Por que não quero falar de política neste pleito?
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Democracia
Luiz Held
14/9/2026 16:20
Exerço o meu direito de me afastar das discussões sobre política e eleições neste momento. Amigos, colegas e familiares têm me questionado sobre essa atitude. É uma dúvida justa. Em todos os pleitos anteriores, eu sempre estive na linha de frente: defendendo ideias, debatendo projetos de governo, cobrando posições e me engajando ativamente.
Para ser bem sincero, sinto que uma parte de mim ainda ficou presa em 2023. O candidato em quem votei perdeu e, para além do resultado em si, fixou-se em mim um desassossego amargo. Ver os acontecimentos de 8 de janeiro e a imagem de uma multidão detida em um ginásio me trouxe a nítida sensação de que algo profundo havia se quebrado na nossa convivência. Vivíamos ali uma anomalia.
O que veio a seguir me deixou ainda mais atordoado. Entramos em uma espiral de notícias contraditórias, artigos sem fontes confiáveis e uma polarização sufocante. Vi o país se fragmentar em brigas diárias: trabalhadores contra empregadores, ricos contra pobres, homens contra mulheres, direita contra esquerda. A mídia, longe de esclarecer, gerava mais ruído e incerteza.
Hoje, olho para o tabuleiro atual e simplesmente não me vejo representado. De um lado, figuram escândalos recorrentes de superfaturamento, desvio de verbas, crimes contra a coisa pública e a constante sensação de impunidade; do outro, prisões, restrições e um clima permanente de revanchismo. Seja por Bolsonaro, por Lula ou por qualquer outro nome da disputa, esse modelo de fazer política não fala mais à minha consciência.
Quem acompanha o que penso e escrevo sabe que jamais fui um espectador passivo. Sempre defendi a ordem democrática, a preservação das garantias fundamentais e a força transformadora da educação. Não estou rasgando essa trajetória, nem me tornando apático. Jamais abandonaria a liberdade ou o sistema democrático por conta de percalços, frustrações ou dificuldades conjunturais.
O que percebi é que a democracia, quando reduzida a um jogo brutal de aparências e disputas pelo poder a qualquer custo, perde o seu bem mais precioso: o fator humano.
A minha busca não mudou de essência, ela apenas se aprofundou. Continuo acreditando na democracia como o único caminho viável, mas compreendi que uma estrutura jurídica ou institucional sólida é estéril se não for sustentada por uma sociedade empática.
De nada adianta defender a democracia no papel se ela não for acompanhada pelo cuidado com o outro no cotidiano. Uma democracia real e madura precisa ser, acima de tudo, empática. Um espaço onde o bem-estar do próximo seja um dever compartilhado, e onde a dor e o sofrimento alheios sejam encarados como algo a se combater por todos nós.
A educação emancipadora pela qual sempre torci não serve apenas para qualificar mão de obra ou gerar índices; serve para formar cidadãos éticos, que não admitam a corrupção em nível algum, seja na política, na sociedade ou dentro de nossas próprias casas.
Não se trata de uma desistência do Brasil, nem da negação da política com “P” maiúsculo. Trata-se da recusa em ser conivente com este espetáculo apequenado. Até que a nossa mentalidade coletiva amadureça e compreenda que a ética e a empatia devem preceder a disputa pelo poder, guardo minhas energias para construir essa transformação de forma consciente.
Por tudo isso, deste pleito específico, eu me retiro. Estou fora.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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Fonte: Congresso em Foco