Ofensiva externa
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Entidades civis se movimentam para bloquear eventuais interferências da Casa Branca nas eleições
O reconhecimento dos resultados da eleição no Brasil se transforma numa das prioridades dos movimentos democráticos no País, alarmados com o risco de o pleito virar alvo de questionamentos por parte do governo de Donald Trump. O objetivo é o de conseguir que europeus, aliados de países em desenvolvimento, e mesmo governos latino-americanos “felicitem” o vencedor da disputa de outubro de maneira a proteger o processo e reduzir a margem para uma eventual interferência da Casa Branca.
Na eleição de 2022, uma operação foi orquestrada nesse sentido. O foco era dar respaldo a uma vitória de Lula e desmontar a tese de que Jair Bolsonaro poderia colocar em xeque os resultados. Interlocutores enviados para capitais europeias e outros países costuraram um apoio para demonstrar que a comunidade internacional não iria reconhecer uma eventual teoria da extrema-direita sobre fraude ou irregularidades nas urnas. Naquele momento, os Estados Unidos eram comandados pelo democrata Joe Biden. De fato, tanto a direção da CIA, a agência de inteligência norte-americana, quanto o Departamento de Estado indicaram aos militares brasileiros que não iriam embarcar em uma aventura autoritária no País.
O temor é, no entanto, de que a eleição de 2026, com Trump no poder em Washignton, não receba o respaldo automático caso o presidente Lula seja reeleito. Por essa razão, numa operação nos bastidores, grupos da sociedade civil e mesmo do governo começam a operar para conseguir que o processo eleitoral nacional receba o reconhecimento internacional.
A ofensiva ocorre em duas frentes. A primeira é a de convencer governos democráticos e aliados a fazer declarações de apoio ao vencedor, assim que o resultado for anunciado. Um segundo caminho é o de garantir observadores internacionais nas eleições no Brasil que confiram ao processo chancela de legitimidade e aprovação. Nesse aspecto há, porém, uma forte preocupação por parte dos movimentos sociais, principalmente em relação ao comportamento da Organização dos Estados Americanos, entidade que enviará cerca de 90 observadores. Numa carta enviada em 19 de agosto ao ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, o diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili, alertou sobre o risco do possível não reconhecimento do resultado ao pleito. Sua avaliação é de que a situação “poderá ser agravada diante do alinhamento de diferentes governos latino-americanos, como Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Paraguai, Bolívia, Equador e diversos países da América Central, com a atual administração norte-americana e sua política Donroe”. Sottili alerta: “Eventuais atrasos, condicionamentos ou questionamentos do resultado brasileiro por esses países poderiam repercutir internamente e ser instrumentalizados para contestar a legitimidade do processo eleitoral, o que poderá levar a uma crise institucional nunca antes vista na história do Brasil”. Para ele, é importante que a OEA possa “exercer seu papel de acompanhamento das eleições com autonomia, rigor técnico e postura republicana diante das pressões políticas que atravessam o atual cenário internacional”.
O objetivo é garantir o rápido reconhecimento da comunidade internacional à eventual reeleição de Lula
Na carta, Sottili explicou que, em uma recente viagem à sede da OEA, ouviu do diretor do Observatório Eleitoral, Gerardo Icaza, a avaliação de que “não haveria a mínima possibilidade de os Estados Unidos deixarem de reconhecer o resultado eleitoral brasileiro, que a relação com o Departamento de Estado norte-americano é muito boa e que eles têm uma postura extremamente técnica, o que não condiz com as constantes colocações públicas de Marco Rubio e com o questionável relatório técnico do Observatório Eleitoral, executado sob responsabilidade de Icaza para as eleições da Bolívia”. E relembra: “Informações dão conta de que a publicação do relatório foi determinada pelo secretário-geral Luis Almagro, em episódio que levantou preocupações sobre a necessidade de preservar uma postura estritamente republicana da organização”.
A preocupação, prossegue Sottili, ganha ainda mais relevância diante do cenário de instabilidade política na própria OEA. “De forma inédita, o governo de Donald Trump passou a pressionar pelo impeachment do atual secretário-geral da organização, Albert Ramdin, ao mesmo tempo que reivindica influência sobre a escolha de seu sucessor e do titular da Secretaria para o Fortalecimento da Democracia, o chileno Sebastián Kraljevich.”
O governo brasileiro, de fato, foi alertado sobre o risco de um deslize por parte da OEA. Integrantes do alto escalão iniciaram contatos com a direção da missão para garantir que o trabalho consiga ser protegido de uma pressão política por parte da Casa Branca. Uma das estratégias foi a de convencer o Carter Center a repensar sua decisão de não acompanhar a eleição. A instituição norte-americana, que havia alegado problemas financeiros, acabou por decidir enviar uma missão de especialistas eleitorais ao Brasil.
“Dada a importância destas eleições – não apenas para o Brasil, mas para o hemisfério –, esperamos que nossa missão fortaleça a transparência do processo eleitoral e ajude os brasileiros a avaliar a integridade de suas eleições”, afirmou Jennie Lincoln, assessora sênior do Carter Center para a América Latina e o Caribe e Chefe da Missão. Para o movimento democrático nacional e mesmo para o governo, a presença de uma instituição norte-americana é considerada estratégica para barrar qualquer declaração enviesada de Trump e um eventual terremoto político e institucional no País. •
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ofensiva externa’
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Fonte: Carta Capital