Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Bilionários apostam em cidades-bunker, livres do “controle” do Estado e da presença de indesejados

Instalada na ilha de Roatán, em Honduras, a Próspera opera sob um regime de autonomia regulatória, cuja validade está em disputa com o Estado. No Uruguai, a Praxis anuncia um feudo para sua “nação digital”. Nos Estados Unidos, a California Forever planeja uma cidade, embora rejeite, por ora, experimentar novos sistemas de governo. As três cidades encarnam o sonho libertário dos bilionários da tecnologia, uma espécie de retorno ao sistema feudal, no qual os senhores definem as regras, da segurança ao comércio.

Dryden Brown encontrou no Uruguai um endereço para sua promessa de reinventar a civilização ocidental. Cofundador e CEO da Praxis, o empresário norte-americano anunciou, em 22 de setembro, a primeira implantação do projeto no empreendimento +Colonia, em Colonia del Sacramento. “Vamos criar muitos empregos”, afirma em uma conversa por videoconferência em meio a uma série de reuniões em Nova York, incluído um bate-papo com Yamandú Orsi, o presidente de esquerda uruguaio a quem Brown classifica de “cara maravilhoso”. O executivo de 30 anos emula o estilo “despojado” e “roqueiro” dos magnatas do Vale do Silício. Veste uma camiseta preta, se apresenta com a barba por fazer e está acomodado em um sofá laranja com guitarras ao fundo.

Os primeiros moradores de +Colonia, projeta Brown, começam a se instalar em meados do próximo ano. O CEO garante ainda uma arquitetura de alto padrão e respeito à cultura local, mas as imagens e descrições do projeto indicam uma paisagem bem diferente da cidade histórica: prédios de pedra e bronze, pátios, colunas, jardins à beira do Rio da Prata, além de residências, hotel, piscina e galerias. Com suas ­ruas de pedra, casas baixas e telhados de cerâmica, o centro histórico de Colonia del Sacramento remete, ao contrário, ao estilo espanhol típico do Cone Sul. Referência distante daquela anunciada pela Praxis, que menciona no site um “classicismo despojado”, inspirado na arquitetura italiana do século XX. A primeira etapa não será construída no bairro histórico protegido pela Unesco, ainda assim a distância entre o cenário que o projeto promete e a cidade que o recebe exibe o choque de visões de mundo.

O norte-americano Dryden Brown encontrou na uruguaia Colonia del Sacramento o terreno para seu projeto de refundação

Sobre o poder e a autonomia dos moradores de Colonia para influenciar os planos da Praxis, Brown sai pela tangente. “Acho essa preocupação totalmente razoável. Sou de uma pequena cidade de praia na Califórnia e, se houvesse um empreendimento que mudasse o caráter da comunidade de forma negativa, também me preocuparia”, ponderou. “Não queremos transformar a identidade estética e cultural da cidade. O projeto terá um padrão de elite e as pessoas têm sido muito receptivas comigo nas redes sociais.” Uma acolhida que, segundo ele, contrasta com as reações que recebeu quando cogitou a possibilidade de um projeto semelhante na Groenlândia. “Recebi manifestações muito negativas nas minhas redes, sobretudo de habitantes da Dinamarca.”

As promessas de respeito aos moradores destoam, no entanto, do tom adotado no ano passado. Em entrevista à Vanity Fair, publicada em junho de 2025, Brown chamou a California ­Forever de “um projeto de centro-esquerda muito entediante” e acusou os concorrentes de “bajular as comunidades locais e os agricultores”. “É baixa testosterona”, afirmou. Agora, em solo uruguaio, a retórica é de conciliação. Quando as perguntas tocaram no tema democracia em uma comunidade fundada sobre capital privado, a conversa foi interrompida: “Sinto muito, um dos meus investidores acabou de chegar e preciso falar com ele por alguns instantes”. Brown prometeu retomar a chamada, mas não respondeu aos contatos posteriores até o fechamento desta edição.

A pergunta sem resposta na conversa com o CEO da Praxis tornou-se um conflito concreto em Honduras. Quem governa quando uma empresa privada não oferece apenas casas e empregos, mas participa da criação das regras? Em Roatán, a Próspera opera com um regime próprio de administração, tributos e regulação. Os administradores dizem que o formato permite abrir empresas, atrair investimentos e gerar oportunidades com menos burocracia. As autoridades hondurenhas contestam.

Imagem: Redes Sociais

A experiência não nasceu à margem do Estado. Foi autorizada pelo regime das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômicos. O problema surgiu quando Honduras decidiu rever a autorização. Em 2022, o Congresso revogou a legislação e, em 2024, a Corte Suprema declarou inconstitucional o marco jurídico dessas zonas. A Próspera continuou, porém, a funcionar. Desde então, o impasse é menos sobre como construir uma cidade e mais sobre quais regras e autoridades valem. “Toda regra na ­Próspera ZEDE é lei hondurenha”, garantiu a CartaCapital César Barrantes, diretor de comunicação do empreendimento. Segundo ele, defesa, relações exteriores, imigração e direito penal permanecem sob autoridade nacional. A zona cuida de assuntos como negócios, construção, trabalho e tributos. Barrantes diz ainda que a decisão da Corte não desfaz contratos e direitos constituídos. A Procuradoria-Geral da República considera, porém, que a declaração de inconstitucionalidade atinge o regime desde a sua origem.

A divergência ganhou um novo capítulo em setembro, quando Jorge ­Colindres, responsável pela administração da cidade, nomeou o advogado hondurenho Alberto Hernández Franks “fiscal civil”, com a função de cobrar tributos e buscar o cumprimento de regras administrativas. A Procuradoria apresentou denúncia contra os dois por supostos crimes de traição à pátria e usurpação de funções públicas. Para a instituição, eles exercem poderes sem respaldo jurídico após a decisão da Corte Suprema. Não há condenação por enquanto, a denúncia pede investigação.

A Próspera afirma não ser parte da denúncia e propõe negociar. Barrantes diz que um acordo duradouro com o governo é necessário, para executar integralmente os planos de expansão. “Não podemos oferecer uma data fixa de conclusão enquanto esse acordo estiver pendente.” Ao mesmo tempo, a empresa e seus investidores mantêm uma arbitragem internacional contra Honduras, apresentada inicialmente com um pedido de em torno de 10,8 bilhões de dólares. O processo segue sem decisão sobre o mérito. A revisão das regras pelo país passou, assim, a ser também uma disputa sobre quanto essa mudança lhe pode custar.

A California Forever, idealizada pelo tcheco Jan Sramek, garante que não pretende operar à margem do Estado

E quem participa das decisões na Próspera? Barrantes descreve um conselho de nove integrantes: o secretário técnico, quatro representantes do promotor privado e quatro vagas destinadas aos moradores. Afirma que os residentes podem convocar referendos, revogar normas e destituir representantes. São mecanismos internos de participação, mas não encerram a pergunta que mobiliza os opositores: é legal uma estrutura com poder reservado ao grupo privado continuar a governar uma parte do território depois que as instituições nacionais retiram seu respaldo?

Em 1º de outubro, movimentos sociais foram à Corte Suprema exigir o cumprimento da decisão contra as ­ZEDEs. Questionaram a continuidade de autoridades próprias e apontaram riscos à soberania e aos direitos das comunidades. A defesa da Próspera reafirmou a promessa de oportunidades. Barrantes afirma que a zona gera 409 empregos diretos, mais de 95% ocupados por hondurenhos, com salário médio mensal de cerca de 1.130 dólares. Cita ainda aulas gratuitas para crianças de Crawfish ­Rock e apoio a iniciativas comunitárias.

Na Califórnia, a empresa que o CEO da Praxis criticou por “dialogar” com agricultores procura afastar-se desse tipo de experiência. Em resposta a esta publicação, a California Forever afirma que o projeto não pretende experimentar novas formas de governo e apresenta seu fundador, Jan Sramek, nascido na República Tcheca, como defensor da democracia. A proposta é incorporar as terras a Suisun City, no condado de Solano, e construir uma expansão submetida à administração municipal existente. “A única coisa que nos liga à tecnologia é que os investidores ganharam dinheiro nesse setor”, informa oficialmente o empreendimento.

A promessa é reorganizar a vida cotidiana, não substituir formalmente o Estado. A empresa apresenta bairros onde seja possível caminhar até o trabalho e a escola, com moradias menores, parques e serviços próximos. E informa que as casas custam a partir de 500 mil dólares, além de defender a expansão de loteamentos sobre terras agrícolas. São metas da companhia, ainda dependentes de aprovações e da execução do empreendimento.

A diferença institucional é importante, mas não elimina a disputa sobre quem decide. Segundo o CalMatters, organização de jornalismo independente, a incorporação das terras a Suisun City oferece à California Forever um caminho para avançar sem submeter o projeto à aprovação dos eleitores do condado. Em abril, integrantes da coalizão Solano Together, contrária à iniciativa, fizeram um ato diante da Câmara Municipal.

Protetorado. O norte-americano Dryden Brown comprou uma área na uruguaia Colonia del Sacramento para construir o seu oásis para bilionários libertários – Imagem: Redes Sociais

A California Forever enfrenta ainda um questionamento sobre quem paga pela avaliação da cidade. No acordo firmado com a Suisun City, a California Forever reembolsa despesas municipais e evita transferir aos contribuintes os custos de examinar a proposta. Além do reembolso, o acordo prevê 10 milhões de dólares em benefícios ao município-sede, condicionados à aprovação do projeto. Resta saber se o valor compensa os impactos.

A busca por novas comunidades não se limita aos três empreendimentos. Entre a Croácia e a Sérvia, a Liberland, micronação libertária sem reconhecimento internacional, é liderada pelo empresário de criptomoedas Justin Sun, fundador da blockchain Tron. Em Montenegro, ­Vitalik Buterin, cofundador da ­Ethereum, reuniu cerca de 200 participantes em Zuzalu, cidade temporária voltada à cripto, Inteligência Artificial, longevidade e às ideias de network states. Na Noruega, a Liberstad se apresenta como uma comunidade privada de inspiração libertária, organizada em torno de terras compradas com bitcoin e moeda própria.

Para Gil Duran, autor de The Nerd Reich, projetos como os citados são propostas de poder. A CartaCapital ele descreve as cidades privadas e territórios com regras próprias como uma fuga das limitações democráticas. “Os habitantes nesses países devem ficar ­atentos a qualquer iniciativa em que bilionários adquiram terras para construir uma nova cidade privatizada com suas próprias leis.” •

Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Novos feudos’


Clarissa Carvalhaes

Colaboradora correspondente de ‘CartaCapital’ em Nova York

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Fonte: Carta Capital

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