O sucesso de um IPO na Índia aponta o caminho para o que Lula procura no quarto mandato: soberania digital
Por Leonardo Attuch — Brasil 247
Por Leonardo Attuch, de Nova Déli — Um dos IPOs mais impressionantes do mercado indiano em 2026 oferece uma pista sobre o grande desafio que o Brasil terá de enfrentar caso Lula conquiste seu quarto mandato: transformar soberania digital em política de Estado.
A ESDS Software Solution, empresa indiana especializada em computação em nuvem, data centers, segurança digital e infraestrutura de inteligência artificial, estreou nas bolsas indianas em 4 de setembro de 2026, depois de realizar seu IPO com ações precificadas a 429 rúpias. Em poucos pregões, o papel ultrapassou 1.700 rúpias e a companhia alcançou valor de mercado próximo de US$ 2 bilhões.
Uma valorização dessa magnitude pode naturalmente conter excessos especulativos. Mas o fenômeno revela algo maior: o mercado está atribuindo enorme valor à infraestrutura que sustentará a economia da inteligência artificial. E isso interessa diretamente ao Brasil.
A nova fronteira da soberania
No século XX, soberania significava controlar território, energia, petróleo, indústria e comunicações. No século XXI, significa também controlar dados, capacidade computacional, nuvens, algoritmos e inteligência artificial.
Um país que entrega integralmente essas infraestruturas a empresas estrangeiras pode continuar independente no mapa, mas será progressivamente dependente no mundo real.
Esse é um dos grandes debates que o Brasil precisa enfrentar.
O País reúne condições extraordinárias para se tornar uma potência digital. Tem mais de 200 milhões de habitantes, enorme mercado interno, universidades e empresas tecnologicamente avançadas e, sobretudo, uma matriz energética predominantemente renovável.
Na era da inteligência artificial, energia limpa e abundante passa a ser também vantagem tecnológica. Os gigantescos data centers necessários para treinar e operar modelos de IA consomem quantidades crescentes de eletricidade.
Mas seria um erro histórico transformar o Brasil apenas numa grande tomada elétrica para as big techs estrangeiras.
Lula precisa colocar a soberania digital no centro
Se um quarto mandato pretende representar uma nova etapa do desenvolvimento brasileiro, não bastará aprofundar a neoindustrialização. Será necessário compreender que a infraestrutura digital é a nova infraestrutura industrial.
O Brasil precisa de data centers em território nacional, capacidade própria de processamento, nuvens soberanas, infraestrutura de GPUs, segurança cibernética e modelos de inteligência artificial capazes de compreender nossa língua, nossa cultura, nossas instituições e nossos interesses nacionais.
Não se trata de fechar o País às empresas estrangeiras. O Brasil precisa dos Estados Unidos, da China, da Índia, da Europa e de todos os parceiros dispostos a investir e cooperar. Mas cooperação não pode significar submissão.
A pergunta fundamental deve ser sempre a mesma: quanto conhecimento, capacidade tecnológica e poder de decisão permanecerão no Brasil?
A lição indiana
A Índia oferece uma referência particularmente interessante porque procura combinar abertura econômica com autonomia estratégica.
O país coopera com diferentes centros de poder sem aceitar que sua inserção internacional implique renúncia à soberania. Essa concepção começa a aparecer também na infraestrutura digital.
A ESDS é um exemplo dessa transformação. Sua estratégia inclui data centers, capacidade de processamento para inteligência artificial e sovereign cloud, ou nuvem soberana, baseada no princípio de que dados estratégicos devem permanecer sob jurisdição nacional.
Brasil e Índia têm condições de aprofundar justamente esse tipo de cooperação.
São duas grandes democracias do Sul Global, economias continentais e sociedades plurais. A Índia possui extraordinária capacidade em software, computação e infraestrutura digital. O Brasil oferece escala, energia, mercado e potencial para se tornar um polo tecnológico para toda a América Latina.
A parceria faz sentido desde que tenha como objetivo construir capacidade no Brasil, e não substituir uma dependência tecnológica por outra.
A Petrobras da era digital
Há uma comparação histórica que ajuda a dimensionar o problema.
O Brasil do século XX compreendeu que não poderia abrir mão de instrumentos nacionais em setores estratégicos. A criação da Petrobras nasceu dessa percepção. Energia significava poder, desenvolvimento e soberania.
Hoje, dados e capacidade computacional começam a adquirir importância comparável.
Isso não significa que o Brasil precise criar uma “Petrobras da inteligência artificial” nos mesmos moldes empresariais. Significa compreender a dimensão política do problema.
Quem controla a infraestrutura computacional controla uma parcela crescente da economia, da informação, da ciência, da defesa e até da capacidade dos Estados de formular políticas públicas.
Por isso, soberania digital não pode ser tratada como assunto restrito a especialistas em tecnologia. É uma questão de soberania nacional.
A agenda do quarto mandato
O sucesso do IPO da ESDS, em 4 de setembro, deve ser observado menos como uma curiosidade do mercado financeiro indiano e mais como um sinal dos tempos.
O capital está correndo para a infraestrutura da inteligência artificial porque percebeu que ali estará uma parte fundamental do poder econômico das próximas décadas.
O Brasil não pode assistir a essa revolução como consumidor. Se Lula vencer novamente, como se espera, seu quarto mandato terá diante de si a oportunidade de completar uma transição histórica: depois de recolocar a indústria, a energia e a soberania no centro do debate nacional, será necessário acrescentar uma nova dimensão ao projeto brasileiro: a soberania digital, exatamente um dos fatores do sucesso do IPO da ESDS.
Fonte: Brasil 247