Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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Existe um golpe em curso e o terrivelmente bolsonarista é um de seus artífices

Em momentos de grave crise institucional, a procrastinação não é prova de temperança. E a crise em curso é grave. Não pode ser resolvida por discursos. Há um golpe em curso, uma conti­nuação do 8 de Janeiro de 2023. Entre a prisão dos culpados pela investida contra a democracia e esta véspera de eleição presidencial, e desde dezembro do ano passado, quando assumiu a relatoria do Caso Master na Corte presidida por Vossa Excelência, André Mendonça, o evangélico terrivelmente bolsonarista, urdiu uma trama que levou o Supremo às cordas.

Se não resistir agora, o STF, cuja firmeza e unidade foram determinantes na defesa das instituições em 2023, enfrentará desunido e fraco eventuais investidas autoritárias nas eleições deste ano. Mendonça implode a Justiça e o Supremo precisa estar forte para resistir a um golpe que, insisto, está em curso. A ação desestabilizadora de Mendonça é estratégica nessa conspiração contra as instituições.

Nos meses que sucederam a assunção de Mendonça à relatoria da investigação sobre o Caso Master, a maior fraude bancária da história do País, houve usos e abusos dos poderes a ele conferidos para ferir adversários políticos e dividir o tribunal. Eu sei, a Justiça tem seu próprio tempo, e não dá para tirar do chapéu uma solução rápida para coibir as liberalidades a que os integrantes da Corte se permitiram, driblando normas sem incorrer necessariamente em crimes, ou neles incorrendo, e que agora servem para o jogo de chantagem contra as instituições de um relator terrivelmente mal-intencionado.

Esses fatos se sucedem devido a limites inexistentes ou pouco claros na lei: os beneficiados andam na fronteira entre o legal e o ilegal e erodem a imagem do Supremo e, nesse quesito, Mendonça está tão encrencado quanto Toffoli, Mendes ou Moraes. Esse, todavia, é um problema que deve ser encarado pelo Ministério Público, pelo Conselho Nacional da Magistratura, pelo Congresso, ou simplesmente por mudanças no Código de Ética do Supremo. A despeito de parecer politicamente incorreta (não sou: apenas lembro que o uso da moral udenista consome as elites brasileiras desde que existia a UDN de Carlos Lacerda, quando isso parece conveniente a elas), esse é um assunto para a Justiça, que tem seu tempo. A defesa da democracia, todavia, é urgente. Não é necessário rito regimental para assumir uma postura firme contra um golpe em curso. Não é prudente relativizar as culpas processuais de Mendonça na condução dos processos sob sua responsabilidade porque outros ministros erraram. O que importa agora é a defesa da democracia e o reconhecimento de que o terrivelmente ministro tem sido terrivelmente nefasto à democracia.

Mendonça implode a Justiça e o Supremo precisa estar forte para resistir a um golpe Que, insisto, está em curso

O poder de Mendonça sobre a instituição STF se expandiu por meio da chantagem, uma vez de posse de “provas” mantidas em seu gabinete, ao arrepio da lei. Na reunião da Segunda Turma que ele próprio convocou, enquanto o senhor pensava, com seus botões, se devia ou não assumir a relatoria dos casos ­Master e INSS, desalojando Mendonça de sua trincheira golpista, votaram a favor da proposta para afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei ­Rodrigues, e o chefe de Inteligência do órgão, Leandro Almada, os ministros Luiz Fux e ­Kassio­ Nunes Marques (cujos filhos foram beneficiados por Vorcaro), além do próprio Mendonça. Dias Toffolli havia sido emparedado antes – era o relator do caso e foi afastado depois de vazamentos sobre os negócios de sua família com o banqueiro. Não é surpresa que, nesse colegiado, a votação pró-intervenção na PF tenha obtido três a favor (de Mendonça, Fux e Nunes Marques) e uma abstenção (Dias Toffolli). Gilmar Mendes, que não devia nada, nem tem personalidade para se submeter a um ministro desqualificado técnica e moralmente, pediu vistas.

O terrivelmente Mendonça, portanto, se apropria de provas para submeter o Supremo. Se não for contido, fará a proeza de, até o fim das eleições, ter enfraquecido também a Polícia Federal, cujo papel foi preponderante para desmontar a máquina militar-bolsonarista do golpe e botar os responsáveis graduados na cadeia. O conluio entre Mendonça e a mídia tradicional simplesmente fez sumir do noticiário o envolvimento de Flávio Bolsonaro, o candidato bolsonarista, com o caso Master. E as ilegalidades cometidas pelo ministro simplesmente anularão as investigações contra Daniel Vorcaro, o “irmãozão” de Flávio, e o libertarão sem que ele precise prestar contas à Justiça.

Se Lula vencer as eleições e houver um golpe, o STF e a PF o enfrentarão como um exército de Brancaleone, caso não se arrume a bagunça institucional produzida por Mendonça.

Caro ministro Edson Fachin, por favor, ande rápido. Nessa conjuntura internacional, e com riscos de perder a soberania para o principal interessado na desestabilização da nossa democracia, o terrivelmente imperialista ­Donald Trump, o Brasil vai virar uma Venezuela. •

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Exmo. senhor ministro Fachin’


Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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Fonte: Carta Capital

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