Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Após queda no público no ano passado, o cinema do país volta a dominar o mercado interno com filmes como Hope

Embora o público de filmes espetaculosos tenha acesso basicamente àquilo que Hollywood lança, dois países asiáticos têm cada vez mais apresentado superproduções empolgantes e inventivas: Índia e Coreia do Sul. Vem de lá, provavelmente, o que de melhor se tem feito no mundo em cinema de grande orçamento.

Vez ou outra, um filme desses consegue furar o bloqueio hollywoodiano nos países do Ocidente. É o caso de Hope – O Primeiro Impacto, que concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes, em maio de 2026, e estreia na quinta-feira 8 no circuito brasileiro.

Anunciado como o filme mais caro da história da Coreia do Sul, o longa-metragem custou, aproximadamente, 100 bilhões de wons, o equivalente a 75 milhões de dólares. Ainda é pouco diante dos orçamentos dos blockbusters norte-americanos, que chegam a 200 milhões de dólares, mas é muito em termos de cinema internacional.

O alto valor se deve à confiança da indústria audiovisual sul-coreana no diretor Na Hong-jin, que alcançou prestígio e sucesso com O Lamento (2016). Uma década se passou até que o diretor retornasse às telas. E ele voltou com sequências de ação frenéticas.

Hope tem correria, perseguição de carros, destruição em cidades e florestas, tiros de todos os tipos, explosões e alguns efeitos visuais que, apesar de esquisitos para os padrões ocidentais, servem bem ao propósito de “cinema B de alto luxo” buscado pelo cineasta.

Uma das graças de assistir a Hope é saber pouco ou nada sobre a trama – algo que não parece ter ocorrido aos montadores do trailer, que entrega quase tudo –, até porque uma característica do cinema da Coreia do Sul é a mistura de gêneros. Vai-se, em segundos, de uma cena aterradora e violenta para a comédia escrachada.

É possível adiantar que Hope é ambientado numa pequena cidade sul-coreana, próxima à fronteira com a belicosa Coreia do Norte. Ali, todo mundo se conhece e nada de muito interessante acontece para além das fofocas.

Imagem: Thibaud Moritz/AFP

Um policial (Hwang Jung-min, de O Lamento) é chamado numa ocorrência envolvendo uma vaca atacada por algum bicho misterioso. Entre caçadores a adentrar as florestas da região e investigações sobre o que pode estar afetando a cidade, surge outra policial (Hoyeon, bem conhecida por interpretar Kang na série Round 6) e mais um monte de personagens para encarar o que pode ser um monstro gigante imparável. Mas será só isso?

Hope tem 2h30 de duração. E isso parece, em alguns momentos, uma tentativa de justificar o alto orçamento. Mas a habilidade de Hong-jin em conduzir a ação e o suspense e a câmera flutuante da fotografia de Hong Kyung-pyo – que já trabalhara com o diretor – compensam um ou outro momento mais digressivo de um enredo tão simples quanto eficaz.

Trata-se, ainda, de um filme, à sua maneira, politizado. As placas que alertam para as minas terrestres plantadas por norte-coreanos e a presença peculiar de atores internacionais (Michael Fassbender e ­Alicia Vikander) dizem muito sobre o olhar de Hong-jin para o que vem de fora. Dentro da narrativa, o que vem de fora altera o status quo local, ao mesmo tempo que o filme faz um comentário irônico sobre como Hollywood tenta, com afinco, reconquistar o domínio do mercado sul-coreano.

A ocupação do mercado interno, na Coreia do Sul, remete a uma política de Estado implantada na virada do século XX para o século XXI. Em 1999, o governo criou o Korean Film Council (Kofic) e passou a consolidar mecanismos de financiamento – que também buscaram atrair capital privado –, formação e promoção para filmes dentro e fora do país.

A implantação de uma cota de tela pesada, que exigia que metade dos filmes programados pelas salas de cinema sul-coreanas fossem nacionais, era parte central dessa política.

A participação de mercado dos filmes sul-coreanos passou de 39% em 1999 para 50% em 2001 e chegou a 59% em 2004, segundo o Kofic. Foi nesse período, de produção consolidada e público conquistado, que Bong Joon-ho, que ganharia o ­Oscar com Parasita (2019), fez seu primeiro grande sucesso: O Hospedeiro (2006), com 13 milhões de ingressos vendidos.

Parasita foi o primeiro filme de língua não inglesa a levar o Oscar de Melhor Filme. Antes dele, porém, muitas outras produções do país conquistaram repercussão internacional e sucesso local. Diretores como Park Chan-wook, Kim ­Jee-woon e o próprio Na Hong-jin tornaram-se nomes quentes da indústria e figuras cativas em festivais.

O diretor Na Hong-jin teve em mãos o maior orçamento da história local do setor e investiu em cenas frenéticas de ação e efeitos especiais típicos dos blockbusters

Embora tenha atravessado a pandemia com alguns bons resultados, em 2024 o número de espectadores no país correspondia a 54% daquele de 2019. A queda, segundo o Kofic, afetou o investimento em novas produções.

Em 2024, os filmes locais foram responsáveis por 58% de todos os ingressos vendidos. Sucessos como ­Exhuma, The Roundup: Punishment e I, The ­E­xecutioner seguraram a renda. Mas, em 2025, não houve um fenômeno local e o market share caiu para 40%. Nenhum título nacional ultrapassou a marca dos 10 milhões de espectadores, algo que não acontecia, exceção feita ao período pandêmico, desde 2012.

Mas, em 2026, parece ter havido um contra-ataque. No primeiro semestre, os filmes nacionais responderam por 65,5% dos espectadores dos cinemas. A recuperação foi impulsionada por The Man Who ­Lives With the King (17 milhões de espectadores), Zona Zero (6 milhões), que estreia no Brasil em 15 de outubro, e Salmokji: Whispering ­Water (3,2 milhões). Em julho, quando estreou na Coreia do Sul, Hope levou 3,8 milhões de pessoas às salas em um mês. •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Coreia do Sul contra-ataca’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Marcelo Miranda

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Fonte: Carta Capital

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