PF vê esquema criminoso em desvio de emendas de Mario Frias e cita Dark Horse
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A Polícia Federal aponta que emendas parlamentares do deputado federal Mario Frias (PL-SP) podem ter abastecido um esquema de desvio de recursos públicos envolvendo projetos esportivos e de letramento digital, empresas ligadas a aliados do parlamentar, advogados, ex-secretários e uma produtora associada ao filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). As informações foram reveladas pela Folha de São Paulo.
Segundo documento da PF citado pelo jornal, R$ 2 milhões em emendas destinadas aos projetos “Lutando pela Vida” e “Jovem Empreendedor” podem ter sido desviados por meio de repasses feitos pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que recebeu os recursos, a empresas conectadas a pessoas próximas ao deputado.
A investigação apura suspeitas de crimes como peculato, fraude e lavagem de dinheiro. O relatório policial também menciona que o suposto esquema pode ter relação com gastos de cota parlamentar, doações de campanha e transferências que chegaram à Go Up, produtora que recebeu recursos de Daniel Vorcaro a pedido do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) para a realização do filme “Dark Horse”.
Tanto a Go Up quanto o ICB são ligados à empresária Karina Gama, investigada pela PF. Empresas associadas a ela também receberam verbas de outros parlamentares e de órgãos públicos, como a Prefeitura de São Paulo. Karina nega irregularidades e afirmou que “investigação não é acusação, muito menos condenação”.
Mario Frias, que tenta a reeleição, também nega qualquer irregularidade no exercício do mandato. O deputado classificou a operação de busca e apreensão realizada contra ele em 10 de setembro como “cortina de fumaça” no contexto das eleições de 2026.
Um dos pontos centrais da apuração envolve pagamentos feitos pelo ICB a advogados ligados ao parlamentar. Segundo a PF, Fábio Lago Meirelles, um dos advogados de Frias, é titular da LF&P Consulting, empresa que recebeu R$ 80 mil do instituto no âmbito do projeto “Jovem Empreendedor”, por meio de contratos de serviços contábeis e jurídicos.
A assinatura de Meirelles também aparece no Estatuto Social do ICB, e a LF&P funcionava no mesmo edifício do instituto. Ainda de acordo com a investigação, o advogado recebeu R$ 69 mil entre outubro de 2024 e abril de 2026 da Complexsys, empresa que movimentou valores milionários relacionados ao ICB.
Outro advogado de Frias, Diego Aguilera Martinez, também é citado no documento. A Aguilera Martinez Sociedade de Advocacia recebeu R$ 151.427,13 do ICB em um único pagamento. À Folha, Martinez afirmou que os serviços foram efetivamente prestados e negou irregularidades.
“Me sinto indignado por estar nessa situação, pois os trabalhos foram efetivamente prestados e não há nada além disso”, disse. “Não se pode confundir a pessoa do investigado com os seus advogados, porque isso é criminalizar a advocacia. Temos certeza que tudo será esclarecido e no final a verdade prevalecerá”.
A PF também aponta conexões envolvendo ex-secretários parlamentares de Frias e familiares. Raphael Augusto Azevedo, ex-secretário do deputado, foi um dos alvos de busca e apreensão. O irmão dele, Kayo Henrique Azevedo, aparece como responsável técnico do projeto “Jovem Empreendedor” após pedido do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação por documentação adicional sobre a viabilidade operacional da proposta.
Kayo afirmou à Folha que não tinha “ciência do projeto que está no inquérito” e disse não ter acesso aos documentos do processo. “A gente não tem acesso ao documento que mostra que sou eu que estou nesse projeto e nem o porquê da busca [e apreensão] na minha casa”, declarou.
A ex-companheira de Kayo, Gardenia Morais, também foi secretária parlamentar de Frias. Em maio, ela confirmou ao G1 ter repassado parte do salário a Raphael Azevedo, prática conhecida como rachadinha. A Folha também identificou o pagamento de despesas de familiares de Frias no suposto esquema.
Outra ex-secretária mencionada é Paula de Oliveira Lima, que trabalhou no gabinete do deputado entre fevereiro e abril de 2024. Dois dias após sua exoneração, ela abriu a Agência Loop, empresa que apresentou ao ICB uma proposta comercial de R$ 311 mil para o projeto “Jovem Empreendedor”.
A investigação também menciona doações de campanha e contratações associadas ao ICB. Em 2022, Frias recebeu R$ 70 mil de Luiza Tessari Rocha Dias, casada com Heric Dias, sócio-administrador da NTT. A doação foi a terceira maior recebida pelo deputado naquela eleição.
Rudyge Boldrini, por sua vez, doou R$ 4 mil à campanha de Frias em 2022 e também atuou como prestador de serviços, recebendo R$ 7.500 entre agosto e outubro daquele ano. Depois, foi eleito conselheiro fiscal do ICB para mandato de janeiro de 2024 a janeiro de 2032, mas renunciou em novembro de 2024.
Boldrini foi contratado pelo instituto no projeto “Lutando pela Vida”, cuja execução não foi integralmente comprovada, segundo a Controladoria-Geral da União. De acordo com as autoridades, ele abriu um MEI poucos dias antes da contratação pelo ICB, “com possível assinatura retroativa do respectivo contrato”. O contrato previa R$ 105 mil por serviços de coordenação técnica e organizacional de atividades de jiu-jitsu.
A PF também identificou movimentações envolvendo empresas contratadas com recursos de cota parlamentar. A GTrend, cujo sócio-administrador era Wemerson Marinho, ex-marido de Karina Gama, recebeu R$ 115,6 mil entre abril de 2023 e agosto de 2024 por serviços prestados ao gabinete de Frias.
À Folha, Marinho afirmou que seus advogados buscam acesso integral aos autos e que não comentaria o mérito de alegações ainda em apuração. “Prestarei todos os esclarecimentos pertinentes pelos canais adequados, no momento oportuno”, disse.
A Complexsys, do empresário Andre Feldman, recebeu ao menos R$ 154 mil de Frias entre setembro de 2024 e abril de 2026, também com recursos de cota parlamentar. A empresa aparece em diferentes pontos da investigação como destinatária ou remetente de valores ligados a pessoas e empresas associadas à suposta organização criminosa.
Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, a Complexsys movimentou mais de R$ 18 milhões. Nesse período, recebeu R$ 5 milhões do ICB e R$ 92,4 mil de Frias. Também enviou recursos à ANC, a Feldman, ao advogado Fábio Meirelles, ao próprio ICB e a Karina Gama.
A movimentação continuou nos meses seguintes. Entre outubro e dezembro de 2025, a empresa movimentou mais de R$ 10 milhões, incluindo mais de R$ 3 milhões recebidos do ICB. De 29 de dezembro de 2025 a abril de 2026, foram mais de R$ 8 milhões movimentados, com novos repasses do ICB, de Feldman, de Frias e de outra empresa do grupo Complexsys.
Por meio de sua assessoria, a Complexsys afirmou refutar “todas as imputações sobre a empresa” e disse que responderá nos autos do processo. A companhia também declarou que o contrato com o gabinete de Frias “está de acordo com todas as exigências legais” e que segue “à disposição das autoridades para todos os esclarecimentos que se fizerem necessários”.
Outro ponto relevante da apuração envolve transferências para a Go Up, produtora de “Dark Horse”. Segundo a PF, Frias enviou R$ 645 mil à empresa, valor considerado incompatível com o salário parlamentar de R$ 44 mil.
A Go Up também recebeu R$ 750 mil da NTT, empresa de Heric Dias. Ele é vinculado a duas empresas, a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional, que receberam R$ 700 mil de emendas parlamentares de Frias destinadas ao ICB no projeto “Jovem Empreendedor”.
Pamella Cristiane Dias, irmã de Heric, é sócia do Instituto Super Poder Educacional Ltda., conhecido como Super Leitores, e autora de livros fornecidos ao mesmo projeto. A PF ainda aponta que a Go Up recebeu R$ 2.614.000 entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025 da Conhecer Brasil Assessoria Produção e MKT Cultural, a GO 7, também ligada a Karina Gama.
A GO 7, por sua vez, recebeu R$ 1 milhão do ICB entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. A empresa também recebeu R$ 54 mil em gastos da campanha de Frias em 2022.
Fonte: Brasil 247