Pressão para liberar recursos a ‘Dark Horse’ foi intensa e constante, revelam mensagens de Vorcaro
Por Leonardo Miazzo — Carta Capital
Menu
Os diálogos, revelados por ‘CartaCapital’, mostram a obsessão do banqueiro e a tensão do cunhado, Fabiano Zettel: ‘Não faz assim que me dá dor de barriga’
Novas mensagens do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam uma pressão muito mais constante e intensa do que pretende fazer supor o presidenciável Flávio Bolsonaro para a liberação dos aportes milionário a Dark Horse, filme de propaganda sobre Jair Bolsonaro (PL). Nas conversas com o cunhado Fabiano Zettel, o banqueiro expõe sua tensão diante dos atrasos do financiamento do longa, “o mais importante disparado”.
Em 20 de janeiro de 2025, a pressão bateu à porta quando Zettel alertou Vorcaro: “O cara do ‘filme’ não sai da minha cola. Me mandou um fluxo gigante!” . Na véspera, um interlocutor identificado como o publicitário Thiago Miranda — então sócio do site do jornalista Léo Dias — havia reforçado o tom de urgência após conversar com “Fabiano”, cravando que “hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme”.
A reportagem manteve as mensagens originais, inclusive com seus muitos erros gramaticais.
A tensão escalou no dia seguinte, 21 de janeiro, alimentada pelo silêncio de Vorcaro sobre o filme e outros pagamentos que aguardavam aprovação. “Irmão, fala comigo! Me dá um norte? Mesmo que seja ‘não faz porra nenhuma até eu voltar’”, suplicou Zettel. Enquanto negociavam um fluxo de “55,5 milhões”, o banqueiro chegou a perguntar se o filme estava incluso no bolo, obtendo uma resposta categórica: “Não. Porque o fluxo é gigante… 10 de 2.5 de dólares”.
Uma semana depois, ao perceber que Zettel ainda não havia repassado a verba para a produção, Vorcaro reforçou o peso da tarefa ao defini-la como “o mais importante disparado”, resultando em um aviso severo: “Não pode falhar mais”.
A concretização do plano, contudo, esbarrou em barreiras operacionais. Em 29 de janeiro, Zettel expôs o impasse burocrático: “A empresa que eu criei não tem cadastro suficiente pra mandar os câmbios do filme. Posso mandar Super?”. Vorcaro respondeu com irritação: “Nossa senhora”.
Sem respostas por dez horas naquele mesmo dia, Zettel voltou a exigir clareza sobre “que empresa paga o filme”, informando em 30 de janeiro que o montante do repasse seria de “2M de dólares”. A insistência prosseguiu no dia seguinte às 8h35 (“preciso saber do filme”), levando, mais de oito horas depois, a uma nova cobrança de Vorcaro (“vc fez o filme?”). O cunhado, então, estourou: “Amigo, Não faz assim que me dá dor de barriga. Estamos esperando você definir a empresa…”.
O desgaste cresceu em 3 de fevereiro, quando Zettel tentou atualizar Vorcaro sobre uma lista de pendências que incluía “resolver filme”. Inconformado, o então dono do Master disparou: “Como ssim? Não fez sl? Nem filme”. Isso provocou uma nova crítica de Zettel: “Amigo, Não faz assim comigo!! Eu te escrevo todo dia!! – preciso da empresa do filme. preciso liberar SL. Hoje vc mandou: Faz só esse!”.
Enquanto Vorcaro insistia que “precisamos câmbio sl, filme”, Zettel requeria uma solução definitiva: “Libera a TED então.. E me fala que empresa faz filme”, emendando minutos depois com a mensagem: “Mandei carta de 34M: – SL – Filme – Despesas”.
Foi nesse clima de atritos que floresceu a alternativa revelada em maio pelo site The Intercept Brasil: a cartada de Vorcaro sugerindo “fazer via entre”, em provável alusão à Entre Investimentos e Participações, de Antonio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. Com o sinal de Zettel de que pediria “pro Minas” e a ordem direta de Vorcaro (“e manda a grana”), a dupla deu o pontapé inicial em 5 de fevereiro para estruturar a insólita rota pela qual circulariam mais de 60 milhões de reais supostamente destinados a Dark Horse.
A engenharia financeira era intrincada, como ilustra um diálogo em que Vorcaro questionou “pra quem paga la fora”, obtendo de Zettel a resposta de que seria “um fundo”. A conversa incomodou o banqueiro: “Fundo? Vc não me deu noticia”.
As cobranças não deram trégua. Em 6 de fevereiro, Thiago Miranda acionou Vorcaro: “Sobre o filme tá parado não andou, consegue liberar essa pauta com o Fabiano? Eles estão me cobrando”. Recebeu a seguinte justificativa do banqueiro: “Questão que já devolveram duas vezes. Estamos com problemas pra fazer o cambio e olha que estou fazendo interno”. Pressionado a apresentar uma saída, Vorcaro garantiu: “Eu acho que hj resolvo se não der te aviso”.
As reclamações ganharam novos contornos em 11 de fevereiro, quando Vorcaro cobrou Zettel sobre o câmbio do filme. “Passei pro Mineiro. Ele também estava com dificuldades. Tô na cola dele. Mas se vc mandar mensagem, me ajuda muito…”, justificou Zettel, revoltando o dono do Master: “Cara nao e possível. Não acredito”. O cunhado argumentou que “o câmbio não quer fazer” devido a problemas de cadastro, porque “as informações são meio estranhas…”. Vorcaro subiu o tom: “Preciso resolver HOJE. E possível”. A trégua parcial veio com a resposta de Zettel: “Ok! Alberto Leite já está pra assinar”. Minutos depois, o complemento: “Ele resolveu a questão do filme. Obrigado”.
A solução se materializou três dias mais tarde, quando Zettel compartilhou um arquivo em PDF com o comprovante de uma transferência de 2 milhões de dólares da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas (EUA) e sob a batuta do advogado Paulo Calixto, aliado do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, que vive no mesmo estado norte-americano.
Apesar da remessa, a novela via WhatsApp prosseguiu. Em 12 de março, Thiago Miranda jogou um balde de água fria em Vorcaro: “Sobre o filme só foi pago a primeira de janeiro”. O banqueiro repassou imediatamente a cobrança ao cunhado: “Precisa me ajudar controlae isso. Tem que pagar a segunda e a terceira”. Fabiano Zettel prometeu: “Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”.
Já em 18 de agosto de 2025, Thiago Miranda voltou à carga: “Pessoal do filme me cobrou hoje. Não caiu as parcelas semana passada. Pode ver isso. Pfv. Acho que te lembrei já era no meio da semana”. Diante de mais um cerco de Miranda no mês seguinte, o banqueiro tentou apaziguar os ânimos: “Pede desculpas os atrasos meu esforço tem sido máximo possível e prioridade total. Apesar de qq tempestade vou ate o fim com isso”.
Vorcaro chegou a pagar mais de 60 milhões de reais para supostamente viabilizar Dark Horse por meio do fundo Havengate. O acerto inicial, porém, envolvia o aporte de cerca de 134 milhões de reais. O financiamento da obra é objeto de investigação da Polícia Federal, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis crimes que teriam sido praticados, em tese, por Flávio Bolsonaro.
Leonardo Miazzo
Editor de CartaCapital
Sergio Lirio
Redator-chefe da revista CartaCapital
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital


