Ponte Preta: quando a crise financeira chega ao campo

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Por NINJA Esporte ClubeMídia NINJA

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Greve, dívidas e rebaixamentos: por que a Ponte Preta chegou no limite aos 126 anos

Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa

No dia 30 de agosto, a Ponte Preta entrou em campo em Belo Horizonte sem boa parte dos jogadores que deveriam estar ali. Não houve lesão coletiva, suspensão em massa ou uma decisão tática particularmente ousada. Os atletas profissionais estavam em greve por salários atrasados.

Para evitar o W.O., a Ponte precisou recorrer às categorias de base. Dezesseis jogadores foram relacionados para enfrentar o América-MG pela 25ª rodada da Série B. O time resistiu durante o primeiro tempo, mas perdeu por 2 a 0. O resultado manteve o clube na última posição, com apenas 10 pontos em 25 partidas e 19 jogos sem vencer na competição.

A cena resume uma temporada que transformou problemas administrativos em problemas esportivos. Em menos de um ano, a Ponte Preta passou de campeã da Série C a rebaixada no Campeonato Paulista, lanterna da Série B, impedida de registrar jogadores e com o elenco profissional paralisado.

A crise, porém, não começou quando os jogadores deixaram de treinar.

Em 11 de agosto, quando completou 126 anos, a própria Ponte reconheceu em uma carta oficial que atravessava “um momento delicado”. O clube lembrou que sua crise financeira havia se agravado depois do rebaixamento de 2017 e afirmou que os últimos anos foram marcados por um processo de reorganização.

Poucas semanas depois, a dimensão do problema ganhou números. Uma auditoria financeira utilizada nas negociações para a criação de uma SAF estimou a dívida da Ponte em aproximadamente R$ 320 milhões. O cálculo ainda não incluía cerca de R$ 20 milhões referentes ao IPTU. Segundo o mesmo levantamento, entre 25% e 30% do passivo teria origem tributária.

O problema não está apenas no tamanho da dívida acumulada, mas na capacidade de gerar dinheiro para pagá-la. A auditoria estima que o custo operacional do clube esteja próximo de R$ 4 milhões por mês, enquanto a arrecadação gira em torno de R$ 1,2 milhão. A diferença representa um déficit operacional de aproximadamente R$ 2,8 milhões mensais, ou R$ 33,6 milhões ao ano.

O número se aproxima do que já havia aparecido no balanço oficial de 2025. O documento publicado pela Ponte e aprovado pelo Conselho Deliberativo registrou déficit de aproximadamente R$ 33,6 milhões naquele exercício. É uma diferença difícil de sustentar: o clube precisa pagar suas contas enquanto gasta muito mais do que consegue arrecadar.

E futebol não costuma aceitar déficit como resultado esportivo. Em algum momento, a conta chega ao campo.

Os efeitos aparecem na composição do elenco. A Ponte sofreu dois transfer bans da FIFA em 2026, além de um pela CNRD, órgão ligado à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ficou, então, impedida de registrar novos jogadores enquanto os débitos responsáveis pelas punições não fossem quitados. A restrição já havia afetado o clube no início da temporada e voltou a aparecer durante a Série B.

A consequência é simples: um clube que precisa reforçar o elenco não pode registrar reforços. Ao mesmo tempo, jogadores deixaram a equipe em meio à crise financeira. O elenco foi ficando mais enxuto, enquanto a base ganhou espaço não necessariamente porque o planejamento esportivo decidiu antecipar uma geração, mas porque a alternativa chegou a ser evitar uma derrota por W.O.

O problema financeiro, portanto, deixou de ser apenas administrativo. Virou elenco, escalação e, antes de tudo, resultado. No Campeonato Paulista, a Ponte terminou na última colocação da primeira fase, com apenas um ponto, e foi rebaixada. Na Série B, chegou ao fim de agosto na lanterna, novamente ameaçada pelo rebaixamento.

É o tipo de círculo vicioso que transforma uma crise financeira em uma crise esportiva — e uma crise esportiva em uma crise financeira ainda maior. Menos competitividade pode significar menos resultados, menos exposição e menos capacidade de arrecadação. E um clube que já não consegue fechar as contas passa a depender ainda mais de uma mudança que altere sua estrutura financeira.

No caso da Ponte, essa mudança tem nome: SAF. 

Em julho, a diretoria anunciou que havia avançado nas negociações para transformar a Ponte em Sociedade Anônima do Futebol. A proposta apresentada por um grupo de investidores gira em torno de R$ 1,1 bilhão, segundo comunicado oficial do clube. O número, porém, precisa ser entendido com cuidado.

Não se trata de R$ 1,1 bilhão que já esteja disponível nos cofres da Ponte. Trata-se do valor em torno do qual foi estruturada a proposta de SAF, ainda dependente das etapas de aprovação previstas pelo clube. A auditoria que embasou a operação detalhou uma divisão dos recursos: R$ 300 milhões para o pagamento de dívidas, outros R$ 300 milhões para o futebol profissional e as categorias de base ao longo de dez anos e R$ 400 milhões para a modernização do Estádio Moisés Lucarelli e do Centro de Treinamento. A minuta ainda previa um aporte inicial de R$ 10 milhões, condicionado ao cumprimento de exigências jurídicas e financeiras.

Em teoria, a operação atacaria os dois lados do problema: o passado, por meio do pagamento das dívidas, e o futuro, com investimentos no futebol e na estrutura. Mas existe um detalhe inconveniente: a solução ainda não foi aprovada.

A Assembleia Geral Extraordinária convocada para 24 de agosto deveria deliberar sobre a constituição da SAF. A reunião, entretanto, terminou sem votação depois que duas decisões liminares da Justiça chegaram antes mesmo da abertura formal da sessão. 

O episódio expôs uma divisão que ultrapassa o campo esportivo. Integrantes da diretoria e da oposição protagonizaram discussões durante a reunião, enquanto torcedores presentes pediam a renúncia da direção. Uma nova reunião precisa ser convocada pelo Conselho Deliberativo.

O problema é que a Ponte não está discutindo uma SAF em um cenário de tranquilidade.

Está fazendo isso enquanto jogadores acumulam meses de salários atrasados, o clube enfrenta punições que impedem registros, o time está na zona de rebaixamento e a própria operação financeira que pretende reorganizar o clube permanece pendente de aprovação. A urgência, portanto, não é apenas política: é financeira.

A situação também não surgiu de uma única temporada. Em 2023, quando a Ponte já discutia a possibilidade de recuperação judicial, o clube acumulava uma dívida estimada em aproximadamente R$ 250 milhões. Naquele momento, o Estádio Moisés Lucarelli havia sido penhorado pela Justiça como garantia em processos movidos pelo ex-presidente Sérgio Carnielli, que cobrava aproximadamente R$ 85 milhões por empréstimos feitos ao clube entre 2012 e 2021.

O balanço de 2020, por sua vez, registrava uma dívida de R$ 111,2 milhões com Carnielli, entre pessoa física e jurídica. Os valores diferentes refletem momentos e documentos distintos, e não devem ser simplesmente somados. O episódio é um retrato de um problema maior: parte da crise atual é resultado de obrigações acumuladas durante diferentes administrações.

A auditoria de 2026 apenas coloca uma nova fotografia sobre um problema antigo.

No comunicado que anunciou a greve, os jogadores afirmaram que os atrasos salariais e de direitos de imagem chegavam, em alguns casos, a seis meses. O grupo citou o artigo 90, §5º, da Lei Geral do Esporte para justificar a decisão de suspender as atividades diante de salários atrasados por dois meses ou mais.

Não é mais possível separar a crise financeira da rotina do clube. O atraso chega ao vestiário. O transfer ban chega ao departamento de futebol. A dívida chega à Justiça. A falta de receita chega ao elenco. E o desempenho ruim volta para a tabela. Em agosto de 2026, a Ponte Preta está presa nesse circuito.

Há uma proposta de SAF que pode injetar recursos, reorganizar dívidas e modernizar sua estrutura. Há também uma dívida de centenas de milhões de reais, um déficit anual superior a R$ 30 milhões, jogadores sem receber e uma operação que sequer conseguiu chegar à votação.

A questão, portanto, não é apenas se a Ponte vai conseguir escapar do rebaixamento. É se a solução encontrada para o passado será suficiente para impedir que o clube continue produzindo novas dívidas no futuro.

A Ponte tem 126 anos. Já atravessou perdas patrimoniais, períodos fora da elite e outras crises. A própria história do clube é marcada pela capacidade de sobreviver a momentos em que parecia mais fácil desaparecer.

Agora, porém, a sobrevivência passa por uma conta simples e difícil de ignorar: quanto custa continuar sendo a Ponte Preta?

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Fonte: Mídia NINJA

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