Para onde vamos: uma Igreja cada vez mais fiel a Jesus Cristo
Por Nereudo Freire Henrique — Brasil de Fato
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Esta pergunta tem acompanhado minhas reflexões. Partilho essas inquietações como irmão e pastor, desejoso de que possamos discernir juntos. Vivemos um tempo de incertezas e desafios que atingem especialmente os pobres e ameaçam sua esperança. Como Igreja, precisamos discernir os caminhos que estamos percorrendo e renovar nosso compromisso com o bem comum. Esse compromisso encontra fundamento no Evangelho e é iluminado pela Doutrina Social da Igreja, pelo Concílio Vaticano II e pelo magistério dos papas, especialmente Francisco e Leão XIV. Ela nos pede liberdade diante dos interesses partidários e fidelidade às exigências do Evangelho.
Vivo no Nordeste do Brasil, onde a proximidade com os empobrecidos nos permite conhecer suas dores e esperanças. Aqui, a pobreza tem rosto, nome, família e história. Está nas periferias, nas comunidades rurais, nas famílias que lutam pela sobrevivência e nos jovens privados de oportunidades. Mas encontramos também uma fé perseverante, solidariedade entre vizinhos e comunidades que se organizam para defender a vida. Essa experiência nos ensina a caminhar com os pobres, reconhecendo sua dignidade, ouvindo sua palavra e aprendendo com eles.
À luz dessa caminhada, preocupam-me atitudes e discursos que encontram espaço também em nossos ambientes eclesiais: a naturalização das desigualdades, o desprezo pelos mais frágeis, a intolerância e a utilização da fé para alimentar hostilidades. Preocupam também os ataques dirigidos à CNBB, especialmente quando substituem o diálogo por acusações, desinformação e agressões pessoais. É necessário distinguir essas práticas da crítica respeitosa, que pode contribuir para nosso discernimento e para a comunhão. Também nós, bispos, padres, pessoas consagradas, seminaristas e leigos, precisamos examinar como acolhemos ou reproduzimos essas práticas.
Nossa comunhão deve encontrar expressão concreta na vida. A fidelidade à doutrina, a celebração da liturgia e o compromisso com a dignidade humana precisam alimentar-se mutuamente. A defesa da vida, desde a concepção até a morte natural, exige cuidado em todas as suas etapas, especialmente quando ela é ameaçada pela fome, pelo abandono ou pela violência. Esse compromisso inclui o cuidado com a casa comum e com toda a criação. As Bem-aventuranças nos oferecem um caminho para viver essa fidelidade (cf. Mt 5,1-12).
Precisamos perguntar-nos, com sinceridade e coragem, se estamos vivendo o Evangelho que anunciamos. Também nós, pastores, devemos vigiar para que a vaidade e a autorreferencialidade não ocupem o lugar do anúncio de Jesus Cristo. Manter os olhos fixos nele (cf. Hb 12,2) significa permitir que sua Palavra examine nossas escolhas. Jesus nos adverte que a entrada no Reino dos Céus exige fazer a vontade do Pai, e não apenas invocá-lo com os lábios (cf. Mt 7,21).
O discipulado cristão exige que o Evangelho se traduza em atitudes concretas. A vida e a organização da Igreja devem servir à missão de anunciar e testemunhar Jesus Cristo. Na sinagoga de Nazaré, o Senhor apresentou sua missão como anúncio da Boa-Nova aos pobres, libertação dos oprimidos e proclamação do ano da graça (cf. Lc 4,18-19). Como anunciar o mesmo Cristo e permanecer indiferentes às injustiças que ferem os mais vulneráveis? Como deixar de reconhecer nossa responsabilidade pelos pecados pessoais e pelas estruturas de pecado que sustentam a exclusão?
Na cena do juízo final, Jesus identifica-se com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os que estão nus, os enfermos e os encarcerados. O amor concreto aos pequenos torna-se critério decisivo de nossa fidelidade a ele (cf. Mt 25,31-46). Essa exigência nasce das palavras do Senhor e deve orientar nosso discernimento sobre qualquer proposta política. São Tiago recorda que a fé sem obras está morta (cf. Tg 2,14-17), e São João nos ensina que o amor a Deus não pode ser separado do amor ao irmão (cf. 1Jo 4,20).
A Doutrina Social da Igreja expressa as consequências sociais da fé e oferece critérios para discernir a realidade à luz do Evangelho. A Constituição Pastoral Gaudium et spes, no n. 1, afirma a solidariedade dos discípulos de Cristo com as alegrias e esperanças, as tristezas e angústias da humanidade, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem. No n. 43, o Concílio adverte contra a separação entre a fé professada e a vida cotidiana. Nossa espiritualidade precisa, portanto, abrir-nos às dores do povo e sustentar nossa responsabilidade na história.
Na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 198, o Papa Francisco apresenta a opção pelos pobres como uma categoria, antes de tudo, teológica. Ao abordar a dimensão social da evangelização, especialmente a inclusão dos pobres nos nn. 176–201, chama a Igreja a ouvir seu clamor e a enfrentar as causas da exclusão. Na Encíclica Fratelli tutti, n. 180, recorda-se que a caridade também se expressa na construção de processos sociais de fraternidade e justiça. Promover os direitos dos pobres, reconhecer seu protagonismo na vida eclesial e social e buscar o bem comum são exigências da missão evangelizadora.
O Papa Leão XIV retoma essa convicção na Exortação Apostólica Dilexi te. No n. 15, adverte que os cristãos podem deixar-se influenciar por ideologias e orientações políticas ou econômicas que conduzem a generalizações injustas e ao desprezo da caridade. No n. 16, fundamenta a opção preferencial pelos pobres no agir misericordioso de Deus e pede à Igreja uma posição decidida em favor dos mais frágeis. Essa preferência não exclui ninguém: expressa o amor universal de Deus mediante uma atenção especial àqueles cuja dignidade é mais ameaçada.
Esses ensinamentos nos convidam, sobretudo a nós, pastores, a um profundo exame de consciência. Que imagem de Cristo estamos apresentando ao povo? Como estamos formando nossos seminaristas? Nossas prioridades pastorais ajudam a reconhecer o Senhor nos pobres, nos migrantes, nos trabalhadores, nos povos indígenas e nos irmãos e irmãs esquecidos? Essas questões precisam ser aprofundadas em nossas comunidades, em nossos seminários e nas decisões de governo pastoral.
Nossas diferenças políticas não podem tornar-se critérios de pertença à Igreja. Há espaço para escolhas distintas, desde que submetidas a um discernimento responsável e ao respeito pela dignidade humana. Nossa referência primeira é Jesus Cristo e seu Evangelho. Por isso, devemos dialogar com todos, preservar nossa liberdade diante dos projetos de poder e denunciar a injustiça, a violência, o racismo e os discursos que desumanizam pessoas. A fidelidade evangélica exige que examinemos atitudes e propostas, inclusive aquelas de quem recebe nossa simpatia política.
Podemos ter diferentes sensibilidades e formas de conduzir a ação pastoral, mas todos somos chamados a acolher as exigências do amor de Cristo. Ele, sendo rico, fez-se pobre por nós (cf. 2 Cor 8,9). O compromisso com os pobres pertence ao coração de nossa fé e precisa orientar nossas escolhas.
O que significa, hoje, fazer a opção evangélica pelos pobres em nosso país? Significa estar perto de quem sofre, defender seus direitos e favorecer sua participação nas decisões que afetam sua vida. Significa apoiar iniciativas que enfrentem a fome, ampliem o acesso à educação, à saúde, à moradia e ao trabalho digno. Na vida eclesial, significa acolher os pobres como sujeitos da caminhada, com voz e lugar nas comunidades.
Esse compromisso encontra especial ressonância nas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026–2032), que destacam, entre seus caminhos pastorais, o serviço à vida plena, a opção evangélica e preferencial pelos pobres, a promoção da dignidade humana e o cuidado com a Casa Comum. Essas orientações nos reafirmam que a evangelização não pode permanecer distante das situações concretas de sofrimento, exclusão e injustiça. Ao contrário, exige de nós uma presença eclesial próxima, solidária e comprometida com a dignidade humana e a transformação da realidade (cf. CNBB, Doc. 114).
Nossa Senhora Aparecida, nossa Mãe negra, recorda-nos uma devoção que nasceu entre simples pescadores, a partir de uma imagem encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul. Maria nos conduz a seu Filho e, no Magnificat, proclama o agir de Deus, que derruba os poderosos de seus tronos, eleva os humildes, sacia os famintos e despede os ricos de mãos vazias (cf. Lc 1,52-53). Seu cântico anuncia a justiça e a misericórdia divinas e nos chama à conversão, sem dar lugar ao ódio contra ninguém.
Há muitos sinais de esperança em nossa Igreja. Comunidades, pastorais e movimentos, pessoas consagradas, leigos, padres e bispos testemunham diariamente a proximidade com quem sofre. Reconhecer esse serviço nos ajuda a perceber a ação de Deus e a fortalecer o que já produz frutos. A recomendação feita a Paulo permanece atual: lembrar-se dos pobres e dedicar-se a esse compromisso com empenho (cf. Gl 2,10).
A comunhão eclesial é um dom que recebemos e uma responsabilidade que assumimos. Ela cresce quando escutamos uns aos outros, reconhecemos nossas contradições e buscamos a conversão na verdade e na caridade. Nesse caminho, a sinodalidade nos chama a fortalecer uma Igreja que escuta, discerne e caminha conjuntamente, reconhecendo a dignidade batismal de todos e a corresponsabilidade na missão. Escutar o povo de Deus, especialmente os pobres e aqueles que frequentemente não encontram espaço para expressar sua voz, é parte fundamental desse processo de conversão. A unidade da Igreja acolhe a diversidade legítima e pede coerência evangélica. Podemos enfrentar nossas dificuldades com confiança, sem encobri-las e sem transformar os irmãos em adversários.
Jesus ensinou aos discípulos que a autoridade entre eles deve ser exercida como serviço: quem quiser ser grande deve tornar-se servidor (cf. Mc 10,42-45). Essa palavra ilumina nosso ministério episcopal e presbiteral. A proximidade, a humildade e a disposição de escutar tornam visível o amor do Bom Pastor, especialmente junto àqueles que mais sofrem.
Para onde vamos? Somos chamados a caminhar para uma Igreja cada vez mais fiel a Jesus Cristo, comprometida com a dignidade humana, próxima dos pobres e capaz de anunciar e testemunhar a esperança. Uma Igreja que não se deixa aprisionar por interesses partidários ou ideológicos, mas que encontra no Evangelho a inspiração para suas escolhas e atitudes. Esse caminho exige de nós conversão pessoal e comunitária, abertura ao diálogo, disposição para a escuta e coragem para enfrentar as injustiças. Que nossas diferenças não enfraqueçam a comunhão, mas nos estimulem a discernir juntos os caminhos da missão. Que o Espírito Santo nos conceda sabedoria e coragem para permanecermos fiéis ao Evangelho. E que, ao acolhermos os pequenos, reconheçamos o próprio Senhor, que se identifica com eles (cf. Mt 25,40).
*Nereudo Freire Henrique é bispo auxiliar da Arquidiocese de Olinda e Recife.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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Fonte: Brasil de Fato