Os “bonsais da destruição climática”: em Campos, a motosserra parece ter virado instrumento de paisagismo

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Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

Em plena primavera e sob o agravamento da crise climática, árvores são mutiladas e abatidas, enquanto a arborização urbana de Campos dos Goytacazes parece estar sendo submetida a uma curiosa política de redução de copas, sombras e qualidade de vida


Quem circula pelas ruas de Campos dos Goytacazes pode estar testemunhando o surgimento de uma nova escola de paisagismo urbano. Nela, quanto menor a copa de uma árvore, melhor. Se os galhos forem eliminados quase completamente, melhor ainda. E, se a árvore for abatida de uma vez, talvez tenhamos atingido a perfeição estética pretendida pelos adeptos dessa modalidade bastante peculiar de gestão ambiental. Pelas imagens que registrei ontem na Beira Rio, parece que estamos diante de uma verdadeira epidemia de produção dos chamados “bonsais da destruição climática”, uma contribuição tipicamente campista à arte de transformar árvores de grande porte em monumentos à ausência de sombra.

Para quem não sabe, o bonsai é uma técnica de origem chinesa, posteriormente aperfeiçoada e difundida pelos japoneses, que consiste no cultivo de árvores em miniatura, mediante procedimentos cuidadosos de poda, condução de galhos, manejo das raízes e controle do crescimento. Trata-se de uma arte que exige conhecimento, paciência e respeito às características biológicas das espécies cultivadas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre cultivar um bonsai em um vaso e transformar árvores adultas das vias públicas em caricaturas de si mesmas. Enquanto o bonsai tradicional procura reproduzir, em escala reduzida, a beleza e a complexidade de uma árvore, o bonsai da destruição climática parece empenhado em eliminar justamente aquilo que torna uma árvore indispensável ao ambiente urbano: sua copa, sua sombra e sua capacidade de amenizar as temperaturas.

O problema seria apenas uma manifestação de mau gosto paisagístico se não estivéssemos vivendo um período de agravamento da crise climática global. Em cidades como Campos dos Goytacazes, onde as temperaturas elevadas já constituem uma característica marcante do clima local, a presença de árvores nas ruas, calçadas e praças deveria ser considerada uma infraestrutura ambiental estratégica. Afinal, as copas das árvores reduzem a incidência direta da radiação solar sobre o pavimento, contribuem para amenizar as temperaturas por meio da evapotranspiração, interceptam parte das águas das chuvas e oferecem abrigo para diferentes espécies da fauna urbana. Ao reduzir drasticamente essas copas, estamos eliminando serviços ambientais que não podem ser substituídos por canteiros ornamentais, vasos de concreto ou promessas de futuros plantios.

Mas existe outro aspecto particularmente curioso nessa aparente febre de transformação das árvores campistas em bonsais gigantes: a escolha do mês de outubro para a realização dessas intervenções. Em muitas situações, especialmente para espécies de clima temperado e árvores caducifólias, o período de menor atividade vegetativa, frequentemente situado entre maio e agosto no hemisfério sul, oferece condições mais adequadas para determinadas modalidades de poda. Entretanto, esse calendário não pode ser aplicado indiscriminadamente às espécies tropicais, pois a época correta depende da espécie, de seu ciclo fenológico, das condições climáticas e da finalidade da intervenção. Em Campos, onde predominam condições climáticas quentes, o manejo deveria respeitar essas particularidades. Ainda assim, realizar podas drásticas em plena primavera, quando muitas árvores apresentam intensa brotação e crescimento, levanta questionamentos adicionais sobre os critérios técnicos empregados.

É importante esclarecer que a poda, quando necessária e corretamente executada, constitui uma prática legítima de manejo da arborização urbana. Galhos comprometidos, interferências perigosas com redes elétricas e problemas estruturais efetivamente identificados podem justificar intervenções. Entretanto, existe uma distância considerável entre uma poda tecnicamente fundamentada e a eliminação indiscriminada de grandes porções da copa. Cortes excessivos podem produzir ferimentos extensos, favorecer a entrada de organismos causadores de doenças, estimular brotações estruturalmente frágeis e comprometer a estabilidade futura das árvores. Em determinadas situações, aquilo que é apresentado como uma medida preventiva de segurança pode acabar produzindo exatamente o contrário: árvores mais vulneráveis e potencialmente perigosas.

As fotografias que acompanham esta postagem, registradas em uma via pública de Campos dos Goytacazes, mostram árvores submetidas a intervenções severas, incluindo troncos praticamente desprovidos de copa e cortes recentes em galhos de grande porte. Não é possível determinar apenas pelas imagens quais justificativas técnicas foram apresentadas para cada intervenção, mas o resultado visual é suficientemente preocupante para exigir explicações. Afinal, quem está autorizando essas operações? Existem laudos individuais demonstrando sua necessidade? Quais profissionais estão definindo a intensidade das podas? E, sobretudo, existe algum planejamento municipal capaz de compatibilizar a segurança urbana com a preservação da cobertura arbórea?

Essas perguntas ganham ainda mais importância quando consideramos que pesquisas em andamento no Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), vinculado ao Centro de Ciências do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), já identificaram um quadro preocupante de remoção de árvores no bairro do Flamboyant. Os levantamentos iniciais apontam uma relação de aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada, além de uma distribuição espacial desigual dos novos plantios. Isso significa que o problema não parece estar restrito à poda de algumas árvores isoladas, mas pode representar uma dinâmica mais ampla de empobrecimento da infraestrutura verde da cidade.

E aqui chegamos ao aspecto mais contraditório dessa história. Enquanto cientistas e organismos internacionais alertam para a necessidade de ampliar a cobertura vegetal das cidades como uma das estratégias de adaptação às mudanças climáticas, em Campos parecem existir setores empenhados em percorrer o caminho inverso. Em vez de ampliar as áreas sombreadas, reduzimos as copas. Em vez de preservar árvores adultas, que levaram décadas para alcançar seu porte atual, permitimos sua mutilação ou remoção. Em vez de tratar a arborização urbana como patrimônio ambiental coletivo, ela parece continuar sendo considerada um obstáculo inconveniente, que pode ser eliminado sempre que surgir alguma dificuldade administrativa.

Talvez os defensores dessa modalidade de paisagismo estejam imaginando que, com menos folhas e galhos, as ruas ficarão mais limpas e os serviços de manutenção serão simplificados. O problema é que as árvores não existem nas cidades apenas para satisfazer preferências estéticas ou facilitar o trabalho das equipes de limpeza. Elas cumprem funções ambientais essenciais, especialmente em um contexto de aquecimento global. E quem paga o preço de sua eliminação são principalmente os pedestres, os ciclistas, os trabalhadores que passam longas horas expostos ao sol e os moradores que não dispõem de recursos para se proteger das temperaturas elevadas.
Por isso, seria interessante que a Prefeitura de Campos dos Goytacazes esclarecesse quais são os critérios técnicos que orientam as podas e os abates atualmente realizados, identificando os responsáveis pelos serviços, os laudos que os fundamentam e as medidas previstas para preservar ou recuperar a cobertura arbórea. A população tem o direito de saber se está diante de uma política de manejo ambiental cientificamente fundamentada ou simplesmente de mais um capítulo da tradicional preferência por soluções rápidas, visualmente impactantes e ambientalmente desastrosas.

Enquanto essas explicações não aparecem, proponho que as árvores mutiladas sejam reconhecidas como representantes de uma nova categoria do paisagismo urbano: os “bonsais da destruição climática”. Diferentemente dos verdadeiros bonsais, que resultam de uma relação cuidadosa entre seres humanos e árvores, esses exemplares são produzidos mediante a supressão de grande parte da estrutura vegetal que deveria ser preservada.

E assim, em uma cidade que deveria estar se preparando para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, parece que estamos aperfeiçoando a arte de eliminar justamente aquilo que poderia nos oferecer algum alívio.
No ritmo em que as coisas caminham, talvez a próxima inovação do paisagismo campista seja substituir as árvores por postes de concreto. Afinal, estes não produzem folhas, não precisam de podas e, principalmente, não oferecem a inconveniência de fazer sombra.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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