Peso do BRICS supera o G7 no PIB por paridade, mas bloco ainda busca integração mais ampla
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
247 – Os países do BRICS concentram quase 40% do PIB mundial medido por paridade de poder de compra, acima dos cerca de 29% atribuídos ao G7, mas ainda mantêm um nível de integração econômica inferior ao sugerido pelo tamanho do grupo. O retrato consta de uma análise da agência ANI publicada nesta quarta-feira (9) pelo Economic Times CFO, com base em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
O comércio entre os integrantes do BRICS aumentou mais de 13 vezes, de US$ 84 bilhões em 2003 para aproximadamente US$ 1,17 trilhão em 2024. Apesar da expansão, essas operações representam cerca de 5% do comércio global, o que evidencia a distância entre o peso conjunto das economias e a conexão efetiva de suas cadeias produtivas, empresas e sistemas financeiros.
A análise mostra que o BRICS ampliou sua influência econômica e institucional duas décadas após o início da articulação entre Brasil, Rússia, Índia e China. O grupo passou de um fórum informal de grandes mercados emergentes para uma plataforma de cooperação em comércio, desenvolvimento, finanças, tecnologia, cadeias de suprimentos e governança internacional.
O jornalista, educador e pesquisador RN Bhaskar afirmou que a articulação adquiriu uma dimensão política não prevista quando o termo BRIC foi criado para identificar grandes economias emergentes.
“O BRICS foi uma construção artificial do Goldman Sachs”, declarou Bhaskar. Segundo ele, a Rússia percebeu antecipadamente o potencial político da articulação. “Foi a Rússia que teve a visão de transformar isso em uma plataforma.”
A África do Sul ingressou no grupo em 2010. A expansão posterior incorporou Egito, Etiópia, Irã, Indonésia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, aumentando a presença do BRICS entre países em desenvolvimento, produtores de commodities e grandes mercados consumidores.
Exportações avançam, mas China concentra o comércio
As exportações de mercadorias dos integrantes do BRICS saltaram de quase US$ 1 trilhão em 2003 para aproximadamente US$ 6 trilhões em 2024, segundo a UNCTAD. A participação do grupo nas vendas mundiais dobrou no período, de cerca de 12% para 24%.
A China ocupa a posição central nesse fluxo. O país é o maior exportador e importador no comércio entre os integrantes, enquanto outras economias dependem do mercado chinês para vender produtos primários ou adquirir bens industriais. Sete membros do BRICS mantêm forte concentração de commodities nas exportações destinadas aos demais participantes.
O economista Manoj Pant, professor visitante da Shiv Nadar University e ex-reitor do Instituto Indiano de Comércio Exterior, considera necessário distinguir o crescimento das trocas comerciais da formação de um mercado integrado.
“A China é central para o comércio mundial”, afirmou Pant.
Segundo o economista, parte expressiva das operações registradas como comércio entre países do BRICS decorre da posição chinesa nas cadeias globais de produção. O aumento das trocas, portanto, não significa necessariamente que os demais integrantes tenham estabelecido relações empresariais, tecnológicas e financeiras permanentes entre si.
Pant avalia que o investimento produtivo oferece um indicador mais preciso da integração do que as exportações e importações isoladamente. Empresas que instalam unidades, formam fornecedores e criam redes financeiras em outro país estabelecem vínculos econômicos de longo prazo, enquanto o comércio pode permanecer concentrado em poucas mercadorias.
“Não há vínculos institucionais entre as indústrias de pequena escala dos países do BRICS”, disse o economista.
O Relatório de Investimentos do BRICS publicado pela UNCTAD em 2023 mostrou que os fluxos de investimento estrangeiro direto destinados aos cinco integrantes originais mais do que quadruplicaram entre 2001 e 2021. O desafio agora é converter esse crescimento geral em mais investimentos entre as próprias economias do grupo.
Banco do BRICS amplia financiamento em moedas locais
O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) constitui uma das principais estruturas econômicas criadas pelo BRICS. Fundada em 2014, a instituição financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável fora do sistema tradicional comandado pelo Banco Mundial e por outros organismos associados aos acordos de Bretton Woods.
O NDB ampliou o número de integrantes e passou a priorizar também financiamentos em moedas locais. Na cúpula realizada no Rio de Janeiro em 2025, os líderes do BRICS defenderam a diversificação das fontes de recursos e atribuíram ao banco um papel estratégico no financiamento de projetos do Sul Global.
A redução da dependência do dólar também ganhou espaço na agenda do grupo. Para Bhaskar, sanções econômicas e restrições aplicadas por meio do sistema financeiro internacional estimularam governos a procurar canais alternativos de pagamento e financiamento.
“Cada vez mais países estão dispostos a realizar transações em moedas que não sejam o dólar”, afirmou.
A iniciativa não equivale à criação imediata de uma moeda comum nem à substituição integral do sistema financeiro vigente. O movimento se concentra na ampliação de pagamentos bilaterais, empréstimos e contratos denominados nas moedas dos próprios participantes.
Índia prioriza cooperação comercial e cadeias produtivas
A Índia adotou durante a presidência do BRICS em 2026 uma agenda voltada à cooperação econômica prática. Na 16ª Reunião de Ministros do Comércio do grupo, realizada em Jaipur, o país defendeu cadeias globais de valor mais diversificadas, acesso de pequenas e médias empresas ao comércio exterior, expansão do financiamento comercial e maior cooperação em serviços digitais.
A reunião também avançou na Estratégia para a Parceria Econômica do BRICS até 2030. O plano abrange comércio, investimento, serviços, economia digital, inovação, cooperação financeira e desenvolvimento sustentável.
Nova Délhi sustenta paralelamente a manutenção de um sistema multilateral de comércio centrado na Organização Mundial do Comércio. A posição reflete uma tentativa de ampliar a influência dos países emergentes sem romper com mercados, tecnologias e investimentos provenientes das economias ocidentais.
Grupo pressiona por reformas no FMI e no Banco Mundial
A dimensão política permanece como uma das principais fontes de coesão do BRICS. O grupo transformou a reivindicação por maior representação do Sul Global em uma agenda institucional conjunta, mesmo sem alcançar integração semelhante à de blocos com regras comerciais e regulatórias compartilhadas.
A Declaração do Rio de Janeiro, aprovada em 2025, defendeu mudanças na governança das instituições de Bretton Woods para incorporar o crescimento da participação das economias emergentes no PIB mundial. O documento também pediu maior poder de decisão para países em desenvolvimento no FMI e no Banco Mundial.
Ao mesmo tempo, o BRICS reafirmou apoio ao sistema multilateral de comércio estruturado em torno da OMC. A combinação indica que o grupo busca alterar a distribuição de poder nas organizações existentes, além de construir mecanismos complementares como o NDB.
O BRICS já aumentou a capacidade de negociação coletiva das economias emergentes, expandiu o comércio Sul-Sul e criou alternativas de financiamento. A consolidação como força econômica integrada, porém, dependerá da ampliação dos investimentos internos, das conexões empresariais e das cadeias produtivas compartilhadas entre os integrantes.
Fonte: Brasil 247