Por Florestan Fernandes Jr — Brasil 247

Em um cenário fortemente polarizado, onde o segundo turno é marcado pela cristalização dos votos, a vantagem estará com quem conseguir atrair o eleitorado refratário aos dois polos. No primeiro turno, a abstenção atingiu 21,08%, o equivalente a cerca de 33,4 milhões de eleitores aptos que não compareceram às urnas. Esse é o contingente que Lula precisa alcançar para conquistar a reeleição.

O desempenho da campanha no primeiro turno deixou claro que o presidente está arcando com o custo político de não ter preservado a ampla coalizão que garantiu sua vitória em 2022. É imperativo recompor, desde já, o diálogo com os setores que apoiaram sua eleição no pleito passado, mas que se distanciaram ao longo deste terceiro mandato.

É preciso reconhecer o cenário com pragmatismo. Embora siga como a maior liderança política do país e uma referência internacional, Lula carrega tanto o patrimônio extenso de suas realizações quanto uma rejeição acumulada ao longo de décadas de ataques de seus adversários políticos e da mídia hegemônica. Há um desgaste natural de imagem e uma resistência consolidada entre as parcelas mais conservadoras da população.

Neste segundo turno, a reconstrução de pontes com o empresariado e com as camadas de média e baixa renda será decisiva. Simultaneamente, a estratégia exige a desconstrução da candidatura de Flávio Bolsonaro, por meio do confronto direto entre as gestões de Lula e Jair Bolsonaro.

Relembrar o desastre do governo anterior e associar o bolsonarismo a experiências de extrema-direita na América Latina, especialmente na Argentina, é um passo fundamental. Mostrar os efeitos sobre o desemprego, a carestia, a pobreza extrema e a deterioração das condições de vida permitirá que o eleitor visualize o impacto real de uma agenda econômica de inspiração ultraliberal no Brasil. E isso não é mera especulação: a coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, já afirmou que o modelo de Javier Milei é um “ótimo exemplo” para o país.

A saúde pública surge como eixo central desse contraste. É importante contrapor as garantias do SUS a modelos privados e excludentes, como o estadunidense, demonstrando o que concretamente está em jogo diante de uma vitória bolsonarista e da implantação de uma agenda de Estado mínimo: o acesso à saúde e à educação públicas, a precarização do transporte, a elevação do custo de vida e o destino de riquezas estratégicas.

Mas a retórica do medo é insuficiente. Lula precisa acenar para o futuro, apresentar compromissos concretos, compreensíveis e renovar a esperança. Nesse desenho, Geraldo Alckmin assume papel estratégico na interlocução com o eleitorado moderado, setores produtivos e lideranças religiosas.

O grande obstáculo é o tempo. A campanha de Lula terá apenas 20 dias para articular três frentes: reconstruir uma aliança ampla; desconstruir o discurso bolsonarista, expondo os riscos de um retrocesso social e institucional; e oferecer um projeto palpável de futuro.

Soma-se a isso a necessidade de esclarecer ao eleitor o grau de apoio político, financeiro e estratégico que Flávio Bolsonaro recebe de Donald Trump e das Big Techs. Esse arranjo envolve diferentes dimensões, que vão de pressões políticas a apoios estratégicos de grandes empresas de tecnologia. O debate não se restringe à disputa entre duas pessoas; há uma dimensão maior em jogo: a soberania brasileira diante da ingerência externa. É preciso evidenciar o custo social e coletivo dessa intrusão na eleição.

A travessia será árdua, mas o histórico da esquerda brasileira demonstra que nenhum avanço democrático foi conquistado sem resistência. Deixo a você, caro leitor, um trecho da poesia de Carlos Drummond de Andrade, em Mãos Dadas:

(…) Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme realidade

O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas (…).

Fonte: Brasil 247

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