Flávio Bolsonaro explora crises e esconde propostas econômicas na campanha
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – A menos de dez dias do primeiro turno das eleições, a equipe do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) decidiu reter o detalhamento de suas propostas econômicas para evitar eventuais desgastes com o eleitorado, optando por focar na exploração política da crise que atinge o Supremo Tribunal Federal (STF), segundo reportagem da Folha de São Paulo.
De acordo com o coordenador político da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), Flávio já tem o nome de um grupo para dar continuidade aos trabalhos em caso de vitória, mas afirma que é preciso “avaliar se é necessário que haja alguma antecipação” de nomes que integrariam a equipe econômica de um eventual governo.
Nas últimas semanas, a coordenadora-geral do plano de governo, Daniella Marques (PL), e outros integrantes do núcleo econômico defenderam um ajuste fiscal de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e a criação de um novo teto de gastos baseado na relação dívida/PIB. No entanto, os assessores não explicam como se chegaria a esse resultado, nem como o limite para as despesas funcionaria na prática. O plano limita-se a diretrizes gerais, como a promessa de uma nova regra fiscal e de um “tesouraço” em gastos e impostos.
Em entrevista ao programa C-Level, da Folha de São Paulo, Daniella Marques transferiu ao Poder Legislativo a responsabilidade de definir o detalhamento das medidas. “Quem vai fazer esse detalhamento vai ser o Congresso, é o que vai sair de lá e que vai definir. Eu não sou a Mãe Dináh. Não falaremos. A gente vai para o chão do Congresso trazer todo mundo para a mesa para cortar na carne, fazer autocontenção. Depois a gente vai discutir o que sobra”, disse a ex-presidente da Caixa Econômica Federal do governo Jair Bolsonaro (PL).
A estratégia de não aprofundar as propostas ocorre após o vazamento de medidas impopulares gerar prejuízos à candidatura no início do ano. Em abril, reportagens revelaram que o candidato considerava propostas para desvincular as despesas com saúde do mínimo constitucional de 15% da Receita Corrente Líquida (RCL) e as de educação dos atuais 18% da Receita Líquida de Impostos (RLI).
Além disso, esteve sob análise a desindexação da política de valorização do salário mínimo dos benefícios da Previdência Social. Com essa mudança, aposentados e pensionistas teriam o salário mensal reajustado apenas pela variação da inflação, sem a concessão de ganho real. Embora Flávio tenha vindo a público negar que as mudanças estivessem sendo avaliadas, Daniella não descartou adotá-las em entrevistas. A coordenadora também virou alvo de críticas de opositores após afirmar que o presidente da Argentina, Javier Milei, era um “ótimo exemplo” a ser seguido pelo Brasil, declaração usada por petistas para criticar a chapa nas redes sociais.
Reservadamente, integrantes da campanha afirmam que o noticiário dominado pelo escândalo do Banco Master e pela crise no STF proporcionou um momento favorável para Flávio e para seus candidatos ao Senado. Com isso, o foco atual é tentar transferir a rejeição do ministro Alexandre de Moraes ao presidente Lula (PT) e argumentar que o candidato do PL é o único capaz de reorganizar o Tribunal e resgatar a confiança nas instituições.
Rogério Marinho nega que a campanha esteja pedindo um “cheque em branco” ao eleitor ao adiar a apresentação de medidas específicas para depois do pleito.
Sobre desestatizações, o senador já declarou publicamente ser favorável à privatização de empresas estatais, mas evita citar quais seriam vendidas. De acordo com Daniella Marques, os Correios estariam fora desse plano.
Questionada sobre a falta de detalhamento, a campanha de Flávio declarou em nota que o candidato apresentou diretrizes para enfrentar o “caótico cenário” econômico decorrente da “gastança do governo petista” e que “o detalhamento de todas as ações será apresentado durante a transição, com a formação das equipes técnicas altamente capacitadas”. A assessoria afirmou ainda que Flávio responde livremente aos questionamentos em suas agendas e classificou a crise no STF como um “momento triste para a democracia”.
Diante desse cenário, a campanha do presidente Lula passou a explorar a viabilidade das promessas de Flávio, como o barateamento do preço dos alimentos, lançando na propaganda eleitoral o slogan “Falar é Flávio, fazer é Lula”. Em peças divulgadas nas redes sociais, a campanha petista destaca que o plano de governo do adversário possui 21 mil palavras, mas não apresenta menções concretas a temas como salário mínimo, o programa Pé-de-Meia ou o Minha Casa Minha Vida.
Fonte: Brasil 247