Reencontro com o soul
Por Augusto Diniz — Carta Capital
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Aos 55 anos, Ed Motta recupera a mistura sonora do início da carreira e volta a compor e a cantar em português
Ed Motta iniciou a carreira com trabalhos marcados pela união entre soul, electro-funk – uma mistura da música eletrônica com funk –, jazz e rhythm and blues. Os registros mais marcantes dessa fusão estão nos discos Entre e Ouça (1992) e Manual Prático para Festas, Bailes e Afins (1997).
Foi a partir de Dwitza (2002) que o cantor e compositor deu uma guinada na carreira e passou a apresentar álbuns com uma sonoridade mais jazzística, marcada por arranjos e harmonias requintados. Até então, seu som era envolvente, mas, ao mesmo tempo, mais simples.
“Entrei numa fase de discos mais conceituais, que tiveram uma aceitação muito forte nos mercados japonês e europeu”, diz Ed Motta em entrevista a CartaCapital. Alguns desses trabalhos tinham, inclusive, apenas canções em inglês, caso de Chapter 9 (2008) e dos três álbuns anteriores: Perpetual Gateways (2016), Criterion of the Senses (2018) e Behind the Tea Chronicles (2023).
Agora, o artista resolveu voltar às suas raízes. No recém-lançado Toc-Toc, seu 15º álbum, as 11 faixas são cantadas em português e a influência do soul brasileiro e do electro-funk é forte. Seu último álbum em português tinha sido AOR, lançado há 13 anos.
A escolha por compor em português deu-se depois da criação das melodias. O artista conta ter percebido, nas próprias composições, uma estética que remetia àquela de seus primeiros álbuns. A partir desse sentimento, começou a trabalhar nas letras na língua materna.
“Lembrei-me muito do que fazia no início de tudo”, diz. “Mas, é claro, tinha um cacoete diferente, de um cara de 55 anos, mais maduro, e que já havia realizado um monte de coisas na música.”
Admirador do soul brasileiro, ele diz ter, como principais referências no gênero, Cassiano, Carlos Dafé, a Banda Black Rio e, é claro, Tim Maia, seu tio.
Embora tenha sido, na história da música brasileira, um gênero marginal, nunca abraçado pela indústria fonográfica, o soul, lembra Ed, influenciou vários artistas da MPB. Ele cita como exemplos Tô Que Tô, de Kleiton e Kledir, que ficou famosa na voz de Simone; Realce, de Gilberto Gil; e Lindo Lago do Amor, de Gonzaguinha.
É nessa linhagem que se insere Toc-Toc. As músicas do disco são de Ed Motta, e as letras, dele em parceria com a mulher, Edna Lopes. Só uma das 11 faixas não é do casal: Glamour Hotel, que Ed Motta fez com Leoni. Entre as músicas de destaque estão a dançante O Desejo Está Nu, dedicada à dupla Lincoln Olivetti e Robson Jorge, cultuados arranjadores do pop brasileiro dos anos 1980, e Casa de Frente pro Mar, com toques bossanovistas.
A faixa-título, Toc-Toc, também chama atenção pelo tom de crônica urbana, que remete à Tijuca, no Rio, bairro que ele diz não sair de sua música: Buzina toca/ Não me provoca/ A aventura/ Foi pra rua.
De maneira geral, o álbum mostra, de novo, um artista muito apurado sonoramente. O músico, não à toa, afirma ser obcecado pela busca do som ideal: “Quando está sendo feito o disco, é muito trabalho. São horas e horas, fins de semana… Não é só elemento artístico, é uma psique neurótica para alcançar o melhor resultado”.
O artista quer esquecer o que chama de “mal-entendidos” e afirma que, na música, se considera bem-sucedido. As mudanças estéticas, diz, são virtude, não incoerência
Os arranjos, segundo Ed, são fruto da mistura musical que ele ouve todos os dias em casa. Seu acervo tem mais de 20 mil discos. “Mergulho bem na construção da composição, na parte técnica, no instrumento, no timbre”, afirma.
No disco, além de cantar, Ed Motta toca guitarras, baixo, teclados e percussão. Michel Limma, que assina a produção ao lado dele, cuida da programação da bateria e do teclado.
Perto de completar 40 anos de carreira – seu primeiro disco é de 1988 –, Ed Motta segue tentando, nem sempre com sucesso, evitar que as polêmicas da vida pessoal respinguem em sua música.
A controvérsia mais recente em que se envolveu foi em maio deste ano, num restaurante do Rio. Irritado com a cobrança da taxa de rolha, ele jogou uma cadeira durante a discussão. Funcionários o acusaram de ofensas xenofóbicas – algo que ele negou.
O artista diz querer esquecer o que chama de “mal-entendidos” e afirma que, na música, se considera bem-sucedido e coerente. As mudanças feitas ao longo da carreira são, a seu ver, uma virtude: “Eu quis viver esse processo. Fui fazer um trabalho de menos alcance de público, mas de maior densidade, que resultou num acúmulo de experiência musical”.
Outra novidade deste segundo semestre é que ele lançará uma história em quadrinhos em que é o personagem principal. O primeiro volume da série infantojuvenil As Aventuras de Ed Motta, ambientada no universo do jazz no fim dos anos 1950, se chama Aplausos e Enigmas. Com roteiro de PH Tirre e desenhos de Manoel Magalhães, sai em novembro.
Na trama, seu personagem é um músico brasileiro que vive em Londres. Depois que começam a acontecer crimes em seus shows, ele passa a investigá-los. “Pareço muito com personagem de história em quadrinhos: careca e de barba”, diverte-se. “Espero que as pessoas deem muita risada com ele.” •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Reencontro com o soul’
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Fonte: Carta Capital