Prenúncios e tragédias eleitorais
Por Adilson Roberto Gonçalves — Brasil 247
Ainda que a tragédia eleitoral esteja em curso, com alguma chance de ser revertida – e estamos trabalhando para isso –, alguns fatos pretéritos que antecederam o pleito para a presidência do país merecem alguma consideração. Isso porque fica parecendo que o mal maior supera o acontecimento trágico anterior, aniquilando-o. Precisamos manter a lembrança para não repetir lambanças.
Primeiramente, em relação à repercussão acerca da imagem e significado de Nossa Senhora Aparecida e os ataques que ela sofreu, os fatos revelaram muito de nossa intolerância, hipocrisia e seletividade. Espaços de expressão de religiões de matrizes africanas são constantemente violados, incendiados, destruídos, sem qualquer comoção nacional. Discursos de ódio contra judeus, muçulmanos, ateus e outros grupos minoritários são comuns e frequentes nas redes sociais, sem que haja fiscalização e coibição adequadas. O Estado é laico apenas na teoria e os vendilhões do tempo e do templo estão onipresentes e oniscientes de seus mandos e desmandos, pois a fé continua movendo montanhas – de dinheiro.
As eleições surpreenderam desavisados pela eleição massiva de senadores da extrema direita. Nessa questão, foi interessante a análise de Fernando Haddad Moura e Matheus Miranda dias antes da votação (“Eleitor deve estar atento às escolhas para o Senado”, Folha de S. Paulo 1/10), mas, observando os resultados ao longo dos anos, a maior incidência de não voto para o Senado quando há duas vagas em disputa – objeto primeiro do artigo – pode incluir também a baixa qualidade proporcional dos candidatos. Por São Paulo, por exemplo, vimos o quão os dois eleitos estão alinhados com pautas armamentistas e de violência contra a população mais vulnerável. Se isso iria se converter em voto ou em brancos e nulos saberíamos em poucas horas. No dia da publicação do artigo, a cerca de cem horas do pleito, parecia um passado distante, haja vista os tempos sombrios que se descortinam a partir de agora. O mesmo comportamento aconteceu em quase todo o Brasil, à exceção do Nordeste.
Cabe lembrar que, também dias antes, Lula deu um show de estratégia eleitoral ao cancelar a ida ao “debate” na Globo. É o que se depreendia daquela ousada ação. Ele sabia que o “debate” seria uma armadilha de todos contra ele e a entrevista ao Flow foi um sucesso. Para completar, a noite foi coroada com a covardia de Flávio Bolsonaro e a emissora admitiu que havia montado uma farsa. O mais importante, porém, foi o conteúdo das falas de Lula, com recado ao jovem rebelde, aula de economia popular, explicações sobre sua ausência no “debate” e discussão sobre o banco Master e o Judiciário. O jornalismo sério deveria, naquele momento, ter se preocupado em avaliar o que o presidente disse e não apenas ter esperneado quanto às decisões jurídicas da noite. Deu no que deu. Talvez a distância de votos teria sido ainda maior se Lula tivesse comparecido à arapuca.
Por fim, é também interessante que não se viu gente nas ruas queimando pneus, vociferando contra as urnas eletrônicas, nem fechando estradas. É bom ressaltar que se enganam os que atribuem os campeões de voto ao personalismo ou campanha própria tradicional. O resultado da eleição foi moldado por algoritmos e pela milícia digital, que ocultaram verdades explícitas e dispararam mentiras vexatórias em massa para os eleitores, tal qual os anúncios das bets. No entanto, o resultado não foi manipulado no momento do voto, dada a segurança das urnas conquista ao longo de décadas. É nessa seara cibernética que o embate político deverá ser feito nas próximas três semanas, quando saberemos o que o povo realmente quer – ou foi assim convencido a fazer – para os próximos quatro anos. Ou 40. O verde e o amarelo da esperança vão sendo substituídos pelo cinza plúmbeo já conhecido.
Fonte: Brasil 247