Os algoritmos e outras abstrações
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Em seu livro de contos, o piauiense Odorico Leal busca apreender o real e o humano em narrativas habitadas pela IA, por sonhos e por fantasmas
O uzbeque Hamid Ismailov publicou um romance cuja tradução é Nós Computadores ou O Poeta Mais Lindo do Mundo. Nele, um francês programa com a exatidão dos algoritmos para criar poesia e, então, se apaixona pelos versos de Hafez, persa místico do século XIV. A história comporta as duas expressões: uma ocidental, atual, objetiva; e outra oriental, medieval, subjetiva.
Em Sonhos da Pessoa Física, livro de contos do escritor piauiense Odorico Leal, Hafez aparece como Hafiz e serve de fonte a uma narração que começa com gigantes de tempos bíblicos.
Os Gigantes, quarto dos sete textos desse livro que carrega no título a dualidade entre a subjetividade (sonhos) e a objetividade (pessoa física), é assinado por personagens do primeiro conto: Escritor Argentino, o mais primoroso do conjunto. O jogo de metalinguagem não se resume aos personagens. Os Gigantes é um texto que seria publicado numa revista ficcional mencionada em Escritor Argentino.
Leal, que é também um tradutor reconhecido e estreou na ficção em 2024 com Nostalgias Canibais – premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte como melhor livro de contos –, entra, no novo livro, nesse jogo de autorreferência e de referências entrecruzadas.
Em Luds, por exemplo, é citada uma pintura intitulada Sonhos da Pessoa Física, tal qual o livro que seguramos, e o narrador conversa com uma Inteligência Artificial: “Arranje um lote cibernético para capinar (…). Imite um humano com preocupações existenciais. Para sempre. É esse meu comando. A praga que te rogo”.
SONHOS DA PESSOA FÍSICA. Odorico Leal. Todavia (120 págs., 79,90 reais)
Se o leitor se distrai, a narrativa o despista com casos detetivescos e amorosos. Mas o que importa ali é a referência aos luditas, trabalhadores da Revolução Industrial que destruíam máquinas em protesto contra a exploração e o desemprego. E como dá prazer concluir que ser máquina que imita humanos é, no fundo, moleza. Duro mesmo é ser humano em tempo integral.
E o jogo não para. Em A Forma Mais Humana, o narrador é a Inteligência Artificial de Luds, que atende pelo nome de Vinci. Por meio dela, descobrimos que o narrador do conto anterior se chama Ícaro. Capaz de operar outras máquinas, Vinci, com frieza calculada, comete um ato hediondo só para mapear a reação de Ícaro.
Sonhos da Pessoa Física remete ainda à estreia do autor na ficção. Um dos contos de Nostalgias Canibais é História da Feiura, cujo narrador diz: “A enfermidade era coisa da minha cabeça”. O novo volume traz História da Beleza. O narrador, agora, é, segundo ele próprio e sua vovó, mais que bonito. É belo. E cisma ele também que sua saúde corre risco.
Ambos se espelham nos extremos das aparências. Isso, no fim, pode não significar nada. Mas o espelhamento, no mínimo, incita a leitura de Nostalgias Canibais, que contém uma obra-prima da língua portuguesa, o conto Paraíso Canibal.
Em Sonhos da Pessoa Física, Odorico Leal escolhe narrar as histórias num tom estático. Em certos casos, a opção funciona melhor, como no do robô narrador. A falta de variação tonal ajuda a equilibrar a presença dos outros inúmeros elementos narrativos.
O humor de Leal é sutil e sério. Ele chama de Nepo, abreviação de Nepomuceno, o personagem que observa problemas do amigo com o pai. E quando um narrador diz não ser bom de enredo, um policial, incontinenti, o coage: “Pediu então que eu descrevesse com pormenores meu encontro”.
A palavra “fantasma” é reiterada no livro, mas também “banho de realidade” se repete. Que sentido, enfim, melhor apreende o real? Ao ver o Nepo acima mencionado, um bonitão, outro personagem deseja tocar seu rosto “para comprovar a realidade”. •
Por Ana Paula Sousa

O Universo, diz o físico Rogério Rosenfeld em A Ciência do Universo (Companhia das Letras, 496 págs., 114,90 reais), é o conjunto daquilo que podemos observar – planetas, galáxias, estrelas. É de tudo isso e das teorias da cosmogonia que trata este livro que é escrito de modo simples, mas não teme a complexidade.

Narrar Histórias (Fósforo, 160 págs., 84,90 reais) é a transcrição de um encontro televisivo entre a ensaísta e escritora Susan Sontag e o crítico de arte John Berger. A conversa, realizada em 1983 e até agora só disponível em vídeo, tornou-se uma referência sobre o que guardam e o que podem as diferentes formas de narrar.

Em A Casa dos Malditos (Zahar, 168 págs., 77,90 reais), o escritor Tito Leite, ex-monge beneditino, reflete sobre um conflito comum: o desejo pelo encontro com Deus e a impossibilidade de seguir o que a vida num claustro exige. No relato, ele trata também do alcoolismo e de sua internação em uma clínica voltada a religiosos.
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os algoritmos e outras abstrações ‘
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Fonte: Carta Capital