Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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O significado da primeira vitória eleitoral da extrema-direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial

“Estamos escrevendo a história”, anunciou no domingo 6 o sorridente ­Ulrich Siegmund, ao celebrar o desempenho de sua legenda, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), na região da Saxônia-Anhalt. O enérgico e atlético Siegmund talvez tivesse sido mais preciso, em todo caso, se dissesse revisitar a história em vez de escrevê-la, pois essa foi a primeira vez que um partido radical como a AfD alcançou uma vitória eleitoral numa das 16 regiões da federação alemã desde a ascensão do nazismo.

A rigor, a AfD não é um partido nazista. Mas as declarações de muitos de seus dirigentes são tão indistinguíveis do discurso original do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, fundado em janeiro de 1919, e ao qual Adolf ­Hitler­ se uniu em setembro daquele ano, e tão complacentes sobre o passado nazifascista da Alemanha que a legenda passou a ser monitorada pelo serviço nacional de inteligência, além de ter sido classificada como “comprovadamente” de extrema-direita, selo que, no país, carrega peso histórico adicional.

Sua bandeira mais conhecida é aquela do combate à imigração. Os integrantes da AfD não abordam, porém, a questão apenas por meio de argumentos econômicos, como da competição no mercado de trabalho ou da sobrecarga aos serviços sociais. A legenda recorre a argumentos raciais e culturais, exaltando uma suposta identidade alemã incorruptível. Essa concepção traz embutida um ideal de pureza inata, supostamente amea­çada pela miscigenação. No plano de governo, a palavra que aparece é “remigração” – ou a simples deportação em massa de imigrantes, algo que remete à imagem das expulsões massivas de judeus nos anos 1930 e 1940. Além disso, o partido defende a manutenção da transmissão da cidadania alemã apenas por consanguinidade (jus sanguinis), não por local de nascimento, o que significa que um filho de imigrantes nascido em território alemão nunca terá direito à cidadania.

Imagem: Governo da Polônia

Ideias como essa levaram a AfD a receber 43,8% dos votos do 1,7 milhão de eleitores da Saxônia-Anhalt. A votação espantosa garantiu à legenda 39 dos 83 assentos no Parlamento regional, suficiente para assegurar uma maioria confortável, mas não absoluta. Para chegar às 42 cadeiras necessárias, a agremiação extremista deve recorrer a uma aliança excêntrica com o minúsculo BSW, formado por ex-integrantes de um partido radical de esquerda saudoso da Alemanha Oriental. Se não funcionar, devem tentar cooptar ao menos três deputados insatisfeitos da União Democrata-Cristã (CDU), agrupamento do atual chanceler, Friedrich Merz.

A Saxônia-Anhalt, palco desse renascimento eleitoral da extrema-direita alemã, fez parte do bloco socialista até a reunificação em 1990. Seus moradores são sensíveis ao discurso saudosista da AfD. Embora de extrema-direita, o partido vende aos eleitores da região a ideia de regresso a um ideal nostálgico, iconoclasta e fetichista, associado ao período da Guerra Fria, quando a região tinha administração socialista. Siegmund tem por hábito pilotar uma das antigas scooters Simson ­Schwalbe, usadas, no passado, do lado oriental.

Se a AfD conseguir formar um bloco majoritário, Siegmund será o novo governador. Mas as pretensões dele e da AfD não param por aí. Logo após a apuração dos votos, ele fez um discurso no qual prometeu formar “uma zona econômica especial na Alemanha Oriental”, unindo os governos da Saxônia-Anhalt e do estado vizinho da Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, onde o candidato Leif-Erik Holm, também da AfD, lidera as pesquisas para as eleições regionais que ocorrerão em 20 de setembro. O cinturão seria composto ainda pela Turíngia, onde a AfD alcançou impressionantes 32,8% nas eleições passadas, de 2024, com chances reais de amealhar o governo na próxima, em 2029.

Se o plano for concluído, será um embaraço tanto para o governo nacional de Merz quanto para a integridade da União Europeia, de forma mais ampla. O atual chanceler, que ostenta o título de o mais impopular da Alemanha desde 1949, se disse “profundamente chocado” com a vitória recente da AfD. “Algo mudou, não apenas na Saxônia-Anhalt, mas em toda a Alemanha. E esse resultado eleitoral terá repercussões que se estendem à situação internacional”, previu.

O partido se alimenta da nostalgia dos mais velhos e do ressentimento dos mais jovens

A ascensão da AfD não é nova. A legenda foi criada em 2013, sob a base sólida do ressentimento alemão com a crise do euro, e cresceu desde então ancorada no discurso ultranacionalista, nativista e de antagonismo com a União Europeia, recurso ao qual todos os partidos de direita radical no continente costumam recorrer. Desde 2025, a legenda ocupa um quinto dos assentos do Bundestag, o Parlamento alemão, e projeta obter 40% das cadeiras nas eleições nacionais de 2029, se Merz não cair antes e elevar o risco de uma disputa antecipada.

O motor do crescimento da AfD é movido pela nostalgia dos velhos e o ressentimento dos jovens. Suas franjas mais radicais se misturam com grupos neonazistas violentos, e alguns de seus integrantes não relutam em estender o braço, fazendo a saudação nazista mesmo diante das câmeras. Seus líderes nacionais mais conhecidos, como Alice Weidel, minimizam o passado nazista e defendem que o país dê um giro de 180 graus na forma como lida com a própria memória, acabando com o mea-culpa e exaltando aspectos mais edificantes da história nacional. Alexander Gaulant, um dos expoentes nacionais, chegou a dizer que o nazismo não passava de um detalhe – uma “titica”, literalmente – no conjunto da história alemã.

O desempenho eleitoral da AfD tende a animar legendas semelhantes por toda a Europa. A Itália terá eleições nacionais até o fim deste ano. A atual premier, Giorgia Meloni, moderou o discurso, mas é pressionada por novas personalidades, mais radicais, como Roberto Vannacci, que sugere ao atual governo se radicalizar para ganhar votos. A França vai às urnas em 2027 sob a sombra de Marine Le Pen, candidata de extrema-direita que aparece à frente em algumas pesquisas. Na Espanha, o Vox, ultranacionalista e anti-imigração, testará seu apelo nacional nas eleições de agosto, enquanto, no Reino Unido, um combalido Nigel Farage, do Reform UK, perde espaço para figuras ainda mais populistas e radicais, entre elas o magnata Rupert Lowe, do Restore Britain. •

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Heil, AfD’


João Paulo Charleaux

Jornalista, escritor e analista político. Autor de “As Regras da Guerra” (Zahar). Escreve sobre direito internacional dos conflitos armados e questões humanitárias.

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Fonte: Carta Capital

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