Peter Handke: o vencedor do Prêmio Nobel que reabriu a pior crise da Academia Sueca
Por Daniel Dieb — Seu Dinheiro

Em 2018, pela primeira vez em décadas, a Academia Sueca não escolheu um Nobel de Literatura. A instituição, que escolhe o vencedor desde 1901, adiou a premiação depois que um escândalo expôs abuso sexual, vazamento de informação sigilosa para apostas e uma falha estrutural: o estatuto de 132 anos que tornava as cadeiras vitalícias e nem sequer previa renúncia.
No ano seguinte, tentando se redimir, a Academia entregaria dois prêmios de uma vez — e escolheria um vencedor ainda mais controverso, para coroar a sequência de erros.
Peter Handke, escolhido em 2019, é o autor de A Angústia do Goleiro Diante do Pênalti e Insulto ao Público, além do livro A Journey to the Rivers: Justice for Serbia, pelo qual ele foi acusado de minimizar os crimes cometidos pelas forças sérvias durante as guerras da antiga Iugoslávia.
Ele discursou no funeral de Slobodan Milošević, o ditador sérvio que morreu enquanto respondia, sem veredicto, por genocídio e crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia.
Questionado sobre a posição, em entrevista ao semanário alemão Die Zeit, em novembro de 2019, Handke disse: “Nem uma palavra do que escrevi sobre a Iugoslávia pode ser denunciada, nenhuma. É literatura.” Ele negou ter qualquer simpatia pelo ditador sérvio e reclamou da cobertura da imprensa ocidental.
A crise no Prêmio Nobel
A escolha de Handke foi o desfecho mais controverso de uma crise iniciada em 2017, quando um jornal sueco publicou relatos de 18 mulheres que acusavam de assédio e agressão sexual Jean-Claude Arnault, casado com Katarina Frostenson, poeta e membra da Academia.
Frostenson foi arrastada para a crise porque a investigação descobriu que a Academia financiava o clube cultural do casal, do qual ela era coproprietária, criando um conflito de interesses. Arnault acabou condenado por estupro.
A denúncia obrigou a própria Academia a investigar os laços de Arnault com a instituição — e a apuração encontrou um segundo problema. Em abril de 2018, veio à tona que ele havia sido acusado de vazar o nome de sete vencedores do Nobel desde 1996, quebrando o sigilo das deliberações. A suspeita era que os vazamentos serviam para apostar no nome do vencedor antes da revelação oficial.
A crise se alastrou rápido. Membros deixaram de participar da Academia, mas os assentos continuavam ocupados no papel: pelo regimento, só morte ou expulsão abriam vaga, nunca a saída por escolha própria.
Após o protesto, a Academia ficou com dez membros ativos de 18 no total. O regimento exigia 12 membros para determinadas decisões, como a eleição de novos acadêmicos.
Diante disso, ela anunciou o adiamento do prêmio daquele ano. Para destravar o impasse, o rei da Suécia, Carl XVI Gustaf, alterou o estatuto da Academia, datado de 1895, permitindo a renúncia formal dos membros.
Depois, novas regras permitiram que a Coroa dispensasse, em determinadas circunstâncias, o quórum de 12 acadêmicos para a eleição de novos integrantes.
Quando uma crise coroa outra crise
Com a crise parcialmente resolvida, a Academia decidiu fazer dupla premiação, com o prêmio de 2018 para Olga Tokarczuk e o de 2019 para Handke.
Albânia, Bósnia, Croácia, Kosovo e Turquia boicotaram a cerimônia de premiação em protesto à escolha de Handke.
Dias antes da cerimônia, numa coletiva de imprensa, ele foi questionado por um jornalista sobre o genocídio de Srebrenica.
O escritor mudou de assunto, disse que preferia uma carta anônima ofensiva às perguntas dos jornalistas e afirmou: “Meu povo são os leitores, não vocês.”
Na tentativa de fechar o capítulo mais constrangedor de sua história, a Academia escreveu mais algumas páginas antes de fechá-lo de vez — ou ao menos até o próximo escândalo.
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Fonte: Seu Dinheiro