Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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Milei descobre que as Malvinas pertencem ao seu país

Javier Milei descobriu de repente que “as Ilhas Malvinas são argentinas por história e por direito”. A mudança seria menos surpreendente se não viesse de um presidente que elogiou a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, relativizou a tradicional posição da Argentina sobre os moradores do arquipélago, recusou-se a aderir aos BRICS e construiu uma política externa de alinhamento automático com Estados Unidos e Israel.

O último pronunciamento do presidente argentino em rede nacional de televisão foi dedicado a afirmar a soberania sobre as ilhas. Milei chegou a ameaçar de punição uma empresa britânica e uma israe­lense por planejarem explorar petróleo em Sea Lion, a 200 quilômetros ao norte das Malvinas. Duas pesquisas permitem entender a mudança no discurso. Um estudo da TresPuntoZero, dirigido pela socióloga Shila Vilker, indica que 83,5% dos argentinos se consideram muito ou bastante nacionalistas. Outro estudo, da ­Management & Fit, revela que 61,1% acreditam que o novo discurso de Milei sobre as Malvinas é motivado por conveniência política. Apenas 24,7% o atribuem a uma convicção pessoal.

As eleições presidenciais, nas quais ­Milei busca um novo mandato, serão realizadas em outubro do próximo ano. E havia sinais de um sentimento nacional latente na Argentina. Primeiro, a comoção causada pela exibição da bandeira “As Ilhas Malvinas São Argentinas” pelo jogador da seleção nacional Giovani Lo Celso, em 15 de julho, após a vitória sobre a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo. Depois, em 6 de agosto, o governo sofreu uma derrota ao tentar flexibilizar as restrições à propriedade de terras por estrangeiros.

Para mais de 60% dos argentinos, a mudança de postura do presidente é motivada por conveniência política

Com 60% de desaprovação em todas as pesquisas, devido à situação econômica (desde que assumiu o cargo, há 600 mil empregos registrados a menos e 30 mil empresas fecharam), o “libertário” parece determinado a embarcar na onda. O Reino Unido ocupa as ilhas desde 1833. Em 1982, a ditadura de Leopoldo Galtieri tentou retomá-las militarmente, mas foi derrotada. Desde a volta da democracia, a Argentina reivindica a soberania por meios diplomáticos. Guillermo Carmona, secretário para as Malvinas, Antártida e Atlântico Sul no governo de Alberto Fernández, afirmou que Milei opera no “modo Galtieri”. O ditador acreditava que sua colaboração com Ronald Reagan no treinamento de torturadores na América Central levaria os Estados Unidos a escolher a Argentina em detrimento do Reino Unido, mas ­Washington acabou do lado do aliado britânico.

Antes do surto nacionalista, Milei tinha outras ideias. Elogiou Margaret ­Thatcher, a primeira-ministra inglesa durante a guerra de 1982. Também falou dos “desejos” dos ilhéus, formulação próxima ao argumento britânico pela autodeterminação e diferente da posição argentina, que defende que seus interesses devem ser respeitados em uma disputa de soberania entre Buenos Aires e Londres.

O problema do nacionalismo de ­Milei surge, no entanto, quando ele passa das palavras à ação. Vide o movimento no extremo Sul. O presidente argentino anunciou, como parte de sua nova estratégia, o reforço da base naval de Ushuaia, no extremo austral. O projeto teve início em 2022, durante o último governo peronista, mas Milei alterou o contexto geopolítico. Em 5 de abril de 2024, viajou especificamente a Ushuaia para receber ­Laura Richardson, então chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, estrutura militar norte-americana responsável pela América Latina e o Caribe. Lá, vinculou explicitamente a soberania argentina à base austral e à aliança com Washington. “A soberania não se defende com isolacionismo e discursos bombásticos.” E acrescentou: “O melhor recurso para defender nossa soberania é fortalecer nossa aliança estratégica com os Estados Unidos”.

Imagem: Kevin Dietsch/Getty Images/AFP

A relação com o Comando Sul prosseguiu. Em abril de 2025, seu novo chefe, o almirante Alvin Holsey, visitou Milei, o Ministério da Defesa e, posteriormente, a própria base de Ushuaia para conhecer suas capacidades e o papel estratégico das rotas marítimas do extremo Sul. Em 2026, a cooperação deu mais um passo. A Argentina assinou uma carta de intenções com o Departamento de Defesa dos EUA no âmbito do programa 333 para desenvolver capacidades de vigilância e controle marítimo ao longo de cinco anos. O próprio governo argentino informou que alguns equipamentos dos EUA começavam a chegar. Ushuaia, o Atlântico Sul, a vigilância marítima e a projeção antártica foram incorporados a uma cooperação militar cada vez mais estreita com Washington.

A mudança de Milei em relação às Malvinas coincide com uma circunstância internacional excepcional. Trump mantém um atrito temporário com o Reino Unido em uma aliança que permanece estrutural. O republicano tem exigido o aumento dos gastos militares dos aliados europeus, e a guerra com o Irã adicionou diferenças concretas sobre o alcance da cooperação britânica, o uso de instalações como ­Diego García e a segurança do Estreito de Ormuz. Londres participa de operações relacionadas à liberdade de navegação e desminagem, mas as divergências sobre como apoiar a campanha dos EUA geraram tensões. Nesse contexto, Trump insinuou que poderia rever a posição norte-americana sobre as Malvinas. Milei aproveitou imediatamente a oportunidade.

Os Estados Unidos ainda não mudaram formalmente sua posição. ­Washington não reconheceu a soberania argentina nem exigiu publicamente negociações de soberania com Londres, em conformidade com a Resolução 2065 da ONU. As Malvinas podem tornar-se uma ferramenta para pressionar o Reino Unido em conflitos que pouco têm a ver com a Argentina. Milei, por outro lado, tenta usar essa disputa para se apresentar internamente como o presidente que conseguiu modificar a postura dos EUA.

A baixa credibilidade do nacionalismo retórico de Milei, refletida na pesquisa Management & Fit, provavelmente se deve às políticas implementadas até o momento. Ele criou o RIGI, um regime que garante condições tributárias, alfandegárias e cambiais extraordinárias para grandes investimentos, principalmente em mineração e energia, por 30 anos. Ao mesmo tempo, promoveu a flexibilização dos limites à propriedade estrangeira de terras e aprofundou os acordos com Washington sobre minerais críticos, telecomunicações, infraestrutura e cooperação militar. Os Estados Unidos buscam minerais críticos, menor influência chinesa e maior integração militar, enquanto o argentino faz de Washington o eixo de sua política externa.

Milei descobriu que o nacionalismo rende dividendos eleitorais. A sociedade argentina, por sua vez, parece perceber que nem todo nacionalismo é soberania. •

*Jornalista argentino, é codiretor do site “Ya hora Qué?” Foi subdiretor do diário Página/12 e presidente da agência de notícias Télam.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Nacionalismo de fachada’


Martín Granovsky

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Fonte: Carta Capital

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