Pacientes com câncer relatam atrasos em radioterapia no Araújo Jorge: “Tem gente chorando de dor”
Por Tathyane Melo — Jornal Opção

Pacientes do Hospital de Câncer Araújo Jorge, em Goiânia, relatam dificuldades e atrasos no tratamento de radioterapia, com queixas sobre equipamentos que apresentam problemas e sessões que deixam de ser realizadas. Uma das pacientes, segundo a filha, deveria cumprir 27 sessões, mas realizou apenas 10 em cerca de um mês.
Os relatos chegaram ao Jornal Opção de pacientes e acompanhantes que enfrentam deslocamentos e despesas adicionais para manter o tratamento. Entre eles está Eliana, filha de Alaíde Maria Nogueira, de 78 anos, moradora de Marzagão, em Goiás. Segundo ela, a mãe enfrenta dores e teve o quadro agravado durante o período em que as sessões não ocorreram conforme o previsto.
“Está muito difícil a máquina amarela não está funcionando, a gente mora longe daqui, está gastando, minha mãe está muito ruim com dor e um descaso total com os pacientes. E eles não dão explicação nem falam que horas volta ou se volta. O problema da minha mãe se agravou demais por esses atrasos nas máquinas.”
Em nota enviada a reportagem, o Araújo Jorge explicou que o setor de Radioterapia realiza, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), cerca de 280 sessões diariamente. Segundo a instituição, o atendimento funciona das 6h às 2h, distribuído em quatro turnos, e registra taxa de ocupação aproximada de 93%. O hospital afirma que frequentemente ultrapassa o horário previsto devido à demanda.
Segundo Eliana, os pacientes recebem como justificativa a informação de que o equipamento está estragado. Ela afirma que a família chegou a alugar uma kitnet nas proximidades do hospital para conseguir permanecer em Goiânia durante o tratamento da mãe. O custo, segundo seu relato, exigiu que familiares recorressem a dinheiro emprestado.
“Justificativa, eles não dão, só falam que está estragado. A gente tem um grupo que os pacientes e os acompanhantes ficam nele, só que a gente não consegue mandar mensagem, é só eles que mandam. Aí a justificativa que eles dão é que está estragada. Você chega lá, aí está estragada, dispensa, vai embora para casa e a gente vem de longe, está gastando. Minha mãe estava ali deitada, gemendo de dor. Ela está sangrando, coisa que ela não estava. Aí, por conta dos atrasos das rádios, está piorando, cada dia pior. Teve uma semana que a gente veio e não conseguiu fazer nenhuma.”

O relato também ocorreu em meio a uma nova comunicação aos pacientes nesta terça-feira, 29. Em um aviso identificado como “Aviso aos pacientes – Cartão Amarelo”, a unidade informou que parte das sessões previstas para aquele dia não seriam realizadas. “Devido aos atrasos e a algumas intercorrências ocorridas ao longo do dia, infelizmente não será possível realizar o tratamento de todos os pacientes programados para hoje.”
O comunicado orientou os pacientes que ainda não haviam saído de casa a permanecerem em suas residências e informou que as sessões seriam retomadas normalmente no dia seguinte.
Ainda conforme as explicações do Araújo Jorge, o tempo médio de uma sessão é de 15 minutos, mas que tratamentos mais complexos exigem períodos maiores nos equipamentos, reduzindo a capacidade de atendimento diário. Paralelamente, o hospital afirma estar investindo na renovação de sua estrutura.
A principal medida anunciada é a instalação de dois novos aceleradores lineares, equipamentos utilizados nos tratamentos de radioterapia. Conforme o Araújo Jorge, os aparelhos devem começar a funcionar no primeiro semestre de 2027. O hospital também informou que realiza obras de reforma e adequação física do setor.
Sobre a comunicação com os pacientes, a instituição afirma que as informações referentes aos aparelhos são repassadas às pessoas que aguardam atendimento. Antes de uma eventual dispensa, segundo o hospital, é feita uma avaliação para definir a prioridade, especialmente entre pacientes que já apresentam atraso no tratamento.
Quando procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) informou que o Araújo Jorge é uma unidade filantrópica e não é administrada diretamente pela pasta. A SMS afirmou que acompanha a oferta de serviços da rede, mas que não havia sido comunicada sobre uma paralisação ou indisponibilidade do serviço de radioterapia.
A secretaria acrescentou que também não recebeu do hospital orientação para suspender atendimentos ou deixar de receber novos pacientes para tratamento.
O Jornal Opção também entrou em contato com a Secretaria da Saúde do Estado de Goiás (SES) e com o Ministério da Saúde para saber mais detalhes sobre os repasses financeiros para o Hospital de Câncer Araújo Jorge, entretanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para futuras manifestações.
Confira a nota completa do Hospital de Câncer Araújo Jorge:
“NOTA DE ESCLARECIMENTO
Em relação ao questionamento do Jornal Opção sobre os atendimentos no Setor de Radioterapia, o Araújo Jorge – Hospital de Câncer esclarece que:
1 – O Setor de Radioterapia, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), realiza em média 280 sessões diárias, operando em quatro turnos sendo das 06h às 02h com uma taxa de ocupação de aproximadamente 93%, extrapolando frequentemente o horário previsto de atendimento em razão da alta demanda;
2 – O tempo médio de cada sessão de radioterapia é de 15 minutos. Entretanto, tratamentos mais complexos demandam períodos maiores de utilização dos equipamentos, impactando diretamente a capacidade diária de atendimento;
3 – A instituição está passando por um importante processo de readequação de seu parque tecnológico, com investimentos na estrutura da Radioterapia. Como parte desse processo, serão instalados dois novos aceleradores lineares, com previsão de entrada em funcionamento no primeiro semestre de 2027. A medida permitirá ampliar a capacidade de atendimento do serviço. Paralelamente, o hospital também está realizando obras de reforma e adequação de sua estrutura física, com o objetivo de proporcionar melhores condições de atendimento, conforto e segurança aos pacientes;
4 – Todas as informações relacionadas aos aparelhos são comunicadas aos pacientes que permanecem aguardando atendimento. Além disso, antes de eventual dispensa, é realizada avaliação criteriosa, priorizando o atendimento dos pacientes que já apresentam atraso no tratamento;
5 – Reiteramos que o Araújo Jorge oferece o melhor atendimento possível a todos os pacientes, um diferencial que nos caracteriza e atesta a qualidade dos serviços prestados há 70 anos de atividade contínua, pautados pela ética e responsabilidade.”
Confira a nota de esclarecimento da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia:
“A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informa que o Hospital Araújo Jorge é uma unidade filantrópica, que não é gerida pela pasta. A gestão municipal monitora de forma contínua a oferta de serviços na rede de saúde e não foi comunicada sobre paralisação ou indisponibilidade do serviço de radioterapia do hospital.
A SMS esclarece ainda que, até o momento, não recebeu da instituição qualquer orientação para suspensão dos atendimentos ou não recebimento de novos pacientes para tratamento.
A gestão municipal permanece em diálogo com o hospital e acompanha a situação, dentro de suas atribuições, com o objetivo de contribuir para a continuidade da assistência aos usuários.”
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Fonte: Jornal Opção