Por que a extrema direita venceu no estado alemão da Saxônia? Analistam apontam decepção com política do país
Por O Estrangeiro — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Por décadas, a cena política da Alemanha rechaçou a mera ideia de que qualquer sigla de extrema direita pudesse governar um estado da complexa federação alemã. Tanto na Alemanha dividida, que prevaleceu do pós-Segunda Guerra Mundial até a queda do Muro de Berlim, quanto na Alemanha unificada, construída do início dos anos 1990 para cá, o tema mexia e segue mexendo com feridas históricas da sociedade alemã, que vê no nazismo do século passado algo além do limite humanitário, que não deve ser ultrapassado.
O que era uma ideia dentro do métier alemão ganhou forma e força, e o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), uma sigla criada há pouco mais de dez anos e habitualmente entendida pela inteligência do Estado alemão como um grupo perigoso de extrema direita, foi o principal vencedor nas eleições regionais no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, no último final de semana.
A sigla obteve 44% dos votos, o que a põe como principal força do parlamento estadual, responsável por escolher o próximo nome que irá governar o estado. Para obter maioria, terá que enfrentar uma resistência mais que explícita de praticamente todas as forças políticas da Alemanha: uma espécie de “cordão sanitário”, costurado por partidos que vão da esquerda à direita, e que é usado como forma de isolar ao máximo a AfD. Nada de acordos ou apoios, por exemplo.
Entretanto, é justamente em Saxônia-Anhalt que vigora uma aparente contradição: a sigla mais à esquerda do parlamento, conhecida como Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW), já sinalizou que pode viabilizar as pretensões da AfD, abstendo-se de votar na escolha (feita por maioria simples) do próximo governo. Até o momento, a AfD venceu 39 das 83 cadeiras do Legislativo local. Com uma eventual abstenção da BSW, os votos dos parlamentares da extrema direita seriam suficientes para escolher o novo governo. Quem se apresentou como o nome mais forte ao cargo foi o candidato Ultich Siegmund, da AfD.
O que levou um antigo estado da Alemanha Oriental a escolher, neste momento histórico, uma sigla da direita mais radical a governá-lo? A resposta não é simples, como nada é exatamente simples em um país marcado pela unificação tardia (consolidada somente em 1871, sob liderança de Otto von Bismarck), pela dolorosa derrota na Primeira Guerra Mundial, pela ascensão e queda do nazismo, pela capacidade de reconstrução e por inúmeras divisões internas. O tema, aliás, foi pauta do mais recente episódio do podcast O Estrangeiro, disponível nos canais do Brasil de Fato. Confira o videocast completo:
Para o jornalista e historiador Rafael Targino, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o processo histórico resultante da mais recente unificação ajuda a explicar a vitória da AfD. “O processo de reestruturação da Alemanha, com a queda do Muro, criou uma região que foi efetivamente incorporada. Vivia-se em um sistema que provia emprego, moradia, educação e saúde. Um sistema fechado e que sofria críticas, mas que dava garantias à população. E aí houve a reunificação com o capitalismo. Isso altera a dinâmica das vidas das pessoas”, contextualiza, em conversa com o Brasil de Fato.
Targino ressalta que atribuir a vitória da AfD somente a raízes históricas seria simplório, sendo necessário entender a dinâmica atual. “O partido tem conseguido capturar um descontentamento que, hoje, é muito forte na Alemanha e, em alguma medida, no resto do mundo. É um descontentamento com o próprio sistema político. O nome da sigla é sugestivo: alternativa para a Alemanha. Esse caldeirão começa a fazer uma sopa quando se tem um princípio de desaceleração econômica na Alemanha, a questão da guerra na Ucrânia e o aumento dos custos de vida. Então, o que era um partido que, no começo, tinha foco muito grande na migração, hoje é um partido que diz apresentar uma alternativa ao sistema político-econômico”, pondera o historiador.
Não é de agora que a Alemanha, conhecida pela indústria vigorosa, enfrenta problemas econômicos. Em 2025, seu Produto Interno Bruto (PIB) não avançou mais do que 0,2%, após cair 0,5% em 2024 e 0,9% em 2023, respectivamente. Nem o tímido crescimento do ano passado pode ser tão comemorado na principal economia da Europa: no último mês de julho, as exportações do país caíram pela primeira vez em cinco meses, indicando que a recuperação econômica pode perder fôlego.
Como resultado de tamanha crise, não são poucas as empresas que passaram a decretar falência ou fechar fábricas de pontos de comércio, piorando o quadro de empregos. Segundo dados do Instituto Leibniz de Pesquisa Econômica de Halle (IWN), a taxa de insolvência entre sociedades de pessoas e sociedades de capital no país em junho foi 80% maior do que a média registrada em junho entre 2016 e 2019, no período imediatamente anterior à pandemia de Covid-19.
No país europeu, essas duas categorias de empresas são responsáveis por cerca de 90% dos empregos afetados por insolvências e por quase todo o crédito envolvido em processos dessa natureza. O mesmo instituto mostrou que o número de insolvências por lá, em 2025, foi o mais alto das últimas duas décadas, totalizando 17,6 mil casos. Só no setor industrial, 11 mil empresas encerraram as atividades no ano passado.
Cenários de crise como esse costumam afetar as populações dos estados do leste alemão. A reunificação, grosso modo, fez com que parte importante da população da região acabasse se mudando para o oeste. Muito embora os estados da antiga República Democrática Alemã representem pouco mais de um terço do atual território do país, a população do leste não passa de 15%. Por lá, o alastramento do modelo econômico liberal não suplantou as desigualdades sociais. Privatizações generalizadas emperraram as promessas feitas no início dos anos 1990, e aquilo que a conformação liberal do período prometeu esteve longe de ser cumprido.
“A particularidade na região da antiga RDA está no fato de que justamente esta minha geração, com o passado da RDA, e seus filhos foram os primeiros a experimentar como foram atraídos para o sistema capitalista por meio de falsas promessas”, diz ao Brasil de Fato o analista político alemão Carsten Hanke, ex-membro do partido Die Linke (A Esquerda) e observador político independente. Nascido nos anos 1960 em Rostock, Hanke destaca que o direito à educação e atendimento médico gratuitos era uma marca da outrora Alemanha comunista, e que o país transitava entre os dez mais industrializados do mundo, apesar das sanções ocidentais.
A sigla criada por Sahra Wagenknecht, ex-membra do Parlamento Europeu, foi resultado da insatisfação da própria Sahra com a sigla A Esquerda (Die Linke), fundada em 2007 pela fusão do Partido Socialismo Democrático (PDS) e da Alternativa Eleitoral para o Trabalho e Justiça Social (WASG). Desde então, a BSW vem defendendo não apenas a necessidade de proteção social e de maior presença do Estado alemão na economia do país, mas críticas às políticas migratórias e às pautas identitárias. A BSW, assim como a AfD, demanda que o país deixe de enviar recursos para a Ucrânia na guerra com a Rússia.
Para o caso da eleição em Saxônia-Anhalt, a BSW começou defendendo que a melhor solução seria a composição de um governo “suprapartidário”, que seria capaz de dialogar com as diferentes siglas. Diante da impossibilidade da proposta, a sigla admitiu que deve se abster na escolha do novo chefe de governo, abrindo espaço para a chegada definitiva da AfD ao poder.
“Ao se abster na votação para o presidente do governo estadual em relação à AfD, o BSW se torna culpado pelo fortalecimento do fascismo”, sintetiza Carsen Hanke. O analista problematiza o cordão sanitário erguido contra a AfD, reconhecendo a gravidade da ascensão da extrema direita no país, mas apontando que é necessário compreender o que tem levado parte da sociedade alemã a aderir às pautas da sigla, para que seja possível.
“O erro está simplesmente no fato de que não se faz política para seus eleitores e, ao erguer um ‘cordão sanitário’, elimina-se a própria oportunidade de reconquistar essas pessoas decepcionadas por meio de conversas e atividades conjuntas. Nem todos os eleitores da AfD são de extrema direita ou sequer fascistas; pelo contrário, são cidadãos que estão irritados com o sistema e com a forma como essa política é conduzida. Por sua vez, o BSW reconheceu isso e, por essa razão, é marginalizado pelos outros partidos. O correto seria encontrar, juntamente com o BSW, um caminho para realizar uma política em benefício das pessoas comuns”, pondera Hanke.
Um dos dilemas da sociedade alemã reside no fato de que a AfD tem sido capaz de captar eleitores que votavam na direita e também em siglas de esquerda. De acordo com um levantamento feito pela Infratest Dimap, 67% dos eleitores afirmaram que a AfD teria compreendido melhor que os demais partidos o fato de que a população em Saxônia-Anhalt já não se sentiria segura. Junto a isso, mais de 50% do eleitorado também acha que a AfD estaria mais próxima das preocupações da população do que outros partidos políticos alemães. A preferência é ainda maior entre os mais jovens, que raramente apontam os democratas-cristãos ou os social-democratas (duas das siglas que compuseram o establishment da política alemã dos últimos anos) como capazes de dar respostas satisfatórias aos desafios para o futuro do país.
Para a esquerda alemã, segundo Hanke, falta uma força política forte e unida, “que defenda os direitos da classe trabalhadora, dos socialmente vulneráveis e das pessoas desfavorecidas, e que também mantenha o internacionalismo tão necessário entre todos os movimentos progressistas”.
Para o futuro, restará saber se a vitória do último final de semana levará a AfD a voos ainda mais altos, e como a sociedade alemã poderá se organizar de modo a evitar a repetição da História. Ao comentar o resultado das urnas, o chanceler Friedrich Merz se disse “profundamente chocado” e acusou a AfD de promover “limpeza étnica”.
Para Rafael Targino, é improvável que os partidos com maior musculatura política passem a cooperar com a AfD. Ainda assim, segundo o historiador, o resultado do último final de semana pode ter sido “um aperitivo do que pode acontecer daqui em diante”.
Os recados à Europa, como um todo, também foram dados. O premiê espanhol, Pedro Sánchez, definiu o resultado como “um alerta de que a ameaça da extrema direita, graças em parte à rendição da direita tradicional, está ganhando terreno na Europa e no mundo”. Enquanto isso, países como a própria Espanha, além da Itália e da França, estão se preparando para eleições em 2027. Na França, a sigla de extrema direita Reunião Nacional (RN), capitaneada por Marine Le Pen, aparece como favorita para as eleições presidenciais de abril do ano que vem. De nanico político à principal ameaça à institucionalidade democrática alemã, a AfD, misturando passado e presente, pode ter deslocado o eixo político europeu.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato