PF marca depoimentos de Galípolo, Campos Neto e André Esteves no caso Master

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Por Leonardo Lucena — Brasil 247

247 – A Polícia Federal marcou para a próxima semana os depoimentos do presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, do ex-dirigente da instituição Roberto Campos Neto, e do controlador do BTG Pactual, André Esteves. Os três prestarão esclarecimentos como testemunhas. A informação foi publicada nesta quinta-feira (1) pelo jornal O Estado de S.Paulo.

Investigadores da PF apuram suspeitas de atuação de servidores do BC em favor do Banco Master, que era controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, preso no ano passado após ser alvo da Operação Compliance Zero, que investiga um esquema bilionário de fraudes financeiras. 

A PF decidiu convocá-los depois que o ex-diretor do BC Paulo Sérgio Souza, investigado no caso, mencionou encontros que envolveram Galípolo, Campos Neto e Esteves em discussões sobre a situação do Master. Galípolo já havia confirmado em setembro que recebeu intimação para depor no início de outubro.

A programação prevê um depoimento por dia, embora os advogados possam solicitar mudanças nas datas. A PF pretende ouvir André Esteves na segunda-feira, Gabriel Galípolo na terça-feira e Roberto Campos Neto na quarta-feira.

Na quinta-feira, os investigadores planejam colher um terceiro depoimento do diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. A corporação ainda organiza a logística das oitivas.

Galípolo, Campos Neto, Esteves e Aquino figuram nessa etapa da investigação como testemunhas. A apuração concentra-se em suspeitas de que antigos integrantes do Banco Central teriam atuado em benefício de Vorcaro, inclusive com eventual compartilhamento de informações relacionadas à fiscalização. Os investigados negam irregularidades.

Ex-diretor citou reuniões sobre o Master

Em depoimento à PF, Sérgio Souza disse ter participado de discussões com integrantes da cúpula do BC sobre a situação financeira do Banco Master e sobre possíveis medidas diante dos problemas identificados pela fiscalização. O ex-diretor negou ter recebido propina de Vorcaro em troca de informações sigilosas. 

Em suas declarações, o ex-diretor relatou divergências internas sobre uma eventual comunicação ao Ministério Público Federal relacionada às suspeitas envolvendo o Master e a negociação para a venda do banco ao Banco de Brasília (BRB). “Relata que comunicou ao diretor Ailton a necessidade de fazer a comunicação ao Ministério Público, e que a comunicação estava pronta”, afirmou Paulo Sérgio à PF.

De acordo com o relato, ele participou de duas reuniões com Galípolo para tratar do assunto. Na primeira, Paulo Sérgio teria informado que o Master já havia deixado de recolher integralmente o compulsório, a parcela de recursos que as instituições financeiras mantêm no Banco Central.

O ex-diretor afirmou que, diante da situação, o BC precisaria avaliar a liquidação do banco ou uma alternativa negociada com outra instituição financeira.

“Naquela primeira reunião, o diretor Galípolo pediu um voto de confiança para a solução do BRB, por volta do final de fevereiro ou início de março; que, na segunda reunião, no final de junho, o diretor Galípolo afirmou que não faria comunicação ao Ministério Público por gestão temerária, pois a informação que havia recebido internamente era de que havia fraude na carteira”, afirmou.

Segundo Paulo Sérgio, Ailton de Aquino também lhe deu uma orientação durante o período em que Galípolo passava pela sabatina de sua indicação no Senado. O ex-diretor declarou que recebeu a recomendação de “jogar parado”.

BTG avaliou aquisição do banco

O nome de André Esteves surgiu no inquérito porque o BTG Pactual chegou a analisar uma possível compra do Banco Master. Essa avaliação colocou a instituição no centro de reuniões citadas por Paulo Sérgio em seu depoimento.

O ex-diretor também relatou um episódio ocorrido no fim de 2024 e que envolveu o BTG e Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central.

Segundo Paulo Sérgio, Ailton de Aquino informou em novembro daquele ano que o BTG havia concluído uma due diligence, procedimento de análise realizado antes de uma negociação, sobre o Master e identificado uma suposta fraude de R$ 32 bilhões.

“Relata que a comunicação do BTG foi verbal, feita por telefone no dia 29 de novembro, e que o diretor Ailton lhe disse para ir a São Paulo na segunda-feira, pois na terça-feira o BTG faria uma apresentação; que a apresentação foi realizada no dia 3 de dezembro de 2024, estando presentes o presidente Roberto Campos Neto (…); que o BTG não entregou documentação na reunião”, afirmou Paulo Sérgio.

A PF busca esclarecer o contexto desses encontros, o conteúdo das informações compartilhadas e a atuação de servidores e ex-servidores do Banco Central diante da situação do Master.

A nova rodada de depoimentos ocorre em uma etapa avançada da investigação. Galípolo, Campos Neto, Esteves e Aquino deverão explicar à PF as circunstâncias das reuniões mencionadas e o conhecimento que tiveram sobre os fatos investigados.

Esquema do Master

A Operação Compliance Zero, deflagrada inicialmente em 2024, apura suspeitas de emissão de títulos de crédito falsos por instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional. A investigação aponta que essas instituições teriam registrado operações de crédito inexistentes, simulando empréstimos e outros valores a receber. Depois que o Banco Central aprovava os registros contábeis, os créditos fraudulentos e títulos de dívida eram trocados por outros ativos sem a devida avaliação técnica.

O Master captava recursos por meio de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), uma modalidade de renda fixa com remuneração previamente definida. O investimento conta com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), característica que faz com que o mercado o considere uma aplicação segura.

A instituição de Vorcaro oferecia remuneração muito superior à média praticada no mercado. Enquanto bancos costumam disponibilizar CDBs equivalentes a 100% da taxa de juros, o Master prometia retornos de até 140%. Esse modelo elevava o risco para os credores e transferia parte do custo ao FGC.

Nesse tipo de aplicação, o investidor entrega recursos ao banco e, no vencimento, recebe o montante aplicado acrescido dos juros. O Banco Master colocou no mercado R$ 50 bilhões em CDBs com remuneração acima das taxas praticadas por outras instituições, sem demonstrar que possuía liquidez suficiente para quitar esses papéis futuramente.

Segundo a investigação, o banco teria contabilizado investimentos em ativos inexistentes e adquirido “créditos” de uma empresa sem capacidade de pagamento para sustentar uma imagem de solidez financeira. 

Em seguida, teria repassado esses créditos ao BRB, que desembolsou R$ 12,2 bilhões sem a documentação adequada. As apurações apontam que a operação contribuiu para reforçar artificialmente o caixa do Master.

Fonte: Brasil 247

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