Organizações cobram de candidaturas propostas para reduzir desigualdades raciais
Por Emanuela Godoy — TVT News
O enfrentamento das desigualdades raciais deve estar no centro das propostas das candidaturas nas eleições de 2026. Essa é a cobrança apresentada pelo Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA) e pela Coalizão Negra por Direitos em um posicionamento conjunto divulgado para o período eleitoral. Leia em TVT News.
Com a mensagem “Com racismo, nenhuma democracia é plena”, as organizações apresentam um diagnóstico sobre como as desigualdades raciais afetam a população negra em diferentes etapas da vida e defendem compromissos concretos de partidos e candidaturas com a equidade racial.
A manifestação é dirigida a candidaturas à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas. Para as entidades, as diferenças observadas em áreas como saúde, educação, renda, trabalho e moradia precisam ser consideradas na formulação das políticas públicas.
Desigualdade começa antes do nascimento
Os dados reunidos pelo CEDRA mostram diferenças raciais já no acesso e na qualidade do atendimento durante a gestação. Em 2025, 22,3% das gestantes negras tiveram acompanhamento pré-natal classificado como inadequado ou intermediário, ou não realizaram o acompanhamento.
Entre as gestantes brancas, esse percentual foi de 14,8%.
Para as organizações, os números demonstram que as desigualdades não aparecem apenas na vida adulta. Elas podem se manifestar desde os primeiros momentos da vida e se acumular ao longo do tempo, afetando as oportunidades disponíveis para a população negra.
Diferenças também aparecem nas escolas
Na educação, o diagnóstico aponta disparidades nas condições oferecidas aos estudantes. Em 2025, escolas predominantemente frequentadas por estudantes negros tinham 35,5% de docentes com formação adequada à disciplina lecionada nos anos finais do Ensino Fundamental.
Nas escolas predominantemente brancas, o índice era de 62,5%.
O levantamento chama atenção para a necessidade de analisar não apenas os resultados escolares, mas também as condições de ensino, a infraestrutura das unidades e as oportunidades de aprendizagem oferecidas aos estudantes.
A diferença na formação adequada dos docentes é apresentada pelas entidades como parte de um conjunto mais amplo de desigualdades que acompanha a população negra durante a trajetória educacional.
Desigualdade de renda atinge famílias chefiadas por mulheres negras

Os efeitos dessas diferenças também aparecem na renda dos domicílios. Segundo dados do CEDRA, em 2023, a renda média por morador em domicílios formados somente por pessoas negras e chefiados por mulheres negras correspondia a 36,7% da renda dos domicílios sem moradores negros chefiados por homens não negros.
O dado evidencia, segundo o diagnóstico apresentado pelas organizações, a combinação entre desigualdade racial e desigualdade de gênero na distribuição de renda.
A partir desse cenário, CEDRA e Coalizão Negra por Direitos defendem que o enfrentamento das disparidades precisa envolver diferentes áreas da atuação pública. Saúde, educação, trabalho, renda e moradia são apontadas como campos que devem fazer parte das políticas voltadas à redução das desigualdades.
Organizações querem compromissos das candidaturas
O posicionamento lançado para as eleições de 2026 convoca partidos e candidaturas a assumir compromissos com a equidade racial tanto durante a disputa eleitoral quanto posteriormente, na definição das políticas e decisões dos governos e dos representantes eleitos.
Para as entidades, políticas públicas voltadas ao enfrentamento das desigualdades históricas precisam ser mantidas, fortalecidas e ampliadas.
A Coalizão Negra por Direitos reúne mais de 300 organizações, grupos e coletivos do movimento negro brasileiro. A articulação atua em ações de incidência política no Brasil e internacionalmente e mantém diálogo com o Congresso Nacional e instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
Já o CEDRA reúne pesquisadores e especialistas de diferentes áreas, como ciência de dados, estatística, economia e ciências sociais, com o objetivo de produzir análises sobre as desigualdades raciais a partir de estatísticas oficiais.
Entre suas iniciativas está uma plataforma aberta de dados raciais destinada a ativistas, organizações do movimento negro, entidades da sociedade civil, jornalistas, pesquisadores, gestores públicos e privados, estudantes e demais interessados.
O documento divulgado pelas duas organizações coloca a equidade racial como uma questão a ser considerada nos projetos apresentados ao eleitorado em 2026.
A partir dos dados reunidos, as entidades defendem que o debate eleitoral incorpore as diferenças verificadas nas condições de saúde, educação e renda e que essas desigualdades sejam enfrentadas por meio de políticas públicas.
Democracia e equidade racial
Para CEDRA e Coalizão Negra por Direitos, o debate sobre democracia está relacionado às condições concretas de vida da população. O diagnóstico apresentado pelas entidades aponta que diferenças persistentes entre pessoas negras e não negras atravessam áreas essenciais e podem se acumular ao longo da vida.
Por isso, a manifestação propõe que a equidade racial esteja presente nas propostas das candidaturas e nas decisões de quem ocupar os espaços de poder após as eleições.
A mensagem central do posicionamento resume a cobrança das organizações: “Com racismo, nenhuma democracia é plena.”
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Fonte: TVT News