos do Senado

A apuração na Flórida fornecerá os primeiros indicativos na noite da eleição. Um ponto central será a capacidade dos democratas de manter assentos previstos (como FL-14 e FL-25). Contudo, a vitória em distritos considerados mais difíceis, como o FL-27 — um assento em Miami-Dade onde Trump venceu por 15 pontos em 2024 —, sinalizaria um patamar elevado de rejeição a Trump. Refletindo a apreensão interna do partido, o titular republicano no FL-27 criticou publicamente as políticas migratórias de Trump.

No Senado, os democratas contam atualmente com 48 assentos. Uma vitória no Maine levaria a bancada a 49. Para consolidar a maioria (fixada em 51 assentos, ou 52 para garantir uma maioria funcional diante de eventuais deserções), o partido precisa vencer em estados onde Trump venceu por mais de 10 pontos em pleitos anteriores, como Iowa, Ohio, Alasca e Texas. Atualmente, as pesquisas mostram os democratas à frente em três desses estados, o que representaria um evento sem precedentes e uma mudança significativa na opinião pública.

O voto hispânico no sul do Texas

No sul do Texas, região com expressiva população hispânica, registrou-se um avanço relevante de Trump em eleições anteriores, subindo de 30% para 45% do voto desse eleitorado.

Com o redesenho dos distritos promovido pelos republicanos na região, a recuperação do eleitorado hispânico tornou-se um fator crucial para que os democratas conquistem esses assentos na Câmara. O comportamento do voto hispânico é apontado atualmente como o elemento de maior impacto na definição do número final de cadeiras na Câmara.

Semelhanças comparativas entre EUA e Brasil

Ao longo do painel, fica claro que o cenário eleitoral americano guarda semelhanças marcantes com o contexto político brasileiro, com destaque para quatro pontos de convergência estrutural. O primeiro é uma espécie de polarização cristalizada em ambas as nações, a partir de profundas divisões ideológicas que dificultam a construção de consensos políticos. E essa é uma das explicações para o segundo ponto: o fato de as eleições nos dois países serem movidas por rejeição, com o padrão de voto focado na rejeição a um candidato ou partido, em detrimento do apoio propositivo a uma candidatura.

O que mais chama a atenção de Odio é o terceiro aspecto, o que considera a desconexão econômica, o que também é apontado no Brasil pelo sócio-fundador do JOTA , Felipe Seligman. Ou seja, mesmo diante de melhorias em alguns indicadores econômico no Brasil, ou de evidente piora nos EUA, como aponta Odio, a percepção pública sobre o custo de vida e o bem-estar financeiro pessoal permanece defasada, criando desafios para governantes e partidos no poder.

O quarto e último ponto destacado por ele é a crise da democracia, que não chega a ser um problema exclusivo dos dois países, mas que faz com que o enfrentamento de desafios fundamentais às instituições democráticas e à estabilidade da governança coloque sob teste normas e ritos consolidados.

O JOTA Global teve realização do JOTA , com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.

Fonte: JOTA

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