PF aponta negociação de R$ 2 milhões e atuação de Cezinha de Madureira em processo no STF
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – A Polícia Federal identificou mensagens que indicam a negociação de honorários de R$ 2 milhões condicionados ao êxito de uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) e uma posterior tentativa do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) de tratar pessoalmente do processo no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques.
As informações foram reveladas pelo Valor Econômico e constam da representação da PF que embasou a operação realizada nesta segunda-feira (14) contra Cezinha e sua esposa, a advogada Valéria Linhares. O material foi tornado público pelo ministro Flávio Dino, do STF.
Os investigadores encontraram conversas entre Valéria e Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, nas quais são discutidos contratos relacionados à Reclamação 81.608, em tramitação no Supremo. O processo foi apresentado por Denis de Souza Macedo, ex-secretário de Educação de Belford Roxo (RJ).
Macedo foi preso em 2025 durante uma operação da PF que apura o desvio de R$ 112 milhões de recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Contrato previa pagamento em caso de êxito
Segundo a investigação, uma primeira versão do contrato previa o pagamento de R$ 1 milhão ao escritório de Tuca caso houvesse êxito na reclamação apresentada ao STF.
Em mensagens posteriores, Tuca encaminhou uma proposta de aditivo elevando o valor para R$ 2 milhões caso fosse obtida a soltura do ex-secretário.
O trecho da investigação divulgado por Flávio Dino não esclarece se o contrato chegou a ser efetivamente fechado nesses termos. Mariângela Fialek, entretanto, continua registrada no processo no STF como uma das advogadas de Denis de Souza Macedo.
A reclamação questiona a atuação do delegado da Polícia Federal responsável pela operação no Rio de Janeiro. O processo, que antes estava sob responsabilidade de outro escritório de advocacia, passou a contar com a atuação de Tuca.
PF vê tentativa de atuação junto ao gabinete de Nunes Marques
A investigação também destaca conversas entre Tuca e Cezinha de Madureira após dificuldades relatadas por ela para obter uma audiência no gabinete de Kassio Nunes Marques, relator do processo.
Segundo trecho da decisão de Dino, em 21 de agosto de 2025, após receber uma resposta formal do gabinete do ministro a um pedido de audiência, Tuca demonstrou irritação.
“Nossa / Fiquei arrasada — Maria Claudia vendo que sou eu. Ministro Gilmar sabe, Guiomar (possível referência à ex-esposa de Gilmar Mendes), ela poderia ponderar que eu advogada etc. Nunca eu faria isso — FDP / Eu já deixei de pegar por conta de amigo / Vou falar Arthur / Largo eles todos / Não me ajudam com nada e ainda me atrapalhar?”, afirmou Tuca.
Cezinha respondeu: “Calma” […] “Deixa eu ir lá sentir”.
Sete dias depois, em 28 de agosto, o deputado voltou ao assunto e pediu à advogada: “me manda aqui o print do pedido da agenda novamente”.
Na avaliação de Flávio Dino, a conversa demonstra “o prosseguimento da gestão pessoal do pleito”.
A decisão divulgada pelo ministro não detalha, porém, se houve posteriormente alguma reunião entre o parlamentar e integrantes do gabinete de Nunes Marques nem qual teria sido o resultado concreto da movimentação.
Mensagens foram encontradas no celular de Tuca
Os diálogos foram localizados no telefone celular de Mariângela Fialek. Ela é apontada nas investigações como uma das principais operadoras do chamado orçamento secreto durante a presidência de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara dos Deputados.
Tuca continuou ocupando cargo na Presidência da Câmara durante a gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB), até ser alvo de buscas da Polícia Federal em 2025, em uma investigação envolvendo suspeitas de desvios de emendas parlamentares.
Foi a análise do material apreendido naquela operação que levou os investigadores a identificar, segundo a PF, indícios de uma atuação conjunta de Tuca e Cezinha de Madureira voltada à tentativa de exercer influência junto a integrantes de tribunais superiores, entre eles o STF.
Defesa de Cezinha nega irregularidades
As defesas de Tuca e Valéria Linhares, segundo o Valor, ainda não haviam se manifestado sobre o conteúdo das investigações.
A defesa de Cezinha de Madureira negou a prática de irregularidades e afirmou que o parlamentar permanece à disposição das autoridades.
“O deputado está certo de que, assegurados o contraditório e o amplo acesso da defesa aos elementos da investigação e à integra do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida”.
Fonte: Brasil 247