Por que parte do empresariado teme Lula — e aceita Flávio
Por Benedito Tadeu César — Brasil 247
Depois de três governos lucrativos para bancos, indústria e agronegócio, a rejeição a Lula e a tolerância com um candidato antidemocrático revelam que a verdadeira disputa envolve salários, direitos, soberania e controle do Estado.
Há uma pergunta incômoda na eleição presidencial de 2026: por que parcelas do empresariado brasileiro, dos grandes grupos aos pequenos comerciantes, continuam temendo Luiz Inácio Lula da Silva depois de três mandatos, mas admitem votar em Flávio Bolsonaro?
O contraste é difícil de explicar apenas pela economia. Nos governos Lula, bancos lucraram, o agronegócio ampliou a produção e as exportações, empresas receberam crédito, a renda e o consumo cresceram e o país não promoveu qualquer ruptura com a propriedade privada. Ainda assim, Lula é apresentado em círculos empresariais como ameaça.
Flávio, por sua vez, é o herdeiro de um movimento que tentou impedir a alternância democrática do poder, atacou as urnas eletrônicas e conspirou contra o resultado eleitoral. Sua família articulou nos Estados Unidos pressões e sanções contra autoridades e interesses brasileiros. O senador carrega o caso das rachadinhas, relações históricas com personagens ligados às milícias do Rio de Janeiro e, mais recentemente, vínculos políticos e financeiros com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Nada disso impediu que ele fosse recebido por banqueiros, industriais e dirigentes de grandes empresas. Para parte do empresariado, a possibilidade de sua eleição parece menos assustadora do que um quarto mandato de Lula.
O paradoxo sugere que a divergência não se resume a crescimento, inflação ou segurança jurídica. Ela envolve a distribuição da riqueza, o poder dos trabalhadores, a soberania nacional e a definição de quem controla o Estado.
O perigo que não se confirmou
Lula chegou pela primeira vez à Presidência, em 2003, cercado por previsões de fuga de capitais, estatização e desorganização econômica. Nada disso ocorreu. Seu governo preservou contratos, pagou a dívida, manteve a estrutura do sistema financeiro e conviveu com lucros empresariais elevados.
No terceiro mandato, tampouco houve ruptura. O governo aprovou a reforma tributária sobre o consumo, retomou a política industrial, ampliou o crédito do BNDES e lançou programas para infraestrutura, transição energética e agricultura. As entidades empresariais negociam diariamente com o governo e reivindicam recursos de suas políticas.
O agronegócio, embora reúna um dos núcleos mais hostis a Lula, solicitou R$ 518,2 bilhões para a agricultura empresarial no Plano Safra 2026/2027. A indústria pede financiamento público, proteção contra importações, incentivos fiscais, compras governamentais e apoio tecnológico.
Portanto, o temor a Lula não resulta de sua hostilidade à atividade empresarial. Os fatos mostram um presidente conciliador, disposto a combinar crescimento, lucro privado, emprego e políticas sociais. O incômodo aparece quando essa conciliação exige alguma contrapartida do capital.
Do medo de Lula ao ódio ao PT
O antilulismo não começou com o mensalão nem com a Lava Jato. Em 1989, a origem nordestina, operária e pobre de Lula, sua pouca instrução formal, sua aparência e seu modo de falar foram convertidos em sinais de incapacidade e perigo. Representado como “feio”, “baixinho”, despreparado e ameaçador, ele rompia com a imagem socialmente aceita de quem estaria autorizado a governar o Brasil.
Fernando Collor oferecia a figura oposta: jovem, rico, bem-apresentado e diplomado, encarnava o filho idealizado por amplos setores da classe média. Sua origem numa família tradicional de políticos e empresários de comunicação aparecia como credencial, não como privilégio.
Em 1994, Fernando Henrique Cardoso reunia prestígio acadêmico, circulação internacional e pertencimento às elites intelectuais paulista e fluminense. Collor e FHC eram adversários muito diferentes, mas ambos correspondiam, cada qual à sua maneira, à figura do governante reconhecível pelas classes dominantes. Lula parecia invadir um espaço reservado a elas.
A desqualificação de Lula por sua origem social não explica sozinha as derrotas de 1989 e 1994. Conjuntura econômica, alianças, programas, campanhas, meios de comunicação e, em 1994, o Plano Real foram decisivos. Mas o contraste permitiu apresentar hierarquias sociais como diferenças naturais de preparo, competência e respeitabilidade.
A vitória de 2002 não eliminou essa rejeição. No mensalão, em 2005, crimes e práticas reais passaram a sustentar uma condenação mais abrangente: a corrupção deixou de ser apresentada como problema do sistema político e tornou-se, no discurso antipetista, característica essencial do PT, de Lula e até dos grupos sociais que haviam chegado ao governo com eles.
Durante o governo Dilma, as manifestações de 2013, a eleição apertada de 2014, a recessão, a Lava Jato e a campanha pelo impeachment transformaram aquela rejeição em identidade política de massas. Interesses econômicos, conservadorismo moral, ressentimento e hostilidade à ascensão dos pobres passaram a falar a mesma linguagem.
Acusações contra o PT foram generalizadas como prova de uma natureza criminosa, enquanto denúncias envolvendo forças conservadoras e, mais tarde, a família Bolsonaro foram relativizadas. O combate à corrupção tornou-se, assim, linguagem moral de uma oposição que possuía também conteúdo social e econômico.
Quando o pobre deixa de ser apenas pobre
O problema não é propriamente combater a pobreza. Campanhas de caridade, doações e ações assistenciais são aceitas e até valorizadas pelo empresariado. A resistência cresce quando o pobre se transforma em cidadão com renda, direitos e capacidade de recusar condições degradantes.
A valorização do salário mínimo, a formalização do trabalho doméstico, as cotas, a expansão universitária e as transferências de renda alteram, mesmo moderadamente, as relações sociais. O trabalhador que encontra outras oportunidades pode exigir melhor salário. A empregada doméstica passa a ter direitos. O jovem pobre disputa a universidade e, depois, vaga no mercado de trabalho. O aumento do consumo popular pressiona preços e modifica prioridades.
É nesse sentido que se pode dizer, ironicamente, que para uma parcela das elites o problema do Brasil são os pobres e os trabalhadores — sobretudo quando melhoram de vida e conquistam poder de negociação.
O fim da escala 6×1 tornou o conflito explícito. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostrou que 73% das indústrias rejeitam a redução legal da jornada para 40 horas e 57% são contrárias ao fim da escala. As empresas preveem aumento de custos e perda de competitividade. Para os trabalhadores, porém, a mudança significa descanso, saúde, convivência familiar e participação nos ganhos de produtividade.
O temor a Lula nasce também do que ele simboliza: a presença organizada do trabalho na política. Mesmo quando governa por meio da conciliação, sua trajetória recorda que salários, jornadas e direitos não são definidos exclusivamente pelos proprietários.
A austeridade escolhe quem deve pagar
As razões declaradas pela oposição empresarial são conhecidas: crescimento da dívida, aumento de impostos, excesso de gastos, juros altos e insegurança jurídica. Os problemas existem e precisam ser enfrentados. Mas o discurso patronal seleciona causas e soluções.
Responsabilidade fiscal quase sempre aparece como contenção das políticas sociais, da Previdência, dos salários públicos e dos investimentos estatais. Raramente começa pela tributação de dividendos, patrimônio e heranças; pela revisão de subsídios empresariais; pelas renúncias fiscais; ou pelos juros pagos aos detentores da dívida.
A contradição fica evidente quando os mesmos setores que exigem austeridade reivindicam crédito subsidiado, seguro rural, proteção comercial, garantias para concessões, infraestrutura pública e benefícios tributários.
Essas demandas podem ser legítimas. O que elas demonstram é que o conflito não opõe Estado e mercado. O empresariado não deseja necessariamente um Estado menor, mas um Estado seletivo: forte para proteger contratos, financiar negócios e garantir a rentabilidade; limitado quando se trata de redistribuir renda, prestar serviços universais ou fortalecer trabalhadores.
Por que Flávio parece aceitável
Flávio não precisa demonstrar maior compromisso com o desenvolvimento nacional. Basta oferecer sinais de que reduzirá impostos sobre o capital, enfraquecerá regulações, conterá direitos trabalhistas, privatizará empresas públicas e abrirá novos espaços à exploração privada.
Para o empresariado associado ao bolsonarismo, seu alinhamento com Donald Trump não constitui necessariamente um problema. A submissão internacional pode ser tolerada quando preserva interesses econômicos. A instabilidade democrática também pode parecer administrável se o governo mantiver a propriedade, reprimir movimentos sociais e limitar a capacidade de organização dos trabalhadores.
Até a corrupção é relativizada. Acusações contra o PT são apresentadas como prova de uma natureza irremediavelmente criminosa. Já as rachadinhas, as relações da família Bolsonaro com milicianos e os vínculos de Flávio com Vorcaro são tratados como questões secundárias, controvérsias judiciais ou obstáculos eleitorais superáveis.
Não se trata de afirmar que todos os empresários que conversam com Flávio apoiam suas práticas ou sua história. Grandes empresas procuram manter canais com todos os candidatos competitivos. Também há empresários democratas, desenvolvimentistas e apoiadores de Lula. Outros preferem uma candidatura de centro e veem riscos tanto em Lula quanto em Flávio.
O fato politicamente relevante é outro: uma parcela do capital estabelece uma hierarquia na qual a democracia, a soberania e a integridade pública podem valer menos do que a promessa de preservar privilégios econômicos e reduzir o poder do trabalho.
O medo tem conteúdo material
Lula não ameaça abolir o capitalismo brasileiro. Seus três governos demonstram o contrário. O que ele ameaça, ainda que de maneira limitada e negociada, é a pretensão de determinados grupos de decidir sozinhos como a riqueza será distribuída e para onde serão direcionados os recursos do Estado.
O medo empresarial é ideológico, mas não é imaginário. Ele possui conteúdo material. Salários maiores reduzem margens de lucro quando não são acompanhados por investimentos que visem aumento de produtividade. Direitos trabalhistas limitam o poder do empregador. Impostos progressivos alcançam patrimônios e rendas elevadas. Empresas públicas restringem oportunidades de apropriação privada. Políticas sociais disputam espaço no orçamento com juros, subsídios e benefícios fiscais.
Essa é a chave do aparente paradoxo. Para parte do empresariado, Lula representa um risco distributivo; Flávio, apesar de todos os seus riscos, representa uma oportunidade econômica e política.
A verdadeira pergunta da eleição não é por que empresários discordam de Lula. Em uma democracia, a divergência é legítima. A pergunta é por que a defesa de seus interesses econômicos permite a alguns relativizar ameaças à democracia, à soberania e à própria legalidade.
Na próxima matéria da série: como a dependência de commodities, o rentismo e o baixo investimento privado em tecnologia produziram uma burguesia que parece ter desistido de construir o futuro do país.
Nota de transparência editorial: A ideia desta série surgiu durante conversas com Antônio Humberto César, Pablo César e Yuriê Baptista César e foi aprofundada nos diálogos com Maria da Graça Pinto Bulhões. A base de conhecimentos que orienta a análise foi construída a partir das aulas e dos debates com o professor Francisco de Oliveira, orientador de doutorado do autor e de quem se tornou querido amigo. A pesquisa documental e a organização dos dados contaram com o apoio de inteligência artificial, sob supervisão e responsabilidade editorial do autor.
Fonte: Brasil 247